domingo, 28 de dezembro de 2025

Ano Novo - Governança sem Esperança

A ESPERANÇA DESESPERADA

   Estamos no limiar do fim do ano que vem como quase todas as coisas importantes da vida: sem pedir licença e com um certo ar de déjà vu. Abre-se o calendário novo, ainda imaculado, como se fosse uma promessa, e fecham-se doze meses gastos, cheios de intenções que ficaram a meio caminho, ideias que envelheceram antes de nascer e projetos que já vinham do ano anterior - esse passado recente que fingimos não reconhecer.

   Chamamos a isso recomeço. Talvez por pudor. Talvez por medo de lhe chamar repetição.

   Há sempre essa tentativa íntima de alinhar o futuro: “para o ano é que é”. Para o ano cuidarei melhor de mim, para o ano farei aquilo que adiei, para o ano terei tempo. Mas o corpo, menos paciente do que a imaginação, vai deixando sinais. A saúde já não é uma abstração distante, é um bem negociável, frágil, dependente de filas, senhas e diagnósticos tardios. A idade avança sem metáforas e o tempo deixa de ser um aliado generoso para se tornar um credor exigente.

   E depois há o mundo. Esse mundo que entra pela televisão dentro, pelos jornais, pelas conversas repetidas, carregado de guerras que não acabam, conflitos que se normalizam, governos que administram a espera e nações que parecem incapazes de resolver aquilo que dizem ser essencial. A geopolítica cresce em tensão enquanto a vida comum encolhe em direitos. Fala-se de estratégias, alianças, interesses; vive-se com salários curtos, serviços longínquos e uma sensação difusa de abandono.

   Portugal, esse país de brandos costumes e paciências prolongadas, mantém a aparência de calma enquanto o tempo passa por cima das promessas. O SNS resiste como pode, a Justiça arrasta-se como sabe, o trabalho consome mais do que devolve e os idosos aprendem, em silêncio, que envelhecer é tornar-se invisível. Metade dos problemas fica sempre para depois, como se o “depois” fosse um lugar seguro e não apenas um adiamento crónico.

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   Chegados ao Ano Novo, pergunta-se: que pedir? Que o sistema funcione? Que a justiça seja justa? Que a saúde chegue a tempo? Que o trabalho não esgote a vida antes da reforma - se ela ainda vier? Pedidos modestos, quase constrangedores, num país que se habituou a chamar ambição ao simples funcionamento do essencial.

   E eu, indivíduo entre milhões, que posso pedir senão acesso? Acesso quando adoecer, quando fraquejar, quando já não souber defender-me sozinho. Não peço exceções, peço garantias mínimas. Não peço futuro glorioso, peço dignidade previsível. Mas até isso parece hoje um acto de fé.

   É aqui que nasce esta esperança estranha, quase contraditória: uma esperança desesperada. Não a esperança ingénua de que tudo mude, mas a esperança teimosa de que nem tudo piore. A esperança de que o fio do recomeço, por mais fino que seja, não se parta nas mãos de quem ainda acredita que viver não pode ser apenas resistir.

   O Ano Novo vem, afinal, sem novidades. Traz apenas o ritual, o calendário limpo e a ilusão necessária de que ainda vale a pena tentar. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo. Porque enquanto houver essa esperança - mesmo cansada, mesmo irónica, mesmo ferida - ainda não desistimos completamente de nós, nem do mundo que insistimos em chamar comum.

                                28-12-2025 - João Gomes, in Facebook 

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OS RESISTENTES

   Há seres humanos que persistem em acreditar quando acreditar já não é cómodo. Não por desconhecimento do mundo, mas por lucidez suficiente para perceber que a realidade dominante não é sinónimo de verdade última. São os resistentes. Não marcham em bloco nem levantam bandeiras ruidosas; sobrevivem, antes, na obstinação silenciosa de quem se recusa a aceitar que a injustiça seja natural e a desigualdade inevitável.

   Carregam consigo ideologias feridas, muitas delas declaradas mortas pelos vencedores da história. Dizem-lhes que falharam - e falharam, é certo, não poucas vezes. Mas os resistentes sabem que muitas dessas falhas não nasceram das ideias em si, mas da sua captura: pela má condução política, pelo autoritarismo travestido de redenção, ou pela imaturidade de sociedades que ainda não compreendiam que a força coletiva não anula o indivíduo - protege-o.

   Vivem hoje cercados por um liberalismo económico que se apresenta como horizonte único, como se fosse uma lei da natureza e não uma construção histórica. Um sistema que absolutiza o mercado, privatiza o risco, socializa o fracasso e chama liberdade à sobrevivência competitiva. Um sistema que mede o valor humano pela produtividade, a dignidade pelo rendimento e a vida pela sua utilidade económica.

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   Nesse mundo, a precariedade deixou de ser exceção para se tornar condição existencial. O trabalho já não garante futuro; apenas adia a queda. A riqueza cresce, mas escorre para cima, concentrada em elites cada vez mais desligadas da vida comum. Fala-se de mérito para justificar heranças, de eficiência para legitimar cortes, de inevitabilidade para anestesiar consciências.

   Os resistentes não ignoram isto. Pelo contrário: é por verem com clareza que não desistem. Sabem que a promessa de uma sociedade mais justa foi traída, mas recusam aceitar que tenha sido uma ilusão. Recusam confundir o erro histórico com a falência moral da ideia de solidariedade. Continuam a acreditar que o trabalho e o fruto do trabalho não podem existir apenas ao serviço de poucos, enquanto muitos vivem numa permanente economia do medo.

   Chamam-lhes ingénuos. Sonhadores fora do tempo. Mas talvez sejam apenas aqueles que ainda não se renderam ao cinismo como forma superior de inteligência. Procuram a bondade acima do materialismo, a concórdia acima da disputa permanente, o bem comum acima da acumulação privada. Não porque ignorem o conflito, mas porque sabem que uma sociedade organizada exclusivamente em torno dele acaba por se devorar a si própria.

   Os resistentes não prometem paraísos. Sabem que nenhuma organização humana é perfeita. O que recusam é a normalização da injustiça, a glorificação da desigualdade, a ideia de que não há alternativa. Persistem não por esperança fácil, mas por responsabilidade ética. Porque desistir seria aceitar que o mundo é apenas aquilo que o poder permite - e nada mais.

   E enquanto houver quem resista assim, sem garantias, sem aplauso e sem recompensa, a história não se fecha. Fica suspensa. Inquieta. À espera de que alguém volte a lembrar que viver em sociedade não é competir até ao esgotamento, mas partilhar o risco, o trabalho e a dignidade de existir.

 

Maria Victória Campos  -  

Prometeu, andas a roubar o fogo dos deuses para dares aos homens?...
Fogo... consciência, espírito, transformação...
Como me identifico e revejo no seu sentir e pensar...
Resistir desta maneira que descreve, não é nenhum acto heróico e sim lúcido, como descreve magistralmente neste escrito tão inspirado e inspirador...
Obrigada, João Gomes...sempre...🥀🔥🙏🏽

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PATIFÓRIA GOVERNAÇÃO

    Peregrinamos pelas estradas da vida com esperança de alcançar a plenitude do conforto e da serenidade num ambiente feliz; mas, há tremendas dificuldades em ultrapassar os obstáculos premeditadamente colocados nos caminhos. São as instituições públicas sem atendimentos atempados; são os serviços de saúde persistentemente demorados; são os dinheiros públicos desviados para serviços de instituições privadas; são os governantes escolhidos a dedo, com fins de servir clientelismos lobistas. Talvez, alguns açoites bem aplicados nos prepotentes mandantes que nos atrofiam a vida, seria uma maneira de amansar a sua forma impetuosa de açambarcar e desbaratar os dinheiros e bens da nação, que nos pertencem e fazem falta à normalização do atendimento às necessidades dos cidadãos.

   Neste mundo em convulsão e com governantes impedrenidos, os caminhos são lamacentos e dificultam a chegada ao destino que um dia nos prometeram. A natural pretensão de encontrarmos a felicidade nas circunstâncias desta vida não pode ser frustrada por qualquer agiota com pretensões a governante.

   A governação deve ser abrangente e atenta aos necessitados e confortar os fragilizados que mais não têm do que queixumes e rogos lancinantes, que vós, sedentos de servir clientelas, não atendeis, por se verem sofredores esquecidos às portas do Serviço Nacional de Saúde. As crianças e os velhos jamais vos perdoarão a ausência de clemência e atenta compaixão, o que causa desconfiança perante o comportamento danoso e escabrosa tirania que mata qualquer sinal de esperança. Quando vemos os governantes, que deveriam proteger e dinamizar os serviços públicos ao serviço dos mais carenciados, atirar milhões de euros dos Serviços públicos, especialmente, do SNS para os bolsos dos privados e sanguessugas do erário público, temos que tomar posições preventivas no acto das nossas escolhas políticas.

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   Ao vermos esses governantes atentar contra os direitos legítimos dos cidadãos, descaradamente a escarnecer da desgraça dos mais humildes e desgastados, temos que sentir repulsa recriminatória, pois, ficarão circunscritos aos tiranos que nos consomem o pensamento, perturbam o essencial da vida e recusam os meios de sobrevivência.

   É estranho senhor primeiro-ministro que não se perturbe com as desastrosas decisões e desventuras, ao seguir o que lhe aprouver com o risco de tombar no tejadilho do esquife contruído à sua medida. A patifória decisão de nos enganar com a descida dos impostos e no aumento dos salários demonstra o instinto disfarçado com que menospreza os mais vulneráveis cidadãos reformados e a precaridade dos trabalhadores, ao criar situações causadoras de desassossego e ignorar os lamentos e desgraças que nos incomodam e causam ansiedade quanto ao futuro; assumiu a compostura de coveiro das instituições e serviços sociais do Estado; doloso atentado contra a Constituição da República.

   Começo a ficar enojado por ver tais actos de malvadez em pessoas que acreditávamos como tendo alguma sensibilidade com os carenciados de apoios sociais, de assistência na saúde e acolhimento na velhice. Posso afiançar que a vingança pode chegar atrasada, mas não falhará na hora de votar.

     Temas actuais . Outubro de 2025   -  Joaquim Coelho

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Memórias de Vida - Como Começar

AJUDAR e APOIAR

    Na nossa comunidade inclusiva, devemos estar disponíveis para ajudar pessoas fragilizadas a melhorar o seu estado geral de mobilidade e apoiar os mais carenciados. A entreajuda é fundamental para atenuar a falta de recursos materiais e meios de sobrevivência.

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    Devemos ter em conta que cada pessoa vive nos seus labirintos pessoais, base das suas raízes, precisa de espaço para afinar a sua essência no sentido de vida que mais a satisfaça. Limitar as suas liberdades é invadir os seus lugares por onde podem caminhar e escolher o melhor para as suas vidas. Assim, é legítimo que ajudemos a resolver problemas ou questões momentâneas, para que melhor possam caminhar por si. Mas, apoiar pode significar ter que entrar na privacidade das pessoas, dando resposta a problemas com difíceis resoluções cuja demora podem causar dependências; quando chegamos a estas situações, as pessoas podem começar a entrar em ansiedade, porque não veem resultados nem soluções satisfatórias; podem sentir o stress, se pensarem que podem perder os apoios de quem se presta a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.

    Estes conceitos de ajuda ou apoio podem comparar-se ao seguinte:

    Um professor ministra conhecimentos, mas não obriga ninguém a aprender. A diferença entre ajudar e apoiar está na intensão e no efeito: apoiar estimula o desenvolvimento da autonomia para buscar o saber e o conhecimento, ajudar apenas resolve um problema momentâneo!

    Ora, apoiar é mais difícil e demorado; pois, precisa de um largo conhecimento do outro, precisa de confiança e paciência para estar ao lado e participar nas causas que as pessoas precisam para viver o seu dia a dia. Por isso, tudo se resume em sabermos encarar os desafios que as dificuldades nos apresentam – é nas dificuldades que crescemos com mais resiliência e vontade.

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    Sem nunca perdermos o rumo que nos permite atingir objectivos possíveis, temos que continuar a caminhada, procurar respostas e continuar os nossos esforços. Nunca devemos desistir de atingir as metas que o bom senso nos permite sonhar. Mas, devemos ter em conta que as coisas são como são e não como queremos que sejam; aceitar as contrariedades que possam afectar os nossos melhores planos de vida é uma forma de contornar a ansiedade e evitar o stress.

    São as experiências que nos moldam a vida e com elas ficamos mais aptos para a luta, sejam amargas ou saborosas. Tudo que envolve esforços físicos e mentais dá mais sentido à vida.

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O Meu Início de Vida Activa

 Grande Hotel do Porto - Porto 1953

    Entro na vida activa, depois de fazer admissão aos liceus na escola de Penafiel. Estando o meu pai bem relacionado com pessoas da cidade do Porto, incluindo o vizinho e director do Grande Hotel do Porto (senhor Álvaro Machado), logo tratou de me arranjar emprego e condições de estudar, começando como ascensorista no Grande Hotel do Porto. Por sorte e ousadia nas conversas com a professora Luisinha, filha do Director do hotel, ela interessou-se pelo meu ingresso no Colégio João de Deus, onde dava aulas.

    Por acordo com o meu pai, fui admitido no Colégio em condições de trabalhador-estudante, com obrigação de prestar serviço 3 horas diárias e tocar o órgão da capela, durante as orações do fim de dia e nas missas de domingo.

Foram dois anos de bom ambiente e aproveitamento escolar. Mas nem tudo foram flores, porque ocorreram algumas trapalhadas de ordem disciplinar.  

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Colégio João de Deus - 1954

    O meu maior amigo era o pasteleiro Albino, nascido na Régua. Às sextas-feiras, quando regressava de transportar as roupas para as camas dos Padres do Colégio, passava à porta da pastelaria e sentia um cheirinho muito agradável... atér que um dia entrei e lá estava o pasteleiro a compor os pastèis. Como pessoa simples e afável, ofereu-me para provar! Gostei e passei a ser o provador de serviço e fartei-me de comer pastéis. Só tinha de compensar com duas garrafas, por semana, de vinho tinto, ao custo de vinte e cinco tostões.

    Entrei no colégio depois de três semanas no suplício de cortar lenha no sr. Lebre do Pinheiral, a cinco escudos por dia. Por ter abandonado o trabalho e não aceitar continuar ao serviço do Grande Hotel do Porto.

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    Valeu-me a filha do director do Grande Hotel do Porto, sr. Álvaro Machado, que pediu ao Padre Albano para autorizar que eu fosse estudar, pagando uma pequena parcela da taxa de internamento, em troca da prestação de trabalho fora das horas de estudo. Fui aceite com a função de distribuir as roupas de muda das camas à sexta-feira, ajudar a servir o chã das cinco e cortar o pão para as sandes do pequeno-almoço.

    Quem dirigia as aulas era o Padre Miguel, com quem me dei bem. Além de estudar, tocava o órgão da capela. Depois de ensaiar e tocar nas missas de domingo, começou a tornar-se um trabalho deprimente porque era obrigado a tocar também nos dias de semana.

    Com amigos meus conterrâneos que frequentavam o terceiro ciclo, passava parte das tardes de Sábado no anexo do outro lado da rua de Santa Catarina, de cujo terraço se usufruía uma boa panorâmica para os quartos das alunas do internato contíguo. Era um regalo ver as meninas... no banheiro, nas brincadeiras com apalpões, em camisas de dormir, em sessões de masturbação – algumas com grande originalidade! Claro que essas cumplicidades despertavam os sentidos e davam aso a abordagens mais ousadas nos encontros à saída do prédio. Elas até se divertiam com as frases que os gajos lhe mandavam...

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    Como não existiam rádios portáteis e, como alguém dizia que eu tinha a mania das invenções, a minha vida complicou-se quando aprendi a técnica e o modo de fazer “galenas”, ao ler a revista “Popular Mechanics” que comprei na Rua do Almada.

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    Assim arranjei um negócio vendendo os “aparelhos” aos estudantes, a cem escudos cada, já com auscultadores. Trata-se de um aparelho composto por pequenas bobines de fio eléctrico envernizado e enrolado com determinado número de espias à volta de uma pequena pedra de quartzo (usando pedra de carvão, mais barata) consoante a frequência da rádio-emissora que se pretende apanhar; metidas dentro de uma pequena caixa de madeira, com duas cavilhas de saída para auscultadores e um fio para ligar a uma grande antena (extensão de fio nu com mais de dez metros que camuflei fora da janela dos dormitórios).

    O negócio corria bem, até ao dia em que um dos “perfeitos” descobriu que o pessoal metia a cabeça debaixo das mantas e ouvia a música emitida pela emissora; destapou alguns dos meus “clientes” e deitou os aparelhos pela janela fora. A descoberta de que o pessoal ouvia rádio depois de estar deitado, levou os perfeitos (vigilantes) a tentar descobrir de onde vinham os aparelhos. Ao saberem que o Botelho era o construtor, participaram ao padre Albano (chefe da disciplina) o qual me chamou ao gabinete e atestou dois tabefes na cabeça e aplicou um castigo com menção na caderneta como pena grave.

    Por ironia do destino, uns meses mais tarde, depois da hora de estudo no salão, quando subíamos as escadas para os dormitórios e um dos colegas agarrou o corrimão para se guindar, o “perfeito” que seguia no meio das escadas deu-lhe uma grande bofetada, do que resultou um ferimento nos lábios do rapaz que ficou a sangrar. Chegados ao balneário, prestamos-lhe apoio lavando a ferida e colocando papel higiénico para estancar o sangue. Logo combinámos armar uma zaragata durante o jogo de andebol marcado para a manhã seguinte, de modo a apanhar o dito “perfeito” a separar os “arruaceiros” e dar-lhe algumas mordedelas no corpo e amachucá-lo o mais possível.

    No dia seguinte, lá estavam os “jogadores” preparados para o ajuste de contas, que começou bem, com arranhões e mordidelas no corpo do “perfeito mauzão”; só que, depois da arruaça, alguns foram “apanhados” pelo padre Albano e levados para o gabinete dos castigos, que, além de algumas pancadas na cabeça; eu e mais dois com registos de problemas disciplinares fomos expulsos do Colégio, sem possibilidade de lá fazermos os exames finais.

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    Revoltado com o desfecho da contenda, resolvi escrever uma carta ao tal “Perfeito” para ser publicada na Revista do Colégio, através do redactor Cerveira Pinto. Tal não foi autorizado:

“Senhor Perfeito Samuel, quem pensa que é? Não será mais um ser imbecil a prejudicar quem se esforça por colher alguma cultura? Não ande a enganar as pessoas. Os nossos pais amam-nos e querem o melhor para nós; e já somos crescidinhos, quase uns homens e mantemos a nossa pureza de adolescentes. O senhor não passa de um diabo que já conhecemos, ou pensará que nos engana. Eu até tocava o órgão da capela, e tinha algum gosto nisso, mas nunca fui protegido pelo padre Albano, como parece ser o seu caso! Gosto muito do padre João, que com a sua enfermidade nos é mais querido. Agora que saio por motivos disciplinares, continuo a ser prestável aos meus amigos, porque o perfeito Vergílio, meu vizinho, me dê notícias de que o senhor continua a ser um carrasco das boas almas; que continua a andar atrás do som captado no éter da escuridão e que os aparelhos lhe ferem a postura crítica e intolerante. O forte impulso da juventude não vai deixar de me deliciar na construção das “galenas”, mesmo que sejam para lançar pela janela fora! Não me vou deixar idolatrar pelos fantasmas que o senhor tenta endeusar e que só servem para espalhar escuridão no mundo cada vez mais inacessível para os iluminados. Fora deste recanto da cultura dos privilegiados, não me vou limitar a aceitar a humildade social em que nasci, porque não estou de olhos fechados; porque um homem também se forma com os desassossegos da vida, mesmo em dias difíceis. Fique sabendo que o meu grito contra as injustiças far-se-á ouvir em muitos lugares e ao longo dos tempos, o seu eco quebrará o silêncio nestes passos tímidos que me conduzem pela vida fora. Eu não vou amar um deus qualquer, sujeito a ficar perdido na escuridão, envolvido nas profecias que os deuses ocultos na imensidão do universo me possam transmitir em novos ensinamentos. Sinto impulsos firmes e determinantes que me protegem dos “perfeitos” que me tentam perseguir como diabos malfazejos que só pretendem destruir os nossos sonhos. Não vale a pena usar formas engenhosas para abrir falsos horizontes aos jovens que tenta tutelar. Há sempre outros conhecimentos que lhe escapam para fora dos muros e dessas grades que são razão importante para outro querer e outra forma de pensar a vida.”

     Porto, Junho de 1955”  Joaquim Coelho

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Grande Hotel do Porto - 1955

    Por intervenção da professora Luisinha, fiz os exames no Liceu D. Manuel II e logo fui admitido no Grande Hotel do Porto, com a recomendação de estudar francês e inglês, com vista a ser admitido no Curso de Guias Turísticos financiado pelos proprietários dos dois maiores hotéis do Porto.

    Assim, depois de dois anos a estudar línguas, no Instituto de Francês e na Associação Cristã da Mocidade (inglês), fui admitido no curso de Guia Turístico numa escola profissional de Londres. Regressando ao Porto, concorri e fui admitido no SNI e andei pelas ruas do Porto a mostrar a cidade aos turistas, com passagem pelas caves de vinho do Porto, em Gaia. Também fiz uma viagem com o pessoal dos Telefones (companhia inglesa, the Anglo-Telephone Company - TATC) e outra com o pessoal da Hidro-Eléctrica do Douro, percorrendo Espanha, França e Itália até voltar a mudar de vida

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Preparador de Laboratório Químico - 1958

    Dois anos depois, ingressei na Escola Infante D. Henrique, onde frequentei o Curso de Laboratório Químico, ao mesmo tempo que trabalhei nos laboratórios Químicos e físico-mecânicos da Cordoaria Oliveira e Sá, na Boavista. Aí estive até ser incorporado no serviço militar para a Força Aérea, em 4 de Abril de 1960.

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domingo, 19 de janeiro de 2025

A Generosidade do Voluntariado

SABER CUIDAR

   Tendencialmente, gosto de cuidar dos outros, mesmo que não cuidem de mim! É um propósito peculiar na condição de pretender ver as pessoas que me são afins mais cuidadas e felizes para meu próprio contentamento. Está na minha natureza não esperar recompensas de ninguém, porque desconhecem os pormenores da nossa história de vida.

   Por convite de um Amigo e dirigente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, achei por bem aceitar dispor dos meus tempos e conhecimentos para colaborar nas sessões de aplicação da quimioterapia intravenosa. Baseado na experiência da cura da minha doença, que combati de 2005 a 2008, fomentei e consegui que algumas equipas médicas aplicassem a quimioterapia faseada por três sessões em dias contínuos, tendo resultado menores sequelas e danos na imunidade dos doentes.

   Nem sempre foi possível, devido à agenda intensiva e indisponibilidade de médicos. Tudo passava por verificar as análises clínicas dos doentes e o estado imunitário; concluímos que a aplicação da quimioterapia seria fatal quando os níveis de hemoglobina, mastófitos, linfócitos eram fracos, além de sinais de anemia. Dos estudos que fui fazendo, escrevi documentos de apoio à saúde com sugestões de alimentos, vitaminas e outros compostos com efeitos comprovados na melhoria do estado de saúde e bem estar físico e mental, os quais ainda continuo a distribuir.  

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   Muito do que sou como pessoa participativa na vida das comunidades cresceu com as vivências dos meus tempos de Jornalista e Repórter viajante pelo mundo, além das permanentes deslocações para formação profissional qualificada - mais de 70 países visitados e participação nos eventos interventivos em 32 deles; factos que muitos desconhecem e não entendem o fascínio das experiências multifacetadas pelos costumes e tradições dos povos com os quais convivi. Por isso, trato com delicadeza a família e os amigos que me fazem acreditar nos valores partilhados com a generosidade que nos pode conduzir a vida para a prosperidade colectiva.

   Desde a meninice que é este o meu fadário, sentir o apelo da sensibilidade para cuidar de quem está à minha volta, quer seja nos afazeres dos dias comuns como no trabalho, bem estar e diversões, com mais cuidados na prevenção das doenças.

   Crendo nos reparos que alguém faz nesta forma de sensibilidade aos problemas dos outros, quando presumem algum cansaço, nem sempre este será o melhor caminho para sermos úteis ao nosso vizinho. Corremos o risco de perdermos a capacidade de manter as necessárias energias para aplicarmos o saber com empenho de cuidar com acerto as necessidades dos outros.

   Mas não pude deixar de atender às inovações para a melhoria da saúde, pelo que aproveito os conhecimentos de bioquímica e os princípios da investigação aplicada para a cura de doenças emergentes, cada vez mais agressivas na generalidade das pessoas; especialmente doenças cancerígenas que me perturbaram a vida durante mais de dois anos. Tais cuidados permitiram curas totais, com menores estragos físicos e reduzidas sequelas resultantes dos tratamentos rotineiros, agressivos e nem sempre eficazes.  

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   Mas, como nem tudo corre como desejamos, o bom senso aconselha que cuidemos de nós, para estarmos mais fortes e com melhores condições físicas e mentais para cuidar de quem precisa de nós.

   Esta reflexão tem o propósito de entender uma grave situação que abalou a minha vontade e perturbou o meu sentido de vida, durante um complicado episódio de violência ocorrido após oito anos de prestações de voluntariado na ajuda aos doentes oncológicos no Hospital de São João e no IPO do Porto. Aconteceu que, à saída pela porta principal do IPO, ao abrir a porta, fui barrado por uma enfermeira bem conhecida… que logo começou a insultar-me em altos berros, perante mais de vinte pessoas que aguardavam atendimento no átrio da entrada do IPO.

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   Tinham terminado um período de greves “selvagens”, que causaram pelo menos quatro mortes de doentes internados, confirmadas nas conversas correntes e que a minha experiência e sensibilidade bioquímica consideram por falta de socorro atempado nas enfermarias do IPO. Ora, escrevi um artigo contundente e denunciante de tais efeitos mortíferos, apontando responsabilidades à bastonária Ana Rita Cavaco por ter convocado períodos sucessivos de greves ardilosamente preparadas para degradar e desprestigiar o Serviço Nacional de Saúde. Pois, na semana seguinte à ocorrência das mortes por desleixo, foi publicado o tal “artigo de opinião” que despoletou o azedume da enfermeira que resolveu insultar-me publicamente… “você é um canalha, um insurreto, um terrorista perigoso”! Tentei interromper… perguntei: mas a senhora enfermeira está bem da cabeça? E continuou: “um bandido que merece condenação, mentiroso e patife”!

   Calmamente, tentei afastar a enfermeira e voltei a deitar a mão ao manípulo da porta para sair… ela meteu o pé para travar a abertura da porta… disparei uma bofetada… logo se insurgiu tentando agarrar-me a mão, em descontrolada gritaria; a algazarra era tamanha que despertou dois seguranças que se aproximaram e me cercaram. Fui conduzido para um gabinete ao lado do balcão da Liga Portuguesa Contra o Cancro; poucos minutos depois, fui conduzido a outro gabinete onde estava a enfermeira com o Director do IPO… perguntas e acusações que deslindei calmamente… mas fiquei preocupado quando vi dois agentes da polícia fora do gabinete.

   Tudo ficou serenado, depois do Director questionar a enfermeira: “a senhora enfermeira explique o que aconteceu para que o homem considerado mais calmo e prestativo neste hospital a tenha bofeteado”! Muito encabulada, sentimos que a enfermeira ficou atemorizada… disse que reagiu por impulso em defesa da bastonária da ordem dos enfermeiros, por eu a ter acusado indevidamente num artigo publicado no jornal Público. O Director insistiu: “explique lá o que aconteceu?” Não havendo respostas, o Director encerrou o assunto e foi à porta do gabinete falar aos agentes da PSP para irem embora.

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   Depois deste triste episódio, que ofuscou oito anos de trabalhos de voluntariado, onde apliquei conhecimentos e práticas que anos antes contribuíram para me curar e livrar de dois tumores malignos, senti o desânimo pelo presumido cansaço, consciente de que estava a precisar de repouso antes de entrar na fase de stress, porque a proximidade e vivências com os doentes me estavam a afectar perigosamente.

   Sentia insatisfação por pensar em deixar de prestar o apoio na recuperação dos doentes que mais precisavam dos meios que me foram permitidos pelo Director: dar sessões de ginástica e reiki no salão do IPO; fazer três ou quatro retiros nos parques da cidade, especialmente ao Parque de S. Roque da Lameira, onde praticávamos meditação, hatha-yoga e conversávamos calmamente, com excelentes efeitos na melhoria da autoestima dos doentes e afirmação da vontade de recuperação para voltarem à vida normal.    

   Aproximavam-se as festas natalícias de 2018 e fui passar o Natal a Ferreira do Alentejo, com os familiares da minha filha Raquel. Aproveitando os dias de calmaria, passeando junto ao parque da vila e conversando num ambiente bucólico e sereno, deu para me revisitar e entender que era tempo de me dedicar a cuidar de mim e da minha família!

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   De regresso à vida agitada na região do Porto, onde continuo a apoiar alguns amigos incondicionais e outros precisando de sugestões para manter a saúde em forma, reduzi as minhas actividades de voluntariado e estou mais virado para olhar por mim e pelos que estão próximos. Sem descorar os cuidados com os meus familiares e amigos, estou com mais atenção para cuidar de mim, porque o desgaste da idade assim o aconselha.

                                                   Vila Nova de Gaia, 20 de Dezembro de 2019

                                                                                  Joaquim Coelho

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Encontros Tridimensionais - Amigos

Quem procura sempre encontra – aconteceu com o Joaquim Coelho, meu companheiro no tempo do Colégio João de Deus. Soube, por outros antigos companheiros de estudo, que a Academia Francesa havia premiado um dos “nossos”, o que causou admiração e respeito por uma pessoa simples e prestativa, que nos animava com suas empolgantes alternâncias musicais modeladas nas teclas do órgão da capela do Colégio.

Mas, o terceiro encontro com o Joaquim Coelho aconteceu aquando da minha participação na “Conferência sobre Associações de Pais”, no Auditório do IPO do Porto, onde fiquei a saber do seu prestável apoio no “Voluntariado” como bioquímico e na organização de programas de recuperação física e mental de pacientes do cancro. Foi um dia especial e de renovação dos laços de amizade e recordação dos nossos primeiros “escritos” publicados na Revista “INICIAL” do Colégio.

Pois, o Joaquim Coelho fez parte do meu pelotão de recruta militar no Quartel de S. Brás, na instrução de Sapador Bombeiro, integrado no Regimento de Engenharia 2, do Porto.  Ali o encontrei numa situação anómala perante as regras militares – foi “obrigado” a frequentar a escola regimental, por não entregar o comprovativo das habilitações literárias. Fui um dos “professores” dos recrutas e confrontei o Joaquim Coelho com a insólita situação, logo esclarecida por saber que a razão era bem mais forte do que esperava: caso fosse para o CSM fora do Porto, perderia o último ano do curso de Laboratório Químico que frequentava. Tendo posto o assunto ao seu patrão, foi aconselhado por militares de alta patente, com efeito das “cunhas” oportunamente accionadas, a nada informar das suas habilitações. Atendendo às circunstâncias, urdi um plano em colaboração com os demais camaradas militares e dispensamos o Joaquim Coelho das aulas regimentais, deixando-lhe tempo para continuar os seus estudos profissionais. Embora o comandante da companhia viesse a descobrir estas tropelias, depois de dar uma “lição” ao recruta Joaquim, facilitou as dispensas diárias para as aulas no exterior.

Através de um primo oficial nas tropas paraquedistas, soube de algumas atribulações complicadas com o Joaquim – próprias numa pessoa de carácter interventivo e personalidade vincadamente firme e livre. Esse familiar teve intervenção na integração do Joaquim Coelho naquela tropa especial e moderna, quando o viu na iminência de desertar… por não ter preparação de combate para embarcar para a guerra em Angola (aconselhou-o a ser paraquedista)!

Pelos seus escritos divulgados em jornais e nos livros publicados, entre os quais um premiado pela Academia Francesa, senti grande orgulho por ter sido seu companheiro colegial e concorrente nas publicações dos nossos “talentosos” escritos na revista do Colégio. Aqui deixo dois poemas que expressam bem as diferentes correntes daquele tempo, onde o Joaquim Coelho mostrava recursos e sensibilidades de outra dimensão qualitativa.

Para que conste no seu próximo livro, aqui fica este pequeno resumo das vivências que recordo com saudade e da extremosa amizade dos meus encontros na vida deste homem genuinamente altruísta, defensor da solidariedade social e talentoso escritor e poeta, admirável amigo Joaquim Coelho.

25 de Julho de 2018  

             Cerveira Pinto (Professor UP-Medicina)

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  NA ALDEIA

O riacho corre, aqui ao lado

do casebre onde eu habito…

no inverno corre apressado,

como um selvagem cabrito!

no verão, com o estio,

tem a força de um pavio.

 

As poças de água e as enguias

dão vida ao pobre riacho…

com a cheia em certos dias

dá mostras de grande fúria…

passando a Ponte das cabras

parece encolher na penúria!

 

O sardinheiro todo se ufana

a buzinar na carripana:

- ah… tão poucos fregueses!

como a vida está má…

não é como das outras vezes,

p’ra semana não volto cá!

 

Passa a galinheira a apregoar:

- Quem tem ovos ou coelhos…

compro e vendo galinhas!

Paga bem, séria com os olhos

brilhantes como estrelinhas.

 

O regedor que parece aflito

chama a mulher, apressado:

- compra lá um coelhito

e embebeda-o no vinho…

com o tempero do guisado

fica melhor que o toucinho!

 

Até os vizinhos têm proveito…

além do toucinho caseiro

temos as vacas a jeito

que alimentam por inteiro. 

                      Termas de S. Vicente, Setembro de1955

                                               Joaquim Coelho .

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         ENFIM SÓS

No desconhecido

e em silêncio

no escuro    sem medo

tudo se vai conhecendo

cada vez se sabe menos

       Caminhar

          caminhar

              caminhar

Em rítmos diversos

e fugindo da peste

que é o corpo sem espírito

        Estar só

        mais minha dama

        tão bom

        cada segundo é uma vida

            e

        caminhar

          caminhar

             caminhar

em ritmos surdos

leves     lentos         caminhar

com o coração a doer

as lágrimas cá dentro a cair…

      A sorrir        a amar    muitas vezes

      a morrer aos bocados

      tantas vezes

         a caminhar

             caminhar

              caminhar  

                caminhar  

                  caminhar

                     caminhando…

Porto, Julho de 1956

                      Cotta Mesquita

In revista “INICIAL” do Colégio João de Deus

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PÓS-SCRIPTUM:

Apesar da idade, continuo com atenção à minha saúde e dos demais, porque não consinto que a solidão me afaste dos meus semelhantes afectivos.

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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Viagens e Reportagens em tempo de Guerra

Viajando e Voando pelo Mundo

   Na minha caminhada da vida, tive boas oportunidades de viajar e conhecer pessoas com outras maneiras de viver. Para além da vontade de viajar, tive a sorte de trabalhar em empresas que me destacavam para outros países com tecnologias mais avançadas, onde colhia formação com vista ao desenvolvimento participativo da sociedade, melhoria da produção e criação de riqueza em Portugal.

   Comecei a gostar de viajar desde a juventude… depois de ser selecionado para um Curso de formação de guia turístico, em Londres, por conta do Senhor António Maria Lopes, dono do Grande Hotel do Porto, onde fui apadrinhado pelo Director Álvaro Machado, amigo do meu pai.

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   Terminado o curso, concorri ao lugar de “Guia Turístico” no SNI do Ministério respectivo, ficando entre os três primeiros e ser admitido. Trabalhei durante três anos com turistas na cidade do Porto e fiz acompanhamento de duas excursões, em autocarro, no circuito europeu. Desde aí, senti uma grande apetência para viajar e conhecer outras terras e outras gentes, tendo aproveitado as oportunidades que foram aparecendo, tanto na formação profissional como nas reuniões de colectividades e competições de Paraquedismo.

   Quando destacado para a guerra ultramarina, em Angola, nos intervalos entre operações e descanso, viajava por diversas cidades angolanas, tanto em reportagens como em turismo. Parte das vezes, tive a companhia de amigas-namoradas com bons conhecimentos das terras de Angola, onde tinham familiares a trabalhar.

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   Enquanto repórter e militar operacional em terras de Moçambique, aproveitei o conhecimento com mais de uma dúzia de pilotos ex-militares, antigos camaradas da Força Aérea e, nos locais onde houvesse aeródromos militares ou civis, esperava a passagem de qualquer deles com seus táxis aéreos e lá seguia viagem, à boleia. Mesmo sem ser o destino pretendido, voei e aterei em cidades ou vilas por todos os países africanos a sul do deserto do Sahara, além de Madagáscar, ilhas Comores e Maldivas.

   Durante o tempo de serviço em Moçambique, colaborei no desvio de um avião da Força Aérea da Zâmbia, carregado de militares e famílias, para Lourenço Marques. Acompanhei o Engº. Jorge Jardim, principal administrador das empresas de António Champalimaud e Manuel Bullosa em Moçambique, nas reuniões com Ian Smith, presidente da Rodésia do Sul, pedindo ajuda militar contra o bloqueio naval da Inglaterra ao porto da Beira – guerra do petróleo; do que resultou o enviou de quatro aviões de combate para a Beira, reforçando a Força Aérea Portuguesa de prevenção contra a frota inglesa (um porta-aviões de três fragatas) estacionada ao largo da costa moçambicana. Uma semana depois, chegaram à Base Aérea 10-Beira 4 aviões caças modernos e um bombardeiro Camberra.

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   Tive viagens com inesperados percalços, mas sempre com satisfação pelos conhecimentos adquiridos, como em aventurosa reportagem junto das tropas americanas no Vietname, para onde viajei com apoio de dois oficiais americanos que conheci na Rodésia do Sul como negociantes de mercenários desmobilizados da guerra do Vietname. Em colaboração com jornalistas do Paris Match, passei três dias em reportagem na guerra do Líbano com Israel, em 1982.

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   Anos antes de fazer reportagens das primeiras manifestações políticas no Kosovo e mais tarde na Bósnia e Croácia, viajei como turista num cruzeiro marítimo a partir de Barcelona para o Mar Adriático passando por Nápoles, Sicília, Bari, Dubrobnik e visita à antiga Jugoslávia até Belgrado.

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   Ainda nas missões de reportagem de guerra, a pedido e com o apoio logístico da família Ramchand, comerciantes paquistaneses que conheci em Moçambique e vieram para Portugal em 1975, desloquei-me a Caxemira, onde permaneci cinco dias ao abrigo de familiares desses comerciantes; não obtive os esperados resultados de reportagem porque a intensidade dos bombardeamentos da aviação indiana não dava margens para andarmos em segurança.

   Enquanto repórter e Paraquedista desportivo, andei por diversos países da Europa, incluindo a Hungria e Israel. Nas diversas circunstâncias de viajante (turista, formação profissional e paraquedismo), estive em cerca de 70 países e convivi amigavelmente com as pessoas de mais de trinta, onde colhi bons conhecimentos de usos e costumes dessas populações.

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   Das variadas vivências nesses países e convívio com pessoas de outras culturas, religiões e tradições, colhi ensinamentos para uma natural adaptação às situações mais incríveis de convivência pacífica e salutar percepção das diferenças, bem como das igualdades que nos aproximam em qualquer parte do planeta, numa onda de solidariedade por um mundo melhor e mais acolhedor para todos.

   Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 2016

Joaquim Coelho

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sexta-feira, 29 de março de 2024

Boas Memórias do Tempo

A Páscoa na Minha aldeia

   Neste tempo de Páscoa, recordo muitos dos momentos passados na sacristia para ver quem ia fazer parte da comitiva de levar o compasso a casa dos paroquianos. Os miúdos como eu gostavam de levar a campainha que anunciava a proximidade do “compasso”. O padre seguia logo atrás do acólico da cruz orlada de lindas flores, junto do padre ia o miúdo da caldeirinha da água benta; mais atrás seguiam os dois acólicos para receber as prendas e o dinheirinho dentro dos envelopes que eram entregues pelo patriarca das casas que recebiam a visita pascal. Havia sempre casas sem o tapete de flores nas entradas, sinal de não quererem abrir a porta (sujeitando-se a comentários pouco abonatórios da vizinhança) e outros que estavam fora da terra.

   Para a miudagem da aldeia, as festas da Páscoa eram muito importantes, tanto pelas fatiotas novinhas a estrear como pelas guloseimas que os pais compravam para todos degustarem. Tal como as festas da Páscoa, havia ajuntamentos das famílias pelo Natal e nos dias das Festas de Santo António (em Junho) e do padroeiro S. Vicente (em Janeiro).

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   Terminados os estudos da escola primária com sucesso, aconselharam o meu pai a levar-me para o Porto (ele trabalhava nos Transportes Grijó) onde poderia ter mais condições para estudar. Tive a sorte do meu Pai ser amigo do vizinho Senhor Álvaro Machado, director do Grande Hotel do Porto e pai da menina Luiza, professora no Colégio João de Deus. Depois de alguns meses a fazer serviço de ascensorista no hotel, esta senhora professora conseguiu que eu entrasse no Colégio em condições especiais – trabalhar e estudar, diminuindo assim a mesada mensal que o meu pai teria de pagar (para a qual não tinha posses, por ser um estabelecimento de elites ricas).  

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    Mas os Domingos de Páscoa eram o dia mais festivo na minha aldeia e por lá encontrava muitos dos amigos da minha juventude. O cabritinho assado no forno de coser o pão era um petisco que toda a gente comia com satisfação. O pão de ló e as amêndoas nunca faltavam naquela família; a minha tia Maria punha na mesa as maçãs amarelinhas que tinha guardadas e bem conservadas desde a última colheita do Outono.

   Cedo parti para o Porto, com a finalidade de estudar no Colégio João de Deus, a troco de trabalhar 4 horas diárias de trabalho, fazendo sandes e lavando a loiça do lanche servido aos alunos. De quando em vez, servia o almoço aos alunos mas não gostava que eles gozassem comigo por ter de trabalhar para estudar naquele Colégio de filhos de gente rica do norte de Portugal, também filhos enjeitados pelos amantes endinheirados que não queriam dar o nome e perfilhar – coisa rara, mas ter filhos de amantes em segredos mal guardados podia envergonhar a família!

   Quase todos os meses passava um Domingo com a família da aldeia, que crescia a olhos vistos – éramos dez irmãos bem nutridos e rebeldes. Nas festas e romarias marcava presença nas paródias com meus amigos de infância, especialmente dos tempos da escola de S. Vicente do Pinheiro.

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   Nunca me esquecia de visitar o meu avô Manuel na quinta da Vila, onde tinha boas memórias do tempo das “ajuntadas” pela matança do porco, pela Páscoa, pelas festas a Santo António, pelas vindimas, pela malha do milho e do centeio. Umas vezes, eram as festas da família, outras tinham os vizinhos que ajudavam nas lides das colheitas. Ora, o meu avô Manuel sempre foi a minha luz a alumiar o caminho com suas recomendações para a colheita de sabedoria e humildade para atender os mais desprotegidos neste mundo de competição cada vez mais agressiva e injusta.

   Foi através da visão futurista do meu avô que comecei a ver o mundo num horizonte mais abrangente. Ao ouvir as suas leituras dos Almanaques, comecei a entender o valor das palavras e aprendi a valorizar quem as escreve. Nunca esqueci a varanda do canastro, onde o avô Manuel juntava os netos e dava lições de sabedoria para entendermos o mundo e melhor nos integrarmos numa comunhão de solidariedade e partilha; dali avistavamos os campos e hortas agrícolas até às Termas de S. Vicente. As comunidades locais eram um bom exemplo de que somos mais fortes quando aliamos as nossas capacidades e nos ajudamos uns aos outros, como o fazem os agricultores nos tempos das colheitas – juntam-se nas colheitas, uns dias na casa de uns, outros dias na casa de outros, até todos terem arrumado os produtos da terra nos seus celeiros e adegas.  

   Muito do que fui na vida e realizei com competência profissional e em prol da comunidade é fruto dos ensinamentos do meu avô Manuel, pai da minha mãe; sem esquecer as lições de escrita e a persistência diária do meu Pai Américo , que muito contribuíram para as boas notas nas redacções da escola primária.

   Recordo com saudade o tempo em que acompanhava o meu avô pelos campos, sempre com o cão Pastor no nosso encalço. Gostava de ver a sua preocupação em guiar as águas nos lameiros, com a bengala mexendo as pedras que desviavam a água conforme as necessidades da rega no terreno. O meu avô morreu sem nunca ter estado doente! Bem, morreu por causa de uma constipação que passou a pneumonia e foi fatal. Tinha uma alimentação bem equilibrada, sem deixar de beber um copinho de aguardente ao pequeno-almoço – mesmo depois dos oitenta anos de idade, tinha uma lucidez impressionante e mantinha-se aprumado na sua alta estatura. Partilhei com ele alguns dos meus sucessos nos estudos e no meu trabalho de ascensorista no Grande Hotel do Porto; notava a sua alegria nos olhos castanhos bem vidrados.

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      Depois da sua morte, visitava os tios António e Maria, gestores herdeiros da quinta da Vila. A minha tia ficou solteira a tratar da minha avó Rosa – paralisada devido a um derrame cerebral, viveu mais de dez anos sentada numa cadeira adequada à sua situação de paralisia física. Mesmo incapacitada, nas festas anuais sentia a alegria dos filhos e netos à sua volta.

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   Ora, a minha tia, catequista e zeladora da igreja paroquial, sempre me incentivou a continuar a tocar o órgão musical da igreja; pertencia ao coro paroquial e ficava orgulhosa quando o Padre elogiava a minha arte nas variações musicais.

Também se preocupava com as minhas evoluções no trabalho e nos estudos, mas aconselhava nas evidentes tendências para namorar. Nunca me aconselhou nenhuma pretendente da terra, mas prevenia-me para os cuidados com as namoradas que pudesse encontrar. Sabendo das minhas capacidades para alegrar as pessoas que assistiam às récitas musicais difundidas pelos Órgãos das igrejas onde era habitual tocar, especialmente em dias de festa, perguntava porque ainda não tinha namorada lá na aldeia. Era assunto que mantinha em segredo, até porque nunca tive sorte com as moças a que me afeiçoava! A Alice, partiu para o Brasil, onde estava o pai; a Almerinda, por ser muito próxima das minhas irmãs mais velhas; a Rosa Maria, por causa das traquinices do seu irmão que me aferroava e competia para levar a campainha nas visitas pascais. Pois, todos os anos havia dois grupos de visita pascal, onde a competição dos jovens era evidente na caldeirinha da água benta e na campainha; o Neca era useiro e vezeiro em passar pelo padre Adriano e levar mesinhas para cativar a sua confiança e ser o escolhido. 

   Mas foi a minha tia Maria que me alumiou o futuro e falou das dificuldades de entendermos o íntimo das pessoas; porque todos temos virtudes e defeitos, nem sempre encontramos o que sonhamos e podemos sofrer desgostos e frustrações; dizia que a esperança e a fé devem ser os pilares da nossa força para caminhar, porque a vida é generosa e merece que a saibamos viver com recato e ousadia. Todos nascemos para aprender, estudar, trabalhar, amar e ser amado. Cada um à sua maneira, temos a pretensão de sermos felizes. Nesta senda da vida partilhada, o entendimento deve ser mútuo e em parceria verdadeira, franca e sem enredos. 

   Depois, foi a continuação dos dias de bruma, pelas ruas do Porto, nos bailes nas noites de folia; namoricos à porfia, encontros amorosos nos clubes como o Desportivo de Portugal, nos Fenianos ou no Mário Navega. As intimidades com as telefonistas do hotel; as arrelias com as ciumentas turistas francesas que levava a visitar a cidade e acabava em provas de vinho nas caves do vinho do Porto, do outro lado do rio Douro, em Vila Nova de Gaia.  

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   Na quinta do meu avô não faltavam fruteiras cheias de cerejas, ameixas, maçãs, pêssegos, castanhas e nozes. Havia uma nogueira mesmo junto à casa da eira, que o meu avô gostava de varejar e comer as nozes molares (fáceis de abrir com a mão). Muitos anos mais tarde, estive debaixo dessa nogueira, que tinha crescido e dava sombra para a eira, onde se comia nos dias de festa, em mesas feitas de tábuas soltas.

   Os galináceos, as ovelhas e os bois faziam parte da nossa prol de animais; nos dias soalheiros, eram levados para os pastos nos montes vizinhos ou nos campos da porta. Também havia coelhos que o avô oferecia aos netos como forma de os responsabilizarem na alimentação e criarem até estarem nutridos para os venderem e angariarem algum dinheiro.

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   São estas memórias que me alentam e confortam depois de muitos anos a deambular pelo mundo, muitos dias de incertezas no meio das guerras em Angola e Moçambique, nas missões de reportagem nas guerras do Vietnam, Líbano (duas vezes), Caxemira, Kosovo, Bósnia, onde o futuro era uma escuridão e a vida uma lotaria. Muitas canseiras no aperfeiçoamento profissional, na criação dos filhos, nas coleticvidades que dirigi, nos empreendimentos desportivos e cooperativos que participei, nos convívios que organizei e nos eventos solidários que abracei.

   Muitos anos de preocupação e luta pela causa dos Antigos Combatentes traumatizados pelas sequelas da guerra, em condições de dificuldade e perigo. Os convívios e encontros são a melhor terapia para minorar o stress de guerra; assim, enquanto tiver capacidades para continuar, estarei ao serviço dos meus camaradas Combatentes, sugerindo melhorias de alimentação e outras formas de atenuar o desgaste e manter o corpo em forma, especialmente na imunidade física.

   Sempre atento e militante por natureza, com base na minha capacidade e experiência bioquímica, que ajudou a vencer dois cancros que me atormentaram durante dois anos, tive a ousadia de tentar melhorar os tratamentos oncológicos no Hospital de São João e IPO do Porto, onde, durante oito anos, fui voluntário interventivo, criei e orientei um programa de apoio na recuperação física e mental dos doentes em fase de tratamentos intensivos, fazendo visitas aos parques da cidade e ministrar sessões de Hatha Yoga e meditação transcendental, terapias essenciais para lidar com a doença mais prolongada e desgastante. A vida vale sempre a pena, enquanto não se apague a luz.

   Vila Nova de Gaia, 29 de Março de 2024

    Joaquim Coelho

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