A Vida aos Saltos
Em consequência de nefastas apreciações do caracter e do meu “aprumo militar”, decidi frequentar o Curso de Paraquedismo desportivo num Centro-Escola de Paraquedismo em França; mais precisamente “Centre-École de Parachutisme Bergerac”. Aproveitando o período de férias, por informações colhidas junto do alferes paraquedista Lobo de Oliveira, apresentei-me naquela escola e, depois de duas semanas de treinos intensos, sob orientação do director e exímio pára-quedista Christian Moreau, terminei o Curso no dia 14 de Maio de 1965, uma sexta-feira luminosa e com temperatura amena.

Apesar dos cuidados com o equipamento e pormenores de preparação para os saltos, deliciei-me com as paisagens de grandes vinhedos e monumentos muito antigos espalhados entre florestas e vinhas. Tive oportunidade de provar os saborosos vinhos da região da Aquitânia e deslumbrar-me com a beleza das típicas habitações e ruas medievais.

Perante a estátua de Cyrano de Bergerac, recordei algumas das histórias contadas sobre este homem, escritor e crítico dos seus professores, de nariz comprido e de ascendência Gasconha e destacado militar.

Região de terras planas de bons vinhedos, bem perto das castas de Bordéus, onde habitam camponeses e comerciantes com tradições ancestrais. Os vinhedos plantados em volta da cidade produzem excelentes tintos baseados nas castas Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Nas brancas predominam a Sauvignon Blanc e Semillon.
A região não é tão famosa quanto a sua vizinha Bordeaux. Em Bergerac produzem-se vinhos de alta qualidade. Os tintos são vinhos encorpados, com taninos especiais e bons acompanhantes de pratos à base de molhos mais reforçados.

Num tempo sem tempo para incómodos com ninharias abstratas, o capitão paraquedista Rua (chefe dos serviços de informação e tipografia) “participou” ao comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, Mário Robalo, que o sargento Joaquim Coelho deveria ser punido disciplinarmente e proibido de continuar a dar aulas aos militares, dentro do quartel. Na “participação de 25 linhas” lembrava que o Coelho, depois de advertido para as consequências de possíveis quebras de disciplina perante as praças, não havia acatado a sua chamada de atenção e que, tal teimosia, poderia criar situações de conflito com a hierarquia militar! O comandante Robalo era pessoa de uma notável sensatez e, na reunião com os dois "beligerantes", mostrou não haver razões para tais "perigos", rasgando a dita "participação disciplinar".

Ora, como decorria o curso de instrutores/monitores onde eu participava, avisei os "alunos" para a suspensão das aulas e que só seriam retomadas um mês antes da preparação para os exames previstos no Liceu Nacional de Santarém.
Mas, como os ratos invejosos e maldosos conseguem nadar à tona e viver com a imundice, não tardaram a arranjar motivos para me afastarem do dito curso. Quando iniciamos os saltos em queda-livre, percebi que o Ângelo Perry abriu o paraquedas na posição de pernas abertas e cabeça para baixo, tendo rasgado a calote do para-quedas! Após o almoço, ao sair do clube de sargentos, vi o Norberto ameaçar o Barista por lhe recusar servir mais um brandy L34! Durante o período de crítica, no final da instrução, denunciei tais situações perigosas para aqueles camaradas de curso; logo a pulhice veio ao de cima e fui afastado do curso… pois, entre os instrutores, havia dois indivíduos prevaricadores no consumo de bebidas alcoólicas!

O curso realizado em França abriu-me novos horizontes na vida e contribuiu para adquirir conhecimentos que fui aperfeiçoando com outros paraquedistas encontrados nos torneios e campeonatos internacionais que, apesar da nossa pequenez competitiva, serviam para salutares confraternizações, desenvolvimento mental e harmoniosa partilha de afectos.

Mais tarde, integrado no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 31 - Moçambique, consegui vencer as "resistências" de alguns revanchistas contra quem não tivesse o curso de instrutor militar. Com autorização do chefe da "manutenção e dobragem", capitão Arlindo Mendes, efectuei alguns saltos de âmbito desportivo, na companhia dos sargentos Camboias, Lourenço e Helder; apesar de tal autorização, em duas sessões de saltos programadas, fui interpelado pelo Major Horácio Oliveira que me impediu de efectuar os saltos com pára-quedas de abertura manual.

Doze anos depois, já na vida civil, a partir de 1979, juntamente com outros Paraquedistas, tais como o coronel Avelar de Sousa, os civis Valdemar Silva, Ramiro Padrão, Manuel Peixoto, Manuel Gonçalves e Avelino Cruz, entendi continuar a desenvolver o Paraquedismo Desportivo, tendo como assessores os dirigentes Manuel Martins e Luis Moreira de Sousa; inicialmente, através do Aero Clube Universitário de Lisboa e, depois, na Associação de Paraquedistas do Norte (onde fui presidente nove anos), no Aero-Clube da Costa Verde (director da secção de paraquedismo) e Aero-Clube de Braga.



Criamos uma dinânica de trabalho organizado e persistente, vencendo dificuldades de meios materiais, em parte suprimidas com a disponibilidade de pára-quedas e pessoal do Corpo de Tropas Pára-quedistas e Base Operacional de Pára-quedistas nº 2 - S. Jacinto, por acordo assinado entre a APN e o Comandante Brigadeiro Pára-quedista Heitor Hamilton Almendra. Coordenados pelo Major Agostinho Cavaco, foram administrados os primeiros cursos com grande adesão de alunos, onde se formaram mais de oitenta novos Paraquedistas; em 1979 e 1984, realizamos dois Torneiros internacionais, com a participação especial de duas equipas femininas francesas. O sucesso alcançado levou à organização do Primeiro Congresso de Paraquedismo, realizado no Casino de Espinho, com partricipação do Director da Aeronáutica Civil, Associações e entidades particulares.

Tributo aos Amigos de todos os Tempos: VER:
https://www.youtube.com/watch?v=c5U_aESWvUU




Apesar dos resultados conseguidos, vieram ao cima os ressentimentos adversos a esta actividade no norte do país. Inicialmente no Aero Clube de Portugal, dominado pelos dirigentes do Aero Clube Universitário de Lisboa (extraviaram duas licenças de Paraquedista, sendo uma delas a minha) e secundados por elementos do Para-Clube Nacional os Boinas Verdes, entre os quais, o Major Albano de Carvalho, que "fiscalizava" os finais dos cursos.


Para a total libertação dos "nostálgicos do sistema", a expansão e visibilidade da actividade com sessões de saltos em pára-quedas nas romarias, campos de futebol e praias, atraiu o interesse de algumas empresas para a compra de modernos pára-quedas com publicidade. Outros horizontes se abriram e a prática do paraquedismo desportivo entrou nos domínios do desporto radical.












Algumas imagens de Bergerac, Aquitânia, França.









