Em memória do Extraordinário e nobre patriota Pára-quedista, Franklin Branco Armindo, deixo o legado de reconhecimento que muito me conforta e recorda o tempo das grandes dificuldadeds de resistência ao desgaste na guerra em Moçambique.

Apologia da Coragem
Porque as vivências do Joaquim Coelho, nas guerras ultramarinas, foram muito mais alucinantes e atractivas do que a normalidade dos combatentes empenhados numa guerra de imprevisíveis finalidades, por imperativo de consciência, mesmo correndo o risco de ser mal compreendido pelos meus camaradas de armas, entendi ser de primordial importância proclamar a necessidade de aflorar questões inequivocamente incomuns mas complementares à ideia da publicação de extractos da vida de muitos camaradas e companheiros de missões militares nas guerras africanas.
Atendendo ao meu passado de graduado na Mocidade Portuguesa, onde aprendi a amar e defender os valores patrióticos, jamais a minha consciência permitiria apoiar acções ou testemunhar, sob palavra de honra, em quaisquer situações que pudessem causar danos à instituição militar da minha opção profissional. No entanto, porque sempre acompanhei e vivi de perto as atribuladas vivências do sargento Coelho, em grande parte, causadas por questões anómalas contra a sua salutar rebeldia e afrontamento dos poderes obscuros, tenho de reconhecer a abnegação, a coragem, o saber, a lisura de comportamentos e a solidariedade para com todos os seus camaradas de armas que a hierarquia mais retrógrada tentava ofuscar e rebater.
Prestei o meu testemunho abonatório perante os censores que o quiseram silenciar, cortando os textos que enviou ao jornal “Notícias da Beira”, por causa do manifesto ponto de vista sobre as populações “recolhidas” dos acampamentos que assaltamos em zonas de guerra. A verticalidade e coragem deste homem sereno manifestou-se publicamente no decorrer do “inquérito” disciplinar que reclamou ao senhor Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, como forma de demonstrar a sua inocência e destruir a “tese maquiavélica” urdida na “participação” do tenente Castro Gonçalves, que atirava para o sargento Coelho as culpas do fracasso de uma operação de assalto a acampamento inimigo na zona do rio Mulunga, estrada do Chai. Com aprumo e surpreendente sentido de humildade, soube ultrapassar a tentativa de “humilhação” prognosticada pelo comandante de batalhão, tenente-coronel Argentino Seixas, que o proibia do uso de armas militares, enquanto decorresse o inquérito disciplinar. Por ironia, afrontou tal determinação fazendo uso de uma pequena pistola civil, que exibia airosamente num minúsculo coldre à cow-boy! Retirado dos combatentes operacionais, cumpriu com extraordinária dedicação o dever de vague-mestre, durante sete meses, proporcionando aos seus camaradas, em operações, alimentação e apoio logístico com qualidade e atempadamente.
Só um homem com a calma e inteligência do Joaquim Coelho poderia desembaraçar-se de situações complexas em que se envolveu: A forma eficaz como interveio na deserção de militares da Força Aérea da Zâmbia, onde me envolveu, juntamente com o Vicente e o Figueira, na segurança do aeroporto de Lourenço Marques, para aterragem e recolha do avião Dakota com dezoito pessoas zambianas; a maneira como se safou das sanções da PIDE, por lhe terem apreendido o passaporte, quando requereu a deslocação à Zâmbia (acabou por fazer a viagem clandestinamente); o seu discreto relacionamento e aparente colaboração com o Engenheiro Jorge Jardim, para que tivéssemos melhores condições de alojamento dentro da Base Aérea 10, na Beira, são exemplos que nos surpreenderam, porque denotam conhecimentos e tendência para acções aventurosas, mas humanistas, sigilosamente ponderadas.
Com uma força moral superior, suplantou as mais difíceis condições de vida nos momentos em que muitos de nós esmoreciam sob o peso das responsabilidades de termos mulher e filhos na metrópole, ou por vermos morrer os nossos camaradas feridos, por falta de condições de evacuação e assistência médica; mesmo quando os responsáveis fraquejavam, o sargento Coelho nunca desistiu de socorrer os mais debilitados. Foi notável a sua resistência ao sofrimento, após a primeira emboscada no Vale de Miteda; embora fisicamente combalido nas costelas e na perna esquerda, deu primazia à evacuação dos restantes feridos, seguindo apeado até Miteda, onde ficou, com mais quatro camaradas, em precárias condições de saúde; providenciou a evacuação de todos para Mueda, através dos seus amigos pilotos da Força Aérea. Por o ter feito à revelia dos chefes de operações, teve de responder a um inquérito disciplinar absolutamente incrível, que teve como relator o major Joaquim Mira Trigo Mensurado, seu “amigo” desde Angola, sobre o qual havia suspeitas de ser “agente” da Pide, dentro dos Pára-quedistas.
Enquanto estivemos deslocados no “deserto” de Nacala, o Joaquim Coelho organizou partidas de futebol e de ténis, providenciando a compra dos necessários equipamentos; marcava horas para discutirmos e analisarmos a situação da guerra e melhorar o ânimo perante a conjuntura. Com o sargento Magalhães da Mota, formou turmas e ministraram aulas aos interessados; com seus trinados na viola, dava-nos o bailinho da Madeira; com fios eléctricos, engendrou uma grande antena triangular onde captava emissoras portuguesas, com um simples rádio de bolso. Nas semanas que permanecemos em Nacala, entre duas intervenções operacionais no Norte, tais actividades lúdicas serviram para minimizar o desconforto pela perda de quatro soldados (Madriana, Farelo, Sousa e Pinto) mortos nas operações entre Nangade e Vale de Miteda, em condições que nos deixaram marcas para o resto da vida.
Não fora a sua natural perspicácia, sabedoria das normas militares e conhecimentos de política internacional, de pouco lhe teriam valido as dezenas de voluntários que testemunharam a seu favor, quando alguns oficiais imprevidentes, com passado nebuloso e pouco recomendável, lhe moveram processos disciplinares injustos e o quiseram aniquilar nos confins da ilha do Ivo. A sua serenidade, os seus préstimos a todos os camaradas de armas, legitimados pela condição de disponibilidade para ajudar em quaisquer circunstâncias, no mato ou no quartel, aliadas à confiança na sua indomável força de comando, fizeram do meu amigo Joaquim Coelho um homem respeitado, exemplo de modéstia e humanismo, digno de elevado apreço entre os que com ele partilharam extraordinários momentos da vida.
- Amigo Joaquim Coelho: Por todo o teu empenho em dignificar as causas nobres da sociedade e os valores místicos desta numerosa família, por todos quantos usam a Boina Verde, até por aqueles militares do Exército destacados nos aquartelamentos isolados do mundo, a quem prestaste ajuda alimentar e moral; pelas tertúlias de séria reflexão sobre o futuro; por tudo quanto sacrificaste dos teus tempos de lazer, o meu bem-haja e que o sucesso jamais te seja recusado. Apesar dos dias de inquietação que tramaram o teu percurso militar, pela temperança e ponderação que sempre demonstraste perante o perigo, o meu eterno reconhecimento. As elevadas capacidades intelectuais demonstradas nos cursos que concluíste, bem como o teu sucesso profissional, confirmam que nunca precisaste de estar refém das apreciações castradoras do “aprumo militar” feitas por oficiais que incomodavas com a tua natural verticalidade e determinação. Obrigado por continuares firme nas convicções e por partilhares connosco situações e vivências que marcarão a história do nosso tempo. Os teus escritos e imagens, recolhidas em jeito de reportagem de indiscutível veracidade, são testemunhos que deves divulgar ao mundo, para registo e memória dos feitos duma geração de homens valentes, porque os nossos filhos e netos merecem saber algo mais sobre as nossas vidas em terras ultramarinas.
Tancos, 23 de Maio de 1991
Franklin Branco Armindo
(Tenente/Coronel/SG/ PQ)












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