quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Recordações Tropicais

GENTE BOA QUE CONHECI… em Angola

Cheguei a Luanda e fiquei fascinado pela beleza da Baía, com seus coqueiros e águas calmas. Isto, cerca de uma semana depois do inico das chacinas dos bandoleiros da UPA contra as famílias dos fazendeiros nas terras do café dos Dembos.

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Embora creditado pela revista "Século Ilustrado", através do director João Pereira da Rosa, fui integrado na equipa de jornalistas chefiada pelo locutor da RTP Artur Agostinho, para fazer reportagem dos acontecimentos do início da guerra; mal tivemos tempo de arrumar a bagagem e definirmos a agenda de trabalho, para podermos respirar os ares de Angola.


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Na reunião de jornalistas e directores dos jornais de Angola, passei a fazer parte do grupo que iria acompanhar a coluna dos Caçadores Especiais, vindos da Baixa do Cassange, na tentativa de romper caminho até ao centro dos Dembos (Quitexe). Aí conheci jornalistas e repórteres de Angola, entre os quais o novato Fernando Farinha (O Comércio), Mário Mota (Província de Angola), Sotto Mayor (Diário de Luanda), João Azevedo (O Comércio) e Antero Santos Gonçalves (Província de Angola).


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Na semana anterior, tinha ficado aprovado para frequentar o curso de Pára-quedistas militares, em Tancos; assim, fui alojado no quartel dos Pára-quedistas da Fortaleza. Na manhã seguinte, avançamos na viagem para o norte, integrados na coluna de viaturas militares e civis. Removendo e cortando árvores que os terroristas tinham atravessado nas picadas, demoramos sete dias a chegar a Quibaxe. Aí, aproveitei a boleia de uma avionete Auster, dos "Voluntários", e regressei a Luanda, para voltar para Portugal e concluir a formação de Pára-quedista. Posso dizer que conheci a "guerra" antes de estar devidamente preparado como combatente operacional!  


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Durante os últimos dias de Março de 1961, na semana antes da Páscoa, participei no encontro de jornalistas e escritores angolanos e cabo-verdianos, na Casa do Porto, onde tive a sorte de encontrar gente culta e afectuosa; conversei e convivi com uma professora franzina, aparentemente, reservada, chamada Maria Ondina, mulher bem afirmada na vida.


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Antes de entrarmos na casa virada para a Baía de Luanda, estivemos no Beileizaão a saborear uns gelados… aí, o jornalista Ernesto Lara Filho, da revista Notícia apresentou-me a irmã, poeta e médica Alda Lara, que havia chegado de Benguela com a Maria Ondina e logo entabulamos conversa sobre novas de Lisboa, e qual o meu papel em Angola! Curiosamente, desenvolvemos uma estranha empatia de cariz “cultural” e emocional. Escrevi um bilhete salientando o meu apreço pelas conversas, ficando assente que iríamos fazer um jogo de troca de cartas escritas, com entrega pessoal para apreciação e aprendizagem. Trocamos ideias sobre os problemas da guerra, onde lhe disse estar em formação militar nos para-quedistas e que iria fazer companhia aos camaradas que já estavam em Angola desde 1960.


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No dia seguinte, depois de ficar definido o trabalho de reportagem com os demais jornalistas e três directores de jornais de Luanda, formando equipa com mais dois repórteres para acompanhar os Caçadores Especiais que avançavam em coluna militar rumo ao norte de Cacuaco e Úcua, fui encontrar-me com a Maria Ondina na esplanada do Polo Norte. Comecei a idolatrar aquela figura frágil, distante, afectuosa. Quando lhe escrevia frases a elogiar os olhos ou a figura esbelta, ela replicava: “não me estás a ver bem… será que vez outra pessoa?” Foi-se embora… para Goa! Estando iminente a invasão dos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, apareceu em Luanda com os “refugiados de Goa”, poucos dias antes do Natal de 1961; passei o Natal em S. Salvador do Congo, com pessoal da 3ª companhaia, e quando regressei a Luanda, soube que a Maria Ondina tinha “fugido” para o oriente.


Nunca mais soube nada da Ondina, a quem fiz dois poemas que publiquei na revista “Notícia”.


Em 1997, fui a Angola com  a finalidade de constituir uma sociedade de construção com um engenheiro português e um coronel das tropas angolanas e, na viagem de regresso a Portugal, encontrei uma antiga colega da Maria Ondina, que me disse saber que a senhora vivia em Braga. Depois de ter acabado o trabalho na Alemanha, em Novembro de 1999, comuniquei com a dita senhora e esta acompanhou-me num encontro com a escritora Maria Ondina Braga. A conversa foi curta e reservada, porque ela estava bastante desgastada… e, pela primavera de 2003, li notícias sobre a sua morte. Enfim, ficou a saudade duma mulher que admirava pela sua tenacidade e luta para se afirmar num mundo bastante complicado, em tempos de bruscas mudanças que a devem ter marcado com escusada severidade, tal era a instabilidade nos territórios onde procurou viver – viagens entre Angola, Goa e Macau, em tempo de guerra. 


In Livro: "Apologia do Romântico" - Edições Sentinela, Joaquim Coelho


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O percurso Itinerante de Maria Ondina Braga


Maria Ondina Braga, através da sua passagem por terras distantes, deixou vários testemunhos. Destacando-se as primeiras crónicas de viagem, publicadas primeiramente no Diário de Notícias e posteriormente reunidas em Eu Vim para ver a Terra (1965), a autobiografia romanceada Estátua de Sal (1969), como testemunha da sua experiência em Macau, e o livro de contos A China fica ao lado (1968).


A solidão e a alienação afetiva acompanham o percurso de dor semeado pelos percorridos territórios longínquos.


“Saudades não guardo, e a solidão em que agora vivo comparo-a a uma casa por alguém varrida de cima a baixo, queimadas todas as recordações, destruídas todas as memórias, a qual resultasse em algo desolado e vazio como um celeiro na Primavera”.


Braga, (citado em Vieira, 2017)


“Corajosa por sair de uma cidade fechada, pequena, e ir para o Mundo. Na sua época era um verdadeiro ato de coragem. Para além disso, a sua interioridade revelava uma pessoa introspetiva, muito sóbria, por um lado, mas intensa ao mesmo tempo”, afirma a Drª. Maria Helena Trindade, em entrevista à RUA.


“Queimei-me ao sol de Agosto. Sou morena.
Tenho os olhos profundos e leais,
Lábios esmaecidos, voz serena,
Cabelos curtos, fartos, naturais. 


Minha alma é feita de sorriso e pena,
Loucuras mansas, doces, outonais…
Sonhos que trago em mim desde pequena,
Saudades que ficaram de meus Pais!… 


Adoro o campo, a paz, a singeleza,
O silêncio da noite, o mar que reza,
A infantilidade, a comoção 


Gosto de Falar só…e às escondidas,
Tenho olheiras escuras, mãos compridas,
E sob o peito, a arder, um coração!”


(citado em Vieira, 2017)


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Uma vida incomum para a sua época


Maria Ondina Braga, nascida a 13 de janeiro de 1932, foi uma mulher e escritora solitária que, após uma vida nómada, regressou à sua terra, onde acaba por falecer, no Lar Conde Agrolongo, a 13 de março de 2003.


“Eu teimo na minha terra: as ruas de Braga, cada esquina, cada pedra, quase um a um, vou transpondo os passeios estreitos das ruas velhas, tortas, a brancura das avenidas, as lojas, as igrejas, os largos. Ando por lá peregrinando. É noitinha, e os sinos a Trindades tantos sinos, meu Deus! Os pardais esvoaçam, murmurantes, nas tílias do jardim. Ando por lá e ninguém dá conta. Que coisa boa!”


 (Braga, A Personagem)


Vive por terras bracarenses até à adolescência, numa família culta, que influenciou a sua escrita e forma de estar. O tio proporciona-lhe uma educação de excelência, aprendendo entre várias outras coisas, a língua francesa. É esta figura masculina que incentiva o gosto da escritora pelas terras desconhecidas.


Na obra de Maria Ondina, uma mulher solitária e independente, são representadas mulheres tristes e revoltadas que denunciam as várias formas de submissão a que estão sujeitas numa sociedade preconceituosa, machista e patriarcal.


..Maria Ondina no Museu Nogueira da Silva em Braga


Professora, escritora, poeta, tradutora, viajante. Maria Ondina Braga deixou o Minho natal e aventurou-se no mundo para se entregar à única coisa que tinha na vida, a escrita. Apesar de todos os lugares que habitou e contemplou, o mais secreto e profundo de todos carregava-o consigo desde criança. Chamava-se solidão e, como uma sombra, espalhou-se nas páginas delicadas dos seus livros.


 Ainda adolescente, parte para Inglaterra, tendo aí concluído um curso superior de língua inglesa, e, de seguida, para França, onde frequentou a Alliance Française. Em 1960 vai para Angola como professora do ensino secundário e, no ano seguinte, para Goa. A invasão do território pelos indianos obriga-a a voltar a Angola e partir para Macau e China.


“Escrevo porque esse mundo que analisei, que vivi, revolucionou-me de tal modo a alma que tinha de o contar. Escrevo porque a experiência que recolhi do mundo transporta-me para a pena”.


“Palmilhei capitais europeias. Sonhei nas terras úberes de África os mais puros, os mais ardentes sonhos telúricos. Nasci numa cidade sossegada com pedras do tempo dos romanos e Nossas Senhoras de todos os nomes. E não posso esquecer Paris- a sedução, o charme de Paris, na grandeza dos Campos Elíseos ou nas ruelas cosmopolitas e boémias de Saint-Michel. Tenho também de lembrar o perfil dos monumentos de Londres por entre os véus do nevoeiro ou o chuvisco gelado. Tenho também de confrontar Angola com Macau para ser que há sangue e saber que há sono. Mas, acima de tudo, quero encontrar-me comigo.”


 (Braga, Estátua de Sal, 1983)


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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Vida em Movimento 2

A MINHA CONDIÇÃO


Desde muito novo comecei a sentir um misto de revolta e de inconformismo por observar situações de injustiça e infundado autoritarismo das autoridades policiais no esbulho dos fracos recursos alimentares dos agricultores, causa de fome e miséria; mas, também, no abuso agressivo dos professores.


Ora, a minha natureza, insubmissa aos ditames dos brandos costumes da sociedade causaram alguns dissabores; razão por que me dediquei à colheita de ensinamentos e de saber, apetrechando-me de meios para continuar a usufruir da natural condição de liberdade, bem como do poder interventivo social e cívico, em prol dum mundo melhor para mim e para todos os meus semelhantes.


Desde a escola primária, passando pelos meandros da disciplina no Colégio João de Deus até à discriminação intolerante na Escola do Infante D. Henrique, comecei a perceber que a vida em sociedade não é fácil, por causa do autoritarismo dos responsáveis sem humanismo.  


A minha passagem pela instituição militar foi multifacetada e controversa desde que me apresentei no Quartel de Arca d'Água, Engenharia 2 do Porto, como analfabeto. Havia uma razão importante para não ter dado conhecimento das habilitações e finalista do curso de laboratório químico: se fosse para um curso de CSM perdia o ano lectivo e final de curso.


Mas a perspicácia do capitão, que presidia às inscrições dos mancebos e distribuição por especialidades, acabou por me tramar. Perante a circunstância de não ter apresentado certificado de habilitações e ter registado no recrutamento a profissão de auxiliar de laboratório, o sargento que fazia as inscrições chamou o capitão para perceber tal incongruência. Em termos pouco abonatórios da minha identidade, o capitão ditou o meu futuro próximo:


- Manda-o para bombeiro onde pode analisar as águas! Foi assim que passei uma recruta sem grandes esforços, entre o Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto e o quartel de S. Brás, até às manobras nos montes das freguesias da Capela e Figueira e juramento de bandeira, sendo colocado na Base Aérea 1, em Sintra. Aproveitando minha arte de tocar órgão nas igrejas, o tenente Capelão Figueiredo incumbiu-me de participar nas missas da capela da Base da Granja do Marquês, Sintra, com acompanhamento musical. Esta proximidade ao Senhor Capelão permitiu ser despenalizado por não ter dado as habilitações literárias, na condição de escolher uma especialidade da Força Aérea adequada às reais habilitações: Piloto Aviador, Operador de controlo Aéreo ou Operador Cripto. Melhorei a minha condição militar ao concluir o curso de Controlo Aéreo. Com o início da guerra em Angola, por razões preventivas na preparação de combate, optei por ir para os pára-quedistas. Encontrei um ambiente mais aberto à expressão do pensamento, com ampla autonomia da personalidade, onde podiamos evoluir sem as peias do medo de sermos encarcerados por denuncias pelas ideias próprias. Com o movimento de vários milhares de mancebos na instrução, dura e exigente, começaram a aparecer oficiais sem a necessária formação para entender as diferenças de personalidades uriundas do meio agricola e sedentos de liberdade de expressão, contrastante com o meio civil, bem sinalizado pela opressão das forças da ordem instituida. Logo, o meu modo de lidar com tais oficiais formatados nas Academias militares embateu na barreira da hierarquia arcaica e bacoca; isso causou-me sérios engulhos e desentendimentos, quer no modo de ministrar instrução, quer no trato com os subsordinados. A relutância de alguns superiores herarquicos à minha disponibilidade de dar aulas do ensino secundário aos soldados, chegou ao absurdo de me acusarem de contribuir para dificultar a liderança e comando do pessoal mais esclarecido e culto!   


Ora, baseado nos meus conhecimentos e nos ensinamentos recebidos de meu Avô materno, a quem presto eterna homenagem (homem de grande sabedoria, com passagem pela maçonaria, regedor e louvado), sempre agi em função dos meus pensamentos, ideias e capacidades. Por sinal, nunca tive a sensação do arrependimento, mesmo quando percebesse que haveria outros caminhos. Ponderadamente, sempre aceitei outras opiniões, mas decidi segundo os meus propósitos e assumi as consequências com humildade. Porque sempre vivi com natural empenho de prestação para uma sociedade mais inclusiva e igualitária, aproveitei as oportunidades que me foram aparecendo para usufruir do melhor da vida em comunidade, enfrentado as dificuldades com a necessária lucidez para encontrar as melhores soluções. Embora revestido da modéstia das minhas origens, atingi objectivos pessoais e profissionais com o orgulho de chegar ao sucesso por mérito próprio, com a humildade de o saber partilhar com os mais próximos colaboradores.


Em todo o percurso duma vida cheia de peripécias e distribuída por dezenas de países, sempre me soube integrar com naturalidade e entender as diferenças sociais, culturais e cívicas que me abriram amplos e fascinantes horizontes com proveito e prazer. Nunca senti qualquer deslumbramento pelos meus feitos, mesmo os mais inesperados e reconhecidos.


O dom da serenidade e do bom entendimento com as gentes vem do tempo da adolescência, quando participava nas reuniões engendradas pelo Mestre do ensino da língua portuguesa, Pedro Homem de Melo, poeta das tradições camponesas, arauto da divulgação do folclore, onde se agendavam as representações de Ranchos Folclóricos na Rádio Televisão Portuguesa, realizadas nas transmissões, ao vivo, desde o Monte da Virgem. Tive a felicidade de aprender com alguns bons mestres, em todas as áreas de ensino, especialmente em língua portuguesa, filosofia, química e bioquímica.


Assim, desde a vida militar e em todos os cargos profissionais que desempenhei ao longo da vida, soube adquirir o saber e pugnar pela eficiência e aplicação dos conhecimentos mais adequados e eficientes, sem melindrar os meus chefes.


Com tais princípios, sempre me senti livre e vocacionado para a gestão comparticipada pelos meus colaboradores, sem abdicar dos princípios básicos da lealdade e do empenho na prossecução dos objectivos. Enquanto na vida militar senti algumas dificuldades neste entendimento por parte de parte da hierarquia, na vida profissional obtive grandes sucessos e reconhecimento.


Nunca fui submisso. E nunca me conformei com o desleixo dos subservientes nem com a passividade dos acomodados. Muito do que faço e escrevo espelha as fases do tempo duma vida intensa, vivida em diversos recantos do mundo e partilhada com muitas pessoas. Continuarei a divulgar conhecimentos e a colocar o meu saber ao serviço dos que me estão próximos, tanto na orientação profissional, como na prevenção da doença e no tratamento das disfunções físicas e psíquicas.


Talvez que os meus amigos venham a entender as razões dos meus percursos e dos meus desempenhos em prol duma sociedade mais culta, mais fraterna e mais solidária. Tenho esperança de que desculparão algumas loucuras, bem como o meu desprezo pelos invejosos, pelos maldosos e medíocres.


Valongo, Maio de 2014


Joaquim Coelho


Tributo aos Amigos e Familiares - VER:


https://www.youtube.com/watch?v=c5U_aESWvUU


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Clik para VER Vídeo:  Amigos mais que Irmãos


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Clik para VER vídeo:  Amigos mais que irmãos


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