sábado, 19 de agosto de 2023

Viver com Esperança e Sorte

ATRIBULAÇÕES CONCERTADAS

Ninguém nasce destinado ao sofrimento e à privação da liberdade. Todos nascemos para sermos felizes!

Se perdemos o entusiasmo pela vida, corremos o perigo de entrar numa onda de desânimo e seguir os caminhos da escuridão. É o entusiasmo que nos faz seguir em busca do objectivo digno que nos preencha a vida por inteiro, sempre com esperança de melhores dias. Os valores humanos são a base para uma felicidade plena.

Investi a vida numa jornada de protecção da Natureza humana, aliviando as mentes obscurecidas e desenvolvendo acções de proximidade com fins propícios ao cultivo da camaradagem e da grata amizade. Sempre na senda da sociedade fraterna e inclusiva, fomentei a cultura com fundamento na capacitação dos valores solidários e partilha do saber generalizado, tanto de afrirmação pessoal como profissionalismo produtivo, dentro do conceito da felicidade plena. Mas nunca deixei de cultivar o saber e adquirir conhecimentos úteis e reconfortantes para uma vida feliz. Talvez seja um sintoma de irreverência, mas faz parte de mim.

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Passei por difíceis bifurcações na vida, em parte compensadas com uma melhoria substancial! Eis alguns episódios:

1º - Quando tinha cinco anos, o meu pai entregou-me uma arma de caça para levar a um “ferreiro” para desencravar um chumbo de zagalote; sem saber como, mexi no gatinho que disparou e a bala furou-me o pé esquerdo; fui socorrido pelas empregadas do Dr. Campos, nosso vizinho, que fizeram os curativos, como era habitual!… depois de curado e alimentado com um bife, apareceu o meu pai, com ar de zangado, mas elas protegeram-me e não o deixaram entrar na casa; quando foram para a cama, duas delas despiram-se e brincaram à minha frente… eu não entendia, mas gostava de ver.

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2º - Depois de fazer sete anos, num despique com minha irmã Conceição, a apanhar pregos do chão, ela empurrou-me e caí de costas… levantei-me muito zangado e dei-lhe um murro na cabeça… tinha pregos na mão fechada, dois ou três ficaram espetados; começou a gritar… veio a mãe e foi curar-lhe a ferida, que sangrava; apareceu o meu pai, vendo que a tinha agredido, deu-me um bofetão que me atirou ao chão, pontapeou-me e feriu-me… chorava com dores e meteram-me na cama, em recuperação. A notícia chegou à minha madrinha, que vivia na quinta da Vila – Termas de S. Vicente, com mais um tio e os avós maternos… levou-me para lá. Gente mais culta e organizada, com melhor forma de vida. O avô ensinava e dava lições de vida aos netos… voltei à escola com muito sucesso, fazendo quatro anos de escolaridade em, apenas, dois! Cresci lesto e saudável para melhor enfrentar a vida.

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3º - Andava no Colégio João de Deus e fazia coisas lindas: tocava o órgão da capela, aprendi a fazer galenas (rudimentar rádio-receptor auto-alimentado) que vendia aos alunos e ganhava bom dinheiro! Os directores descobriram, deram-me castigo com registo na caderneta! Depois, um vigilante deu uma bofetada num aluno, sem razão; tiramos desforra agredindo o gajo… fomos apanhados e expulsos.

O director do Grande Hotel do Porto, pai de uma das minhas professoras, vizinho e amigo do meu pai, sabendo da situação, deu-me emprego no hotel, como ascensorista… passei a ganhar dinheiro, continuei a estudar e deram-me formação de “guia-Turístico” em Londres. Tive sucesso e conheci novos mundos e outras formas de vida.

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4º - Devido ao começo da guerra em Angola, fui desviado da especialidade de Controlo de Tráfego Aéreo para a polícia aérea da Força Aérea… preparava-me para desertar… já na Base Aérea 3 de Tancos, encontrei um camarada do Colégio João de Deus, oficial pára-quedista… disse-me que desertar era não ver mais a família… aconselhou-me e fui para pára-quedista… um  mundo de aprendizagem fascinante e escola de vida… mais tarde, avancei para a guerra, mas bem preparado.

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5º - Em Moçambique, afrontei a hierarquia, com razão… estive detido na ilha do Ivo devido a uma participação maliciosa de um oficial! Reclamei ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea um Inquérito, que foi realizado… mais de 150 camaradas de armas ofereceram-se para testemunharem a meu favor… espanto geral! Os oficiais, cagados de medo do previsível “conselho de guerra”, concordaram em arquivar o inquérito… o comandante Seixas mandou-me de férias para a Europa.

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6º - Num treino de paraquedismo desportivo, fracturei a perna esquerda e tornozelo com fractura exposta… dois meses internado no Hospital de S. João, onde uma gangrena complicou a recuperação; a equipa médica deu conhecimento a minha irmã Margarida que teriam de amputar o pé… sem que eu soubesse! Percebendo a gravidade, consegui mobilizar o Enfermeiro de serviço no fim-de-semana (meu conhecido por prestar serviço no posto de socorros da Siderurgia Nacional); tive a sorte de ele aceitar fornecer produtos e ajudar na administração de um preparado estudado por mim, à base de bacteriostáticos e anti-sépticos, de modo a limpar a parte do pé gangrenado; após duas horas no posto de curativos, o pé parecia estar livre da podridão. Na observação médica da 3ª feira seguinte, optaram por continuar os curativos. Com determinação e sorte, consegui ficar com os dois pés! Estou muito grato às minhas irmãs: Margarida e Conceição, pelo seu empenho no apoio e ajuda durante o internamento e recuperação, bem como aos Amigos incondicionais... e Alunos, a quem ministrei Cursos de paraquedismo desportivo, que me confortram com suas visitas.   ....Coelho-acidente.jpg

7º - Nos dezoito anos de trabalho na Siderurgia Nacional, tive diversas divergências com o director Doutor Mexedo, em parte, por combater uma forte rede de corrupção que delapidava os dinheiros da empresa. Farto daquilo, queria sair com indemnização… convocado para uma reunião com o Director, levei uma granada no bolso e coloquei-a em cima da secretária… o homem fugiu a gritar… alegando que o queria matar; seis meses depois, recebi a melhor indemnização daquele tempo. Passei a independente… liberdade de acção e bons ganhos monetários… até ser ludibriado pelas máfias na Alemanha, quando ajudava o meu irmão Fernando na reorganização dos seus trabalhadores lá destacados.

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8º - Decorria o ano de 2006... Fui à consulta médica saber se as análises davam o cancro como curado. Os médicos informaram-me que tinha outro! “o senhor está muito mal, talvez já não se aguente para além de três meses…”. Protestei que tinha trabalho para mais de vinte anos… tinha que viver!

Aproveitando os conhecimentos de bioquímica, fui à procura de médicos amigos… crente na possibilidade de fazer a quimioterapia que os médicos não aconselhavam!

Vagueei por aí… e quando descia a Avenida Visconde de Barreiros, na Maia, um automóvel parou de repente, ali ao meu lado… “olha o amigo do Saraiva! Ainda agora estive com ele… disse-me que você é um às na fotografia, entre aqui”… efectivamente, eu tinha um amigo “Saraiva” na Siderurgia Nacional… e entrei; mostrou-me uma maleta com máquina fotográfica… “cento e cinquenta euros e é para si”. Respondi que só tinha cem euros… entregou-me a máquina e dois relógios de oferta! Estava com pressa, saí do carro… abri a maleta, porra! Fui enganado.

Meio incrédulo com o acontecido, virei para circular por cima do Venepor, a ver montras… nem queria acreditar, na montra duma farmácia vi um AVISO: “fazem-se análises a tal e tal… concentração de células cancerígenas, plaquetas e hemoglobina.” Pensei: tenho o problema do controlo da quimioterapia particular resolvido, disse para comigo! Com os médicos Amigos e um Enfermeiro do Posto de Saúde de Ermesinde, avançamos com as sessões (à minha maneira) e, dois meses depois estava livre de células cancerígenas!

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Confirmei que, muitas das nossas quedas, são seguidas de um novo impulso, mais vigoroso e triunfante.

Mas, ao observar a sociedade, senti um grande infortúnio e desapontamento - encalhei nos rochedos do pensamento, ao indagar porque há tanta gente que enriquece sem trabalhar e muitos outros a espalhar tenebrosas maldades!

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A vida na sociedade mecanizada é como navegar em mar revolto: é preciso inteligência e determinação para sobreviver; sabedoria para ganhar; garra para o sucesso; e, quem não lutar arduamente, arrisca-se a ficar na berma do caminho, na iminência de cair na sarjeta e sentir amarga derrota.

Portanto, temos que manter viva a esperança… e continuar a CAMINHAR; há sempre uma hora mais favorável e com vento de maré, para um novo impulso!

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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Memórias dos Amores Tropicais

   PERDULÁRIOS DO AMOR

   Quando dou guarida ao raciocínio lógico algo me diz que qualquer coisa está para acontecer na minha vida… porque, muitos episódios passaram por mim e a memória os deixa escapar em cada dia que me encontro barricado na recordação dos abrigos do tempo da guerra em África. De repente, surgem as imagens, muitas e claras, que me fazem sentir saudades de alguém com quem partilhei momentos de ternura e também sentimentos de amor. Foram dias e anos de conflitos entre a ternura, o amor, a camaradagem e a guerra. Mas eu sabia que tinha um destino e que a vida não iria ser fácil; por isso nunca desisti de equilibrar os sentidos até ao dia do regresso.

   Eu gostaria de ter vivido uma vida mais recatada, mais próxima das minhas raízes, sem ter que desenterrar as tristezas dos dias amargos passados no meio das matas e das savanas cheirando a guerra que deixou cicatrizes que jamais se escaparão da memória. Para fugir à psicose dos traumas da guerra, onde vi os amigos e companheiros a morrer sem que os pudesse salvar, porque os meios eram escassos e as distâncias dos locais de apoio eram impossíveis de vencer sem aeronaves adequadas, tive que aventurar-me nas viagens sem destino, passando por locais imprevistos. Foi uma forma de escapar à desgraça dos traumas, escapulindo-me para as pistas de aviação por onde passavam táxis aéreos pilotados por antigos companheiros da Força Aérea; aí, pacientemente, esperava boleia para qualquer ponto de África! Com a anuência dos comerciantes que contratavam os serviços dos aviões, percorri muitas dezenas de locais da imensa terra africana a sul da linha do Equador. Foram experiências de extraordinárias viagens de aventura e recreio onde aprendi a amar a natureza e as mulheres com seus matizes indecifráveis, respeitando os valores da amizade e da partilha.

 


   Em certas ocasiões, nessas viagens de destino incerto, me interroguei se não seria estupidez embarcar no avião sem saber para onde ele ia. Enquanto esperava na solidão das pistas do interior, olhava em todas as direcções e não vislumbrava motivo para aquela apetência de viajar na aventura do desconhecido. Algumas vezes, fui enganado! Se pedia para ir a determinado local, porque tinha interesse em fazer reportagem, o piloto dizia que sim senhor, ia para lá… mas só depois de passar por outros locais do seu interesse e, quantas vezes, em sentido oposto à direcção que eu pretendia seguir. Nunca podia levar as coisas muito a sério – aventura é aventura, e valia a pena!

Quantas vezes, as demoras nos percursos indefinidos comprometiam as reportagens que tinha planeado com vista a colaboração com os jornais “Notícias da Beira” e “Diário de Moçambique”. Foram casos raros, mas aconteceu chegar aos locais dos eventos depois dos mesmos terem terminado; foi o caso duma reportagem sobre um Torneio de Pára-quedismo na Rodésia do Sul (no governo de Iam Smith).

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   Lembro-me de ter sentido saudades das namoradas; isso motivou uma viragem na minha forma de convocar o amor para me aliviar as dores da guerra. Começava a detestar a guerra que já me causava indignação por causa dos interesses estrangeiros nos territórios ultramarinos portugueses; para não afrontar os colonos com essa realidade, apoiei-me nas amizades com ternura. Ou seja, depois dos dias frustrantes e dolorosos passados em missões de combate nas longínquas terras do norte de Moçambique, comecei a aproximar-me mais das moças da Beira, mantendo um namoro saltitante até encontrar uma jovem que não levava o namoro a sério, mas me fascinava pela simplicidade do comportamento e pelos momentos de carinho que me ajudavam a manter o equilíbrio emocional e a mente a funcionar com todos os neurónios; a sorte foi tanta que a própria família me adoptou no seu ambiente de amigos.

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   Há episódios que não sei explicar, mas que criaram um ambiente bastante apelativo às cenas de ternura envergonhada. Em determinados dias da semana, era costume da casa dessa família de “acolhimento” fazer bolos para o fim-de-semana. Pois, sendo bioquímico, participava com sugestões de novas receitas que nem sempre resultavam muito bem. Essas experiências na cozinha criavam um clima sensível aos toques carinhosos que se prolongavam com sensualidade nos rostos envoltos na farinha e no açúcar, ingredientes dos bolos. É por isso que sinto saudades desses tempos que marcaram bem a minha vida e fazem parte das minhas memórias. A simplicidade misturada com muita ternura proporcionava gostosos momentos de amor.

Estes sinais de vitalidade fazem-me acreditar que a vida vale sempre a pena, mesmo que o destino nem sempre seja direccionado para a fortuna. Que mais posso desejar do que a saúde para saborear os gestos de amor e viver a fantasia dos dias bem vividos junto de pessoas que nos são afins.

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   Será o destino um flagelo que me acompanha de braços abertos em comunicação com os desprotegidos? Eu perco-me no emaranhado dos inesperados problemas, olhando em redor, e nada encontro que alimente o sentimento que sinto por ti.

Assim, vou seguindo o sentido do tempo em que o sol nos contemplava nas terras da Beira - tão ingénuos e castos.

Lanço minhas preces ao céu que tudo abarca e não sei onde estás. Mas sigo meu sortilégio ao encontro dos sonhos que as noites tropicais nos proporcionaram, os toques das nossas peles ternas e cálidas ficaram como o estigma das sensações que nos refrescaram a alma e fizeram de nós uns simples perdulários do Amor! Tanta luz e tanta ternura que nos fascinou até que perdemos o rasto de nós próprios. Em qualquer parte deste planeta, temos que ser felizes. E somos Felizes!

Na contemplação destes espaços que a natureza me faculta sem nada me pedir, tento memorizar as emoções e ascender ao mundo excêntrico dos sonhos prismáticos, onde possa sublimar os desgostos, depurar todas as misérias que a guerra nos traz e absorver a ternura dos olhos das crianças inocentes.

O regresso chegou em dia de Primavera, logo todo o horizonte se engalanou florido e promissor com esperança de dias mais airosos. O meu fadário foi bem recheado de acontecimnetos na evolução dos sentimentos e das convicções que me conduziram até ao cimo da colina. Daqui vejo todos os Amigos e camaradas de todos os tempos e posso contemplar as estrelas que nos alumiam os caminhos com alegria e contentamento, por merecemos essa dávida dos deuses.

Vila Nova de Gaia, 20 de Julho de 2019

Joaquim Coelho

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POST-SCRIPTUM:

Muitos anos depois, encontrei a “menina” que me ajudou a combater os dias de angústia. Lembrando os tempos desse aconchego, ambos sentimos saudades dos ditosos dias de fazer bolos. Com uma expressão carinhosa, foi dizendo que nunca esqueceu os “miminhos” que lhe proporcionei e os bolos que saíram mal. Ah que saudades! 

                                                  Joaquim Coelho

In livro "Apologia do Romântico", de Joaquim Coelho

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