sexta-feira, 26 de novembro de 2021

25 de Abril Esmorecido

Liberdade, liberdade!


Mas o que é a liberdade?


Ora, entendo como liberdade a condição pura de dispor de todos os pensamentos. recursos do saber e psíquicos para escolher os mais prazerosos e os melhores caminhos na condução da vida com sentido prático e solidário com os demais seres que nos rodeiam. Condição essencial para uma vida naturalmente feliz. Ninguém consegue ser feliz sozinho!


Mas, atendendo às naturais resistências à mudança de mentalidades formatadas consoante os interesses dos detentores do poder consolidado, teremos de saber contornar os obstáculos inerentes ao status qua da sociedade, bem como estarmos munidos de sabedoria capaz de enfrentar e vencer os imprevistos obstáculos que vão aparecendo no nosso percurso.


Antes de mais, é preciso muita coragem e resiliência para levar de vencida qualquer tentativa de mudança do sistema instalado com tiques de opressão das vontades e devorador de ideias inovadoras individuais. Logo, ninguém conseguirá ser libre se tiver medo. O medo é sempre um sinal de fraqueza e condição para a derrota.   


Mas, mais perigoso do que o medo é o imobilismo dos acomodados, porque, além de nada produzirem para a mudança, criam barreiras de inércia difíceis de ultrapassar, com a agravante de induzir a ideia de que está tudo bem assim…


Nunca me recusei a ajudar os desfavorecidos, porque toda a gente faz parte do meu mundo. Embora, no meu percurso de vida interventiva, já tenha sentido a ironia lisonjeira da frase “solus non potes mutare mundum ” (sozinho não consegues mudar o mundo), que me incomodou quando proferida por um director-geral de empresa de dimensão internacional. Pois, sou pelos cidadãos de todo o mundo “Cives totius mundi”.


Vila Nova de Gaia, 25 de Abril de 2019 - Anno domini: No ano do Senhor.


Joaquim Coelho


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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A Guerra do Ultramar em Derrocada

ROMPIMENTO com a MEMÓRIA


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Estamos num tempo em que a verdade conflituosa dos dias da guerra aumenta o desgaste do corpo e amofina o espírito que se pretende afirmar como referência moral na defesa duma causa obsessiva, mas que já não merece credibilidade na razão do combate.


O problema está na forma apática que conduz ao regredir das boas razões da família ajustada ao obscurantismo aprazado.


O esquecimento dos valores, outrora impingidos como válidos, implica a desolação passadista e a narração de factos inverosímeis em afirmações desgarradas e sem nexo, mas exaltantes do efémero como memória dos grandes mentirosos - passado não presenciado!


Já não temos força anímica para combater o desalento, porque a vontade de lutar é traída pelas acções do mundo circundante que nos acolhe com rebentamentos de granadas PGR. Nem a tentativa de amarrar as pernas de carnes esfaceladas nos impedem de sentir o gemido destes soldados inertes, olhares vidrados e esmorecidos, onde o sangue já nem tem força para jorrar das feridas rasgadas nos seus corpos acabrunhados pelo peso da desgraça de morrer nestes prados perdidos nas matas do Vale de Miteda.


Nesta emergência, a vertigem que nos embrutece e absorve com seus tentáculos obscurantistas, só temos que lutar para manter a verticalidade algo oblíqua e enfrentar o destino com a coragem de fugir do inferno - este!


Os discursos de circunstância, na condecoração a título póstumo, não conseguem o acolhimento capaz de revitalizar a vida destes heróis inexistentes, porque estão mortos, e a inércia do sistema esbarra na fachada do regime cuja essência nos oprime e rejeita, porque a razão histórica nos remete para as veredas do subdesenvolvimento pessoal e patriótico, culminando na obscuridade cultural que nos impingem. Não é esta fatalidade histórica que nos maltrata como seres despidos de sentimentos que nos faz sofrer, mas, antes, a devastação ideológica que nos afecta o desejo de avançar com qualquer projecto humanizante e racional e reparar os estragos duma guerra que nem sabemos porque a fazemos. Só esta forma de questionar o pensamento nos chega para viver a realidade com a razão de que ninguém nos pode destruir e, enquanto estivermos vivos e formos seres pensantes, jamais seremos remetidos para a sarjeta dos colonialistas empedernidos.


Estamos afectados pela angústia da descrença que nos persegue em todas as emboscadas que resultam na perda de alguns companheiros abatidos sem um gesto de reacção ou mutilados na escaramuça dos rebentamentos. Embora os mistificadores da razão patriótica se mobilizem na maldosa balela dos acólitos do poder, não nos sentimos enganados... apenas nos deixamos embriagar nas doçuras do prazer do álcool e das virtudes sensuais das mulheres que nos esperam no regresso das semanas relevantes da vida no mato. Sem ideologias e sem força para protestar, vamos sendo ofuscados pela solidão colectiva, acabando por sucumbir à vontade de vencer a ignorância e colher os frutos generosos da geração tragicamente condenada à frustração ou ao enigma duma viagem-prémio de qualquer governador colonial.


  Assim, perante a inevitável desgraça desta realidade, o maior drama da nossa vida de combatentes garbosos e patriotas é ver o esfacelamento gratuito dos corpos do Pinto “cuécas” ou do Farelo e o aniquilamento do Madriana e do Sousa, consequência de dolorosos pesares para os seus familiares; e para maior desgraça nossa, damo-nos conta da nossa fragilidade de seres humanos normais que não sobrevivem à perfuração dos seus corpos quando atingidos pelas balas traiçoeiras, porque também somos mortais - facto que o treino de combate mais aperfeiçoado não consegue ultrapassar a condição material da vida que necessita do sangue para continuar a alimentar o circuito biológico com vida.


Então, o sentido das proezas do soldado, tido como o melhor da pátria, começa a desvanecer a imagem da sua fraqueza quando se confronta com a realidade destruidora de ideias ou das boas intenções; pois, o reflexo na engrenagem que se movimenta na retaguarda aniquila sem escrúpulos a razão dos bem-intencionados e destrói sem piedade a visão natural das coisas. Os choques amesquinham as pessoas imbuídas de vontade, cujos limites estão para além da dureza da vingança cega, destruidora da sinceridade do companheirismo e desafiando os raros laivos de coragem impulsiva. A repulsa alastra dentro de nós quando nos sentimos afundar no lodo do ridículo com olhares difusos, mas comprometedores perante os estranhos comportamentos da sensibilidade piedosa.


O testemunho das desgraças alheias vai tolhendo a imagem do soldado patriota e lutador, porque as balas não deixam remorsos quando atravessam o ventre das crianças inocentes e famintas, ou a farda dos soldados mais afoitos. Chegamos a um ponto de descrença nas instituições que fazem a guerra, que já nem as “capas de misericórdia dos Movimentos Femininos” conseguem sarar as feridas menos profundas do nosso corpo cavernoso, quanto mais diminuir a mágoa que vai no nosso espírito perturbado, como pretendem com as suas mensagens ocas e fantasiosas onde as alusões ao senso métrico não deixa de ser uma ilusão do desejo de quem não tem um rosto macio de mulher apetitosa mas um pensamento longínquo, capaz de se revelar nas sombras da memória da infância, e rebentar com as fechaduras da retenção do sexo enclausurado no vento libertino.


 A serenidade também pode amputar o pensamento e destruir a identidade dum homem injustamente espicaçado. E ninguém sabe como regressará, se um dia voltar à sua terra.


“Espicaçar a Memória Parda”


Nacala, Outubro de 1966


Joaquim Coelho   


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Memórias com Emoção

CAMARADAGEM  FELIZ


        A camaradagem criada em condições e tempos complicados, merece ser preservada e justifica as narrativas deste modesto livro “Guerra Armadilhada”. As situações, nem sempre inesperadas, recomendam uma leitura de reflexão; pois, a lógica do absurdo das guerras toca no mais profundo sentimento humanista, porque os Combatentes nunca deixam de ser racionais.


       Nunca me alheei das causas e dos valores capazes de fomentar a vida harmoniosa e feliz das pessoas, jamais esqueço o tempo das angústias partilhadas com os camaradas de armas, porque os nossos parentescos e afinidades se forjaram nas mais duras e terríveis jornadas no meio da guerra.


      Os anos passam velozes ou lentos consoante o conforto ou desconforto que a vida nos proporciona. Mas gostaria de recordar os nomes de todos vós – companheiros de todas as horas, que me animastes em dias de bruma e momentos de inquietação, porque me transmitiam confiança para desafiar os terríveis dias do sofrimento que não conseguia aliviar-vos. Dúvidas, nunca as tive porque a vossa presença em meu redor, mesmo nas mais complicadas missões, atirava para bem longe o medo dos confrontos com o inimigo e com a engrenagem da guerra.     


Muito do que fizemos e aprendemos resultou num eficiente desempenho que os anos concertaram com sucesso. Crescemos juntos, entre o medo e a coragem de vencer, apesar do desconforto dos fanatismos e dos ódios que alguns cobardes tentaram fomentar.


Para a narrativa de alguns episódios deste livro, gostaria de chamar-vos um a um, pelos nomes que sempre estimei e se escapam na memória do tempo. Mas, por razões de ética e privacidade, alguns dos nomes são fictícios. No entanto, a vossa presença faz parte das vivências aqui descritas, para que outros percebam os valores que a vida contém e muitos desperdiçam ou desprezam com desdém.


      Apesar de todas as vicissitudes e desagradáveis confrontos com a hierarquia arcaica, dos processos disciplinares, inquéritos militares e pidescos, valeu a pena despender tempo e ocupar lazeres nas aulas que ministrei com gosto e alegria, através das quais, muitos de vós conseguistes colher sabedoria que vos proporcionou melhores proventos e outros benefícios para uma vida harmoniosa e feliz. 


     A idade não perdoa e vamos envelhecendo naturalmente, mas ainda temos uma reserva de energia que armazenamos nos dias de salutar camaradagem e confortáveis convívios dentro e fora da guerra. A nossa emancipação aconteceu naturalmente, porque dispúnhamos da formação adequada às reais transformações que o mundo nos impunha. É este sentimento que nos ajuda a envelhecer sem envergonhar o nosso passado nem os nossos desempenhos, tanto na guerra como na sociedade. Esse é o resultado que nos permite ter outra visão das circunstâncias que atrapalham e dificultam a vida nos dias que nos restam.


      Deixamos uma herança com valores marcantes para a geração de homens valentes que muito aprecio e jamais esquecerei de partilhar com os vindouros, porque merecemos reconhecimento e respeito. Ah! como gostaria de pronunciar todos os vossos nomes, mesmo que o convívio possa parecer mais virtual do que natural. Mas deixo o meu legado das memórias, para que os nossos filhos e netos possam orgulhar-se do que somos – homens valentes e virtuosos, lutadores por um mundo solidário e feliz.   


Prólogo no Livro: “A guerra Armadilhada”, publicado em 2016.


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terça-feira, 23 de novembro de 2021

Um Forasteiro com o Tripeiro

Tertúlia de Poesia da Revista "O TRIPEIRO"


Nos meus tempos de vida prazenteira na cidade do Porto, onde frequentei cinemas, salões de jogos, tascas e bailes nas ruas típicas das Fontainhas, Anselmo Braancamp, Eirinhas, Monte Aventino, e acompanhei excursões de franceses e turístas de diversos países, nem sempre a caminhada foi uma linha recta e luminosa. Por ser interventivo e persistente, sofri os efeitos da inveja e da ingratidão; mas também fui apoiado por pessoas que apreciavam as minhas qualidades humanistas, apaziguadoras, livres de preconceitos e sedentas de aprendizagem.


Tudo começou por influência do Padre de Valpedre (onde vivi até aos 7 anos de idade) e do senhor Álvaro Machado, prestigiado director do Grande Hotel do Porto e pai de uma professora do Colégio João de Deus, (vizinho e amigo do meu pai na Rua do Heroísmo), fui estudar naquele colégio, como trabalhador-estudante. Ora, tudo correu bem e fui aparicado por ser um bom tocador de órgão na capela, até que comecei a construir "galenas" (rudimentares aparelhos de captação de ondas de rádio), que vendia aos alunos; por ser considerado indiciplinado, fui castigado e expulso, precisamente antes da semana das provas finais do 1º cíclo liceal (conclui exames no Liceu D. Manuel II).


Todos os amigos entenderam que fui vítima de inconcebível injustiça e logo o Director do Grande Hotel me admitiu como acensorista, com um pequeno salário, alimentação e fardamento de grumete. Fui aconselhado a frequentar cursos de inglês e francês, o que me facilitou entrada no concurso de guias turístricos promovido pelo SNI (Serviço Nacional de Informação). Bafejado pela sorte, fui proposto pelo Senhor director Álvaro Machado e aceite pelo proprietário do Grande Hotel do Porto, senhor António Maria Lopes, para frequentar a formação de guia-turístico.


Depois de ter concluído o curso de formação Turística em Londres, deambulava pelos locais típicos da cidade e deliciava-me com  os grandes bailes nos Salões do Ateneu Comercial do Porto e Fenianos, locais de encontros e paixões, onde predominavam os distintos logistas da Rua de Passos Manuel e Santa Catarina, conhecidos da minha actividade de  guia-turístico. Sabendo dos meus escritos contundentes de intervenção cívica e social, confrontaram-me com a hipótese de participação na Tertúlia de Poesia organizada por um dos grandes suportes da Revista "O TRIPEIRO", de nome António Sardinha. Casualmente, sabiam do prémio de Poesia que me foi atribúido em 1973, pela Editorial Inova, e da celeuma protestativa contra a Censura que apreendeu o livro premiado: "Tempo Presente, poemas da guerra e da paz".


Ora, eu que não tinha grande afinidade com a Poesia, vejo-me recordado com alma de poeta!


Apresentei meia dúzia de poemas, que foram aceites para participar e tiveram direito ao "Diploma de Honra", no 70º Aniversário da Revista. Por ser de grande referência pelas causas do Porto, aqui deixo algumas cópias de capas.


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domingo, 21 de novembro de 2021

Memórias com Gratidão

Em memória do Extraordinário e nobre patriota Pára-quedista, Franklin Branco Armindo, deixo o legado de reconhecimento que muito me conforta e recorda o tempo das grandes dificuldadeds de resistência ao desgaste na guerra em Moçambique. 


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Apologia da Coragem


       Porque as vivências do Joaquim Coelho, nas guerras ultramarinas, foram muito mais alucinantes e atractivas do que a normalidade dos combatentes empenhados numa guerra de imprevisíveis finalidades, por imperativo de consciência, mesmo correndo o risco de ser mal compreendido pelos meus camaradas de armas, entendi ser de primordial importância proclamar a necessidade de aflorar questões inequivocamente incomuns mas complementares à ideia da publicação de extractos da vida de muitos camaradas e companheiros de missões militares nas guerras africanas.


       Atendendo ao meu passado de graduado na Mocidade Portuguesa, onde aprendi a amar e defender os valores patrióticos, jamais a minha consciência permitiria apoiar acções ou testemunhar, sob palavra de honra, em quaisquer situações que pudessem causar danos à instituição militar da minha opção profissional. No entanto, porque sempre acompanhei e vivi de perto as atribuladas vivências do sargento Coelho, em grande parte, causadas por questões anómalas contra a sua salutar rebeldia e afrontamento dos poderes obscuros, tenho de reconhecer a abnegação, a coragem, o saber, a lisura de comportamentos e a solidariedade para com todos os seus camaradas de armas que a hierarquia mais retrógrada tentava ofuscar e rebater.


       Prestei o meu testemunho abonatório perante os censores que o quiseram silenciar, cortando os textos que enviou ao jornal “Notícias da Beira”, por causa do manifesto ponto de vista sobre as populações “recolhidas” dos acampamentos que assaltamos em zonas de guerra. A verticalidade e coragem deste homem sereno manifestou-se publicamente no decorrer do “inquérito” disciplinar que reclamou ao senhor Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, como forma de demonstrar a sua inocência e destruir a “tese maquiavélica” urdida na “participação” do tenente Castro Gonçalves, que atirava para o sargento Coelho as culpas do fracasso de uma operação de assalto a acampamento inimigo na zona do rio Mulunga, estrada do Chai. Com aprumo e surpreendente sentido de humildade, soube ultrapassar a tentativa de “humilhação” prognosticada pelo comandante de batalhão, tenente-coronel Argentino Seixas, que o proibia do uso de armas militares, enquanto decorresse o inquérito disciplinar. Por ironia, afrontou tal determinação fazendo uso de uma pequena pistola civil, que exibia airosamente num minúsculo coldre à cow-boy! Retirado dos combatentes operacionais, cumpriu com extraordinária dedicação o dever de vague-mestre, durante sete meses, proporcionando aos seus camaradas, em operações, alimentação e apoio logístico com qualidade e atempadamente.


       Só um homem com a calma e inteligência do Joaquim Coelho poderia desembaraçar-se de situações complexas em que se envolveu: A forma eficaz como interveio na deserção de militares da Força Aérea da Zâmbia, onde me envolveu, juntamente com o Vicente e o Figueira, na segurança do aeroporto de Lourenço Marques, para aterragem e recolha do avião Dakota com dezoito pessoas zambianas; a maneira como se safou das sanções da PIDE, por lhe terem apreendido o passaporte, quando requereu a deslocação à Zâmbia (acabou por fazer a viagem clandestinamente); o seu discreto relacionamento e aparente colaboração com o Engenheiro Jorge Jardim, para que tivéssemos melhores condições de alojamento dentro da Base Aérea 10, na Beira, são exemplos que nos surpreenderam, porque denotam conhecimentos e tendência para acções aventurosas, mas humanistas, sigilosamente ponderadas.


       Com uma força moral superior, suplantou as mais difíceis condições de vida nos momentos em que muitos de nós esmoreciam sob o peso das responsabilidades de termos mulher e filhos na metrópole, ou por vermos morrer os nossos camaradas feridos, por falta de condições de evacuação e assistência médica; mesmo quando os responsáveis fraquejavam, o sargento Coelho nunca desistiu de socorrer os mais debilitados. Foi notável a sua resistência ao sofrimento, após a primeira emboscada no Vale de Miteda; embora fisicamente combalido nas costelas e na perna esquerda, deu primazia à evacuação dos restantes feridos, seguindo apeado até Miteda, onde ficou, com mais quatro camaradas, em precárias condições de saúde; providenciou a evacuação de todos para Mueda, através dos seus amigos pilotos da Força Aérea. Por o ter feito à revelia dos chefes de operações, teve de responder a um inquérito disciplinar absolutamente incrível, que teve como relator o major Joaquim Mira Trigo Mensurado, seu “amigo” desde Angola, sobre o qual havia suspeitas de ser “agente” da Pide, dentro dos Pára-quedistas.


       Enquanto estivemos deslocados no “deserto” de Nacala, o Joaquim Coelho organizou partidas de futebol e de ténis, providenciando a compra dos necessários equipamentos; marcava horas para discutirmos e analisarmos a situação da guerra e melhorar o ânimo perante a conjuntura. Com o sargento Magalhães da Mota, formou turmas e ministraram aulas aos interessados; com seus trinados na viola, dava-nos o bailinho da Madeira; com fios eléctricos, engendrou uma grande antena triangular onde captava emissoras portuguesas, com um simples rádio de bolso. Nas semanas que permanecemos em Nacala, entre duas intervenções operacionais no Norte, tais actividades lúdicas serviram para minimizar o desconforto pela perda de quatro soldados (Madriana, Farelo, Sousa e Pinto) mortos nas operações entre Nangade e Vale de Miteda, em condições que nos deixaram marcas para o resto da vida. 


       Não fora a sua natural perspicácia, sabedoria das normas militares e conhecimentos de política internacional, de pouco lhe teriam valido as dezenas de voluntários que testemunharam a seu favor, quando alguns oficiais imprevidentes, com passado nebuloso e pouco recomendável, lhe moveram processos disciplinares injustos e o quiseram aniquilar nos confins da ilha do Ivo. A sua serenidade, os seus préstimos a todos os camaradas de armas, legitimados pela condição de disponibilidade para ajudar em quaisquer circunstâncias, no mato ou no quartel, aliadas à confiança na sua indomável força de comando, fizeram do meu amigo Joaquim Coelho um homem respeitado, exemplo de modéstia e humanismo, digno de elevado apreço entre os que com ele partilharam extraordinários momentos da vida.


       - Amigo Joaquim Coelho: Por todo o teu empenho em dignificar as causas nobres da sociedade e os valores místicos desta numerosa família, por todos quantos usam a Boina Verde, até por aqueles militares do Exército destacados nos aquartelamentos isolados do mundo, a quem prestaste ajuda alimentar e moral; pelas tertúlias de séria reflexão sobre o futuro; por tudo quanto sacrificaste dos teus tempos de lazer, o meu bem-haja e que o sucesso jamais te seja recusado. Apesar dos dias de inquietação que tramaram o teu percurso militar, pela temperança e ponderação que sempre demonstraste perante o perigo, o meu eterno reconhecimento. As elevadas capacidades intelectuais demonstradas nos cursos que concluíste, bem como o teu sucesso profissional, confirmam que nunca precisaste de estar refém das apreciações castradoras do “aprumo militar” feitas por oficiais que incomodavas com a tua natural verticalidade e determinação. Obrigado por continuares firme nas convicções e por partilhares connosco situações e vivências que marcarão a história do nosso tempo. Os teus escritos e imagens, recolhidas em jeito de reportagem de indiscutível veracidade, são testemunhos que deves divulgar ao mundo, para registo e memória dos feitos duma geração de homens valentes, porque os nossos filhos e netos merecem saber algo mais sobre as nossas vidas em terras ultramarinas.


Tancos, 23 de Maio de 1991


Franklin Branco Armindo


(Tenente/Coronel/SG/ PQ)


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