segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Memórias de Vida - Como Começar

AJUDAR e APOIAR

    Na nossa comunidade inclusiva, devemos estar disponíveis para ajudar pessoas fragilizadas a melhorar o seu estado geral de mobilidade e apoiar os mais carenciados. A entreajuda é fundamental para atenuar a falta de recursos materiais e meios de sobrevivência.

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    Devemos ter em conta que cada pessoa vive nos seus labirintos pessoais, base das suas raízes, precisa de espaço para afinar a sua essência no sentido de vida que mais a satisfaça. Limitar as suas liberdades é invadir os seus lugares por onde podem caminhar e escolher o melhor para as suas vidas. Assim, é legítimo que ajudemos a resolver problemas ou questões momentâneas, para que melhor possam caminhar por si. Mas, apoiar pode significar ter que entrar na privacidade das pessoas, dando resposta a problemas com difíceis resoluções cuja demora podem causar dependências; quando chegamos a estas situações, as pessoas podem começar a entrar em ansiedade, porque não veem resultados nem soluções satisfatórias; podem sentir o stress, se pensarem que podem perder os apoios de quem se presta a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.

    Estes conceitos de ajuda ou apoio podem comparar-se ao seguinte:

    Um professor ministra conhecimentos, mas não obriga ninguém a aprender. A diferença entre ajudar e apoiar está na intensão e no efeito: apoiar estimula o desenvolvimento da autonomia para buscar o saber e o conhecimento, ajudar apenas resolve um problema momentâneo!

    Ora, apoiar é mais difícil e demorado; pois, precisa de um largo conhecimento do outro, precisa de confiança e paciência para estar ao lado e participar nas causas que as pessoas precisam para viver o seu dia a dia. Por isso, tudo se resume em sabermos encarar os desafios que as dificuldades nos apresentam – é nas dificuldades que crescemos com mais resiliência e vontade.

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    Sem nunca perdermos o rumo que nos permite atingir objectivos possíveis, temos que continuar a caminhada, procurar respostas e continuar os nossos esforços. Nunca devemos desistir de atingir as metas que o bom senso nos permite sonhar. Mas, devemos ter em conta que as coisas são como são e não como queremos que sejam; aceitar as contrariedades que possam afectar os nossos melhores planos de vida é uma forma de contornar a ansiedade e evitar o stress.

    São as experiências que nos moldam a vida e com elas ficamos mais aptos para a luta, sejam amargas ou saborosas. Tudo que envolve esforços físicos e mentais dá mais sentido à vida.

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O Meu Início de Vida Activa

 Grande Hotel do Porto - Porto 1953

    Entro na vida activa, depois de fazer admissão aos liceus na escola de Penafiel. Estando o meu pai bem relacionado com pessoas da cidade do Porto, incluindo o vizinho e director do Grande Hotel do Porto (senhor Álvaro Machado), logo tratou de me arranjar emprego e condições de estudar, começando como ascensorista no Grande Hotel do Porto. Por sorte e ousadia nas conversas com a professora Luisinha, filha do Director do hotel, ela interessou-se pelo meu ingresso no Colégio João de Deus, onde dava aulas.

    Por acordo com o meu pai, fui admitido no Colégio em condições de trabalhador-estudante, com obrigação de prestar serviço 3 horas diárias e tocar o órgão da capela, durante as orações do fim de dia e nas missas de domingo.

Foram dois anos de bom ambiente e aproveitamento escolar. Mas nem tudo foram flores, porque ocorreram algumas trapalhadas de ordem disciplinar.  

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Colégio João de Deus - 1954

    O meu maior amigo era o pasteleiro Albino, nascido na Régua. Às sextas-feiras, quando regressava de transportar as roupas para as camas dos Padres do Colégio, passava à porta da pastelaria e sentia um cheirinho muito agradável... atér que um dia entrei e lá estava o pasteleiro a compor os pastèis. Como pessoa simples e afável, ofereu-me para provar! Gostei e passei a ser o provador de serviço e fartei-me de comer pastéis. Só tinha de compensar com duas garrafas, por semana, de vinho tinto, ao custo de vinte e cinco tostões.

    Entrei no colégio depois de três semanas no suplício de cortar lenha no sr. Lebre do Pinheiral, a cinco escudos por dia. Por ter abandonado o trabalho e não aceitar continuar ao serviço do Grande Hotel do Porto.

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    Valeu-me a filha do director do Grande Hotel do Porto, sr. Álvaro Machado, que pediu ao Padre Albano para autorizar que eu fosse estudar, pagando uma pequena parcela da taxa de internamento, em troca da prestação de trabalho fora das horas de estudo. Fui aceite com a função de distribuir as roupas de muda das camas à sexta-feira, ajudar a servir o chã das cinco e cortar o pão para as sandes do pequeno-almoço.

    Quem dirigia as aulas era o Padre Miguel, com quem me dei bem. Além de estudar, tocava o órgão da capela. Depois de ensaiar e tocar nas missas de domingo, começou a tornar-se um trabalho deprimente porque era obrigado a tocar também nos dias de semana.

    Com amigos meus conterrâneos que frequentavam o terceiro ciclo, passava parte das tardes de Sábado no anexo do outro lado da rua de Santa Catarina, de cujo terraço se usufruía uma boa panorâmica para os quartos das alunas do internato contíguo. Era um regalo ver as meninas... no banheiro, nas brincadeiras com apalpões, em camisas de dormir, em sessões de masturbação – algumas com grande originalidade! Claro que essas cumplicidades despertavam os sentidos e davam aso a abordagens mais ousadas nos encontros à saída do prédio. Elas até se divertiam com as frases que os gajos lhe mandavam...

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    Como não existiam rádios portáteis e, como alguém dizia que eu tinha a mania das invenções, a minha vida complicou-se quando aprendi a técnica e o modo de fazer “galenas”, ao ler a revista “Popular Mechanics” que comprei na Rua do Almada.

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    Assim arranjei um negócio vendendo os “aparelhos” aos estudantes, a cem escudos cada, já com auscultadores. Trata-se de um aparelho composto por pequenas bobines de fio eléctrico envernizado e enrolado com determinado número de espias à volta de uma pequena pedra de quartzo (usando pedra de carvão, mais barata) consoante a frequência da rádio-emissora que se pretende apanhar; metidas dentro de uma pequena caixa de madeira, com duas cavilhas de saída para auscultadores e um fio para ligar a uma grande antena (extensão de fio nu com mais de dez metros que camuflei fora da janela dos dormitórios).

    O negócio corria bem, até ao dia em que um dos “perfeitos” descobriu que o pessoal metia a cabeça debaixo das mantas e ouvia a música emitida pela emissora; destapou alguns dos meus “clientes” e deitou os aparelhos pela janela fora. A descoberta de que o pessoal ouvia rádio depois de estar deitado, levou os perfeitos (vigilantes) a tentar descobrir de onde vinham os aparelhos. Ao saberem que o Botelho era o construtor, participaram ao padre Albano (chefe da disciplina) o qual me chamou ao gabinete e atestou dois tabefes na cabeça e aplicou um castigo com menção na caderneta como pena grave.

    Por ironia do destino, uns meses mais tarde, depois da hora de estudo no salão, quando subíamos as escadas para os dormitórios e um dos colegas agarrou o corrimão para se guindar, o “perfeito” que seguia no meio das escadas deu-lhe uma grande bofetada, do que resultou um ferimento nos lábios do rapaz que ficou a sangrar. Chegados ao balneário, prestamos-lhe apoio lavando a ferida e colocando papel higiénico para estancar o sangue. Logo combinámos armar uma zaragata durante o jogo de andebol marcado para a manhã seguinte, de modo a apanhar o dito “perfeito” a separar os “arruaceiros” e dar-lhe algumas mordedelas no corpo e amachucá-lo o mais possível.

    No dia seguinte, lá estavam os “jogadores” preparados para o ajuste de contas, que começou bem, com arranhões e mordidelas no corpo do “perfeito mauzão”; só que, depois da arruaça, alguns foram “apanhados” pelo padre Albano e levados para o gabinete dos castigos, que, além de algumas pancadas na cabeça; eu e mais dois com registos de problemas disciplinares fomos expulsos do Colégio, sem possibilidade de lá fazermos os exames finais.

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    Revoltado com o desfecho da contenda, resolvi escrever uma carta ao tal “Perfeito” para ser publicada na Revista do Colégio, através do redactor Cerveira Pinto. Tal não foi autorizado:

“Senhor Perfeito Samuel, quem pensa que é? Não será mais um ser imbecil a prejudicar quem se esforça por colher alguma cultura? Não ande a enganar as pessoas. Os nossos pais amam-nos e querem o melhor para nós; e já somos crescidinhos, quase uns homens e mantemos a nossa pureza de adolescentes. O senhor não passa de um diabo que já conhecemos, ou pensará que nos engana. Eu até tocava o órgão da capela, e tinha algum gosto nisso, mas nunca fui protegido pelo padre Albano, como parece ser o seu caso! Gosto muito do padre João, que com a sua enfermidade nos é mais querido. Agora que saio por motivos disciplinares, continuo a ser prestável aos meus amigos, porque o perfeito Vergílio, meu vizinho, me dê notícias de que o senhor continua a ser um carrasco das boas almas; que continua a andar atrás do som captado no éter da escuridão e que os aparelhos lhe ferem a postura crítica e intolerante. O forte impulso da juventude não vai deixar de me deliciar na construção das “galenas”, mesmo que sejam para lançar pela janela fora! Não me vou deixar idolatrar pelos fantasmas que o senhor tenta endeusar e que só servem para espalhar escuridão no mundo cada vez mais inacessível para os iluminados. Fora deste recanto da cultura dos privilegiados, não me vou limitar a aceitar a humildade social em que nasci, porque não estou de olhos fechados; porque um homem também se forma com os desassossegos da vida, mesmo em dias difíceis. Fique sabendo que o meu grito contra as injustiças far-se-á ouvir em muitos lugares e ao longo dos tempos, o seu eco quebrará o silêncio nestes passos tímidos que me conduzem pela vida fora. Eu não vou amar um deus qualquer, sujeito a ficar perdido na escuridão, envolvido nas profecias que os deuses ocultos na imensidão do universo me possam transmitir em novos ensinamentos. Sinto impulsos firmes e determinantes que me protegem dos “perfeitos” que me tentam perseguir como diabos malfazejos que só pretendem destruir os nossos sonhos. Não vale a pena usar formas engenhosas para abrir falsos horizontes aos jovens que tenta tutelar. Há sempre outros conhecimentos que lhe escapam para fora dos muros e dessas grades que são razão importante para outro querer e outra forma de pensar a vida.”

     Porto, Junho de 1955”  Joaquim Coelho

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Grande Hotel do Porto - 1955

    Por intervenção da professora Luisinha, fiz os exames no Liceu D. Manuel II e logo fui admitido no Grande Hotel do Porto, com a recomendação de estudar francês e inglês, com vista a ser admitido no Curso de Guias Turísticos financiado pelos proprietários dos dois maiores hotéis do Porto.

    Assim, depois de dois anos a estudar línguas, no Instituto de Francês e na Associação Cristã da Mocidade (inglês), fui admitido no curso de Guia Turístico numa escola profissional de Londres. Regressando ao Porto, concorri e fui admitido no SNI e andei pelas ruas do Porto a mostrar a cidade aos turistas, com passagem pelas caves de vinho do Porto, em Gaia. Também fiz uma viagem com o pessoal dos Telefones (companhia inglesa, the Anglo-Telephone Company - TATC) e outra com o pessoal da Hidro-Eléctrica do Douro, percorrendo Espanha, França e Itália até voltar a mudar de vida

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Preparador de Laboratório Químico - 1958

    Dois anos depois, ingressei na Escola Infante D. Henrique, onde frequentei o Curso de Laboratório Químico, ao mesmo tempo que trabalhei nos laboratórios Químicos e físico-mecânicos da Cordoaria Oliveira e Sá, na Boavista. Aí estive até ser incorporado no serviço militar para a Força Aérea, em 4 de Abril de 1960.

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