segunda-feira, 27 de março de 2023

História de Amor na minha Escola

Amistosa Gratidão… 60 anos depois

Os tempos da vida escolar são um marco importante para a vida inteira. Sendo um tempo de mudança da juventude para a adolescência, nem nos damos conta das repercussões das nossas travessuras no percurso de vida dos nossos companheiros de turma.

Em 2011, fui convidado para o “encontro” de antigos alunos da Escola Primária do Pinheiro, Termas de S. Vicente, coisa interessante! Ora, quem era o principal organizador do evento? Precisamente um companheiro a quem um grupo de “matulões” havia pregado uma partida que deixou a freguesia em polvorosa, com toque de sinos a rebate e intervenção da Guarda Republicana. Mas, tal rebuliço deu em casamento, com grande festa e muitos anos de felicidade.

Vai daí, o dito casal, na comemoração dos 50 anos de casados “Bodas de Ouro”, resolveu convidar os antigos companheiros da escola para um memorável Convívio de “reconhecimento” e gratidão, especialmente, aos promotores do seu prematuro “casamento”!

Então, lá nos encontramos no Monte de Santo António, para um almoço e troca de prendas. Foi um dia festivo que muito nos agradou, pela importância de rever antigos companheiros, alguns vindos do estrangeiro, num CONVÍVIO de revisão de memórias inesquecíveis.

Curiosamente, tal maroteira consta no meu livro “Caminhando Indoooooo…”, espécie de diário que resume as principais peripécias do quotidiano da minha vida. Segue-se um “retalho” do livro onde consta o insólito episódio:  

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 7 - Rumo à escola, com devoção e vingança!

Voltei à escola com mais saber. Apesar de ter contrariado a vontade da professora Maria José, quando pretendeu que todos entrassem na Mocidade Portuguesa, aprendi o suficiente para fazer a 2ª e 3ª classe num ano, a 4ª classe e admissão aos liceus no ano seguinte. Havia turmas mistas, com rapazes e raparigas e, quando a professora ia conversar com a colega da outra sala, deixava-me como responsável pela turma. Ora, era ocasião para me vingar dos alunos com quem tinha contas a ajustar, por causa dos jogos do pião ou das mossas causadas pelas pedras nos “combates” de fim de tarde. Usando o meu saber, punha problemas mais complicados no quadro para todos fazerem; os rapazes, que pedissem para os ensinar, levavam com a cana-da-índia no lombo, mas ajudava as miúdas mais amigas.

Já no último ano escolar, senti os efeitos da inveja de alguns rufiões. Passava todo o ano sem uma reprimenda, o que era motivo de contentamento para o meu pai, mas também para a minha tia Maria e meu avô Manuel. Nas férias do Natal, como de costume, recebíamos panfletos para fazermos peditório para os tuberculosos. Logo no segundo dia à tarde, fui para as Termas de S. Vicente pedir nas lojas, farmácia, pensão Escondidinho e no hotel. Apressei-me a angariar algum dinheiro, com o fito de dar umas corridas com os patins que o meu pai me tinha oferecido quando passei de ano escolar. Calcei os patins e comecei a demonstração, correndo na estrada alcatroada, desde a farmácia até às “meninas do Germaninho” e volta. Como não conseguia subir a rampa até aos correios, levava os patins às costas… quando apareceram dois matulões numa bicicleta, convidando-me para seguir de patins atrás deles. Ainda estava a perguntar como podia ser, já um deles amarrava o cordel no meu braço direito e prendia na traseira da bicicleta. Desceram por ali abaixo, comigo atrás… no fim da recta da bomba de gasolina do Matias, viraram para trás. Lá me fui equilibrando, mas comecei a ficar atrapalhado com tanta velocidade… viraram para o parque dos balneários do hotel! Os patins não andam em piso de paralelos… catrapus, dois trambolhões e tinha a pele do calcanhar direito esgaçada. Os malandros fugiram, mas tive quem me levasse para a farmácia, onde me curaram cuidadosamente.

Passei o Natal acamado, pensando na desforra. Ora, descobri que os tratantes tinham 2 irmãos na escola. Às vezes, pediam para os deixar experimentar os patins… foram no engodo. No final das aulas, para fim-de-semana, um dos ditos calçou os patins e começou a andar, cai e não cai. Expliquei-lhe que se equilibrava melhor inclinando o corpo para a frente e com impulsos à medida que lançava o pé para a frente. Começou a correr… a correr… eu a ver o fundo do recreio sem vedação. À segunda avançada, com mais velocidade, chegou ao fundo, sem saber travar… catrapus, estatelou-se na estrada, duma altura de mais de três metros! Os amigos que assistiam à desastrosa demonstração, levaram-no para a farmácia. Há dias assim… para não rirem de mim!

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A miudagem frequentava a igreja e a catequese. Fiz a comunhão juntamente com a minha irmã Conceição; tivemos direito a roupas lindas. No decorrer da missa de Festa, o padre Adriano fez o sermão e falou que precisava de gente nova para ajudar nas missas; dava lições de latim para ter dois ou três ajudantes na missa – eu comecei a ajudar nas missas e recebia gorjetas quando eram pelos defuntos… que maravilha.

Gostava dos sons do órgão da igreja e dediquei-me a aprender a tocar; dava-lhe um jeito e passei a ser um dos preferidos no acompanhamento dos coros… mas também gostava de tocar os sinos – aquilo era uma festa, a puxar as cordas e vê-los a dar voltas sem controlo! Havia o perigo de levar uma pancada na cabeça e ficar mal… como era pequenote, a rotação do sino passava mais alto! 

A vida ia correndo com normalidade, com o ano escolar quase a acabar, até ao dia em que resolvemos fazer o “casamento” a um casalinho que arrulhava como dois pombinhos, que apanhamos aos beijinhos! Era o Loureiro e a Olinda…

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Juntaram-se meia dúzia de rufiões, alguns repetentes, para fazerem uma cabana na bouça das austrálias, localizada do outro lado da estrada, que ficou pronta em dois dias! No final das aulas, o António Vales, mais o António Barbosa e o Joaquim Bastos agarraram o casalinho e prenderam-nos na cabana, ficando os três matulões a guardar, enquanto eu e o António Moreira fomos até à igreja ver o ambiente.

Quando começou a escurecer, apareceram os pais dos “pombinhos” à procura dos "desaparecidos"... o padre Adriano mandou tocar os sinos a rebate e logo se juntou gente no adro da igreja… gerou-se grande confusão; apareceu uma patrulha da guarda republicana com um jeep… escapamos desta confusão e fomos ver como estava a “cabana”, enquanto a população procurava os desaparecidos e os presumíveis envolvidos na marosca; encontramos os “guardas da cabana” a fugirem bouça baixo e vimos o “casalinho” meio aturdido entre as austrálias… vendo-se livres… correram para a igreja. E tudo acabou na caça aos malfeitores que fugiram com medo dos guardas...

No dia seguinte, juntaram-se as professoras na minha sala de aula, onde o casalinho descobriu a “careca” aos “maus da fita”. As professoras obrigaram todos a acompanhá-las até à igreja… onde o padre Adriano atestou umas bofetadas nos cinco ousados meliantes, seguindo-se a reprimenda num sermão que nos envergonhou!

 Ora, oito anos mais tarde, em 1959, o António Loureiro e a Olinda casaram e foram felizes, sem nunca esquecerem a tramoia que lhes engendramos. Quando nos cruzavamos, nas festas e romarias, olhavam-nos com um sorriso amistoso... mas nunca falamos do caso da cabana.

 

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   O meu quotidiano misturava-se com horas de estudo, recados às mercearias e horas de brincadeiras atrevidas. Também ajudava nas mondas dos milheirais e na sacha. Como em casa do meu avô Manuel só havia refeição melhorada aos sábados e domingos, o tio António incumbia-me de ir até ao campo da Quebradinha, onde andavam as galinhas na apanha dos bichos da terra! Ora, o que ia fazer? Nada mais do que agarrar duas ou três pedras e atirá-las à cabeça das galinhas… se não acertava à primeira, não falhava na segunda! Cuidadosa como era, a tia Maria gestora da quinta, ao fim do dia pedia ajuda para escorraçar as galinhas até ao galinheiro e contar os bicos… “ai que faltam galinhas”… voltava ao campo e lá encontrava as faltosas, mas mortas. “Coitadinhas, o que terá acontecido?” Levava-as para casa e no dia seguinte tínhamos arrozada de galinha especial.

In Livro: “Caminhando Indoooo…” – Edições Sentinela-MAC

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Comparação - Escolas do nosso Tempo:

Do FACEBOOK

Favoritos  - 03-02-2023

Salazar...

Serei um GAJO NORMAL????

Antigamente na escola havia os... ‘burros’... ‘gordos’... ‘caixa de óculos’... ‘sem sal’... ‘pretos’... ‘chineses’... ‘indianos’... ‘artolas’... ‘maricas’... etc.

Os ‘burros’ chumbavam!

Não se tornavam doutores como hoje em dia.

Mas a fasquia era definida pelo “marrão” da turma!

Não era nivelada por baixo, como agora.

Somos todos iguais... diz-se!!!

Antes não parecia que fossemos!

Mas o ‘gordo’ também tinha notas brutais e ninguém sabia como!

Talvez porque não jogasse à bola!

O ‘caixa de óculos’ tinha um sentido de humor inigualável, mas não fazia corridas, pois tinha medo de cair!

O ‘preto’ jogava à bola como ninguém e fazia umas fintas inimagináveis!

Tinha um físico fora do comum!

O ‘chinês’ tinha vindo de outra escola, sabia à brava inglês, e tinha histórias que não lembravam a ninguém.

Cada um tinha um «defeito», até uma alcunha!

Mas tinha ou lutava por ter também outras qualidades.

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Hoje não.

Dizem que somos todos iguais.

Agora, tudo ou é bullying... ou racismo... ou xenofobia... ou opressão... ou assédio... ou violência!

Antigamente, quando se era mesmo racista, levava-se um "chapadão" na tromba e aprendia-se logo que o ‘preto’ era como nós outros!

Apenas tinha cor diferente.

E não era bullying!... Era ‘aprendizagem on job’.

Aprender assim era duro; pois, dói e não se esquece mais.

E às vezes, em casa, com os pais também se ‘aprendia’.

O menino ou menina ‘sem sal’ passava despercebido(a) e sentia-se sozinho(a).

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Ter uma alcunha diferente era fixe.

A diferença era vista com bons olhos.

E aprendia-se uma coisa importante:

- Rirmos de nós próprios.

E não "chorarmos" porque alguém nos chamou isto ou aquilo.

Assumia-se a gordura... o ‘esquelético’... a ‘caixa de óculos’... e tudo o mais que viesse.

Mas quando não se estava bem, quando não se gostava da alcunha, fazia-se uma coisa importante:

- mudava-se, lutava-se por acabar com ela.

Não se culpava os outros nem a sociedade.

Não se faziam ‘queixinhas’ !

E falhava-se... Muitas vezes!

Mas cada vez que se falhava ficava-se mais forte.

E sabíamos que era assim. Que havia uns que conseguiam, outros ficavam para trás, que havia quem vencia e quem falhava.

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Agora não.

Todos somos iguais, há mesmo a chamada igualdade de género!

Todos somos bons... todos merecemos... todos temos as mesmas oportunidades... todos devemos até ganhar o mesmo... todos somos vítimas... todos somos oprimidos... e todos somos parvos..…. porque aceitamos este ambiente do ‘politicamente correto’ sem dizer nada… e até devemos dizer que somos ‘normais’.

Segundo o novo paradigma social, devem ter muito cuidado comigo, porque:

- Sou velho ou quase... tenho mais de 50 anos... e quando chegar à reforma, se chegar a tê-la, o que vai fazer de mim um tolo... improdutivo... que gasta estupidamente os recursos do Estado, e:

- Nasci branco, o que me torna racista;

- Não voto na esquerda radical, o que me torna fascista;

- Sou hétero, o que me torna um homofóbico;

- Possuo casa própria, o que me torna um proprietário rico (ou talvez mesmo um latifundiário);

- Gosto de cordeiro de leite... o que me torna um abusador de animais;

- Sou cristão e, embora não praticante, sou um infiel aos olhos de milhões de muçulmanos;

- Não concordo com tudo o que o Governo faz, o que me torna um reacionário;

- Gosto de ver mulheres bonitas bem vestidas (ou despidas), ou super decotadas, o que me torna um tipo capaz de assediar;

- Valorizo a minha identidade portuguesa e a minha cultura europeia e ocidental, o que me torna um xenófobo;

- Gostaria de viver em segurança e ver os infractores na prisão, o que me torna um desrespeitador dos direitos "fundamentais" protegidos;

- Conduzo um carro a diesel, o que me torna um poluidor, contribuindo para o aumento de CO2;

Apesar destes defeitos todos, acho que ainda sou feliz… era mais antes da pandemia… mas, mesmo assim... considero-me um ‘gajo normal’!!

 Desconhece-se o autor, postado por:

José Casimiro Carvalho

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Jogavamos à bola, ao pião, à corda, tanto na escola como na estrada, e faziamos corridas de "motas" de rodas em madeira e rolamentos; quando havia batoteiros, dava porrada e corridas à pedrada - alguns iam com a cabeça a sangrar... no fim eramos todos amigos!

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Também eramos matreiros na malandrice...

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sábado, 18 de março de 2023

Estória de Amor Campestre

Estória de Amor selvagem deu “viagem à Jugoslávia”

   Pois, nos primeiros tempos de Liberdade resultante da revolução de Abril de 1974, começamos a sentir vontade de viajar e conhecer outros mundos e gentes nesta Europa que nos desprezava. As férias eram passadas com casais amigos que tinham filhos como na minha prole. A vida corria de feição para novos conhecimentos e melhorias de relacionamentos mais alargados.

   Comecei a escrever nos jornais uns artigos de intervenção cívica e social que chamaram a atenção de alguns jornalistas como o José Saraiva do JN e o Afonso Praça do “Jornal”, em Lisboa. Logo me desafiaram a colaborar em artigos de opinião sobre as guerras ultramarinas, das quais eu tinha grande espólio por ter andado por lá como combatente operacional Paraquedista e como repórter de guerra. Nessas condições, acompanhei colunas de reabastecimento às tropas aquarteladas no Norte de Angola, região dos Dembos, onde convivi com muitas guarnições de tropas do Exército.

Nem tudo correu como o esperado, porque uma onda de repúdio contra os combatentes que foram desmobilizados e abandonados pelos poderes governamentais criou um ambiente intolerável na sociedade muito perigoso na demagogia dos partidos mais apoiados nos “retornados” que insultaram e acusaram os militares desmobilizados pela desgraça que atingiu muitos milhares de pessoas que tinham as suas vidas bem acomodadas nas colónias.

   Ora, os artigos sobre as guerras ultramarinas foram interrompidos, mas, o director do “Jornal”, Afonso Praça, lançou um concurso literário para um tema “VIDA”, cujo prémio era uma viagem à Jugoslávia. Resolvi concorrer e acabei por ser premiado, com uma “estória” recolhida em tempo de férias campestres.

   Como era habitual, passava parte das férias com a família em casa dos familiares da minha mulher em Bragança. Na procura de Amigos do tempo das guerras ultramarinas, fui parar a Vale da Porca – Macedo de Cavaleiros. Quando me deliciava no passeio junto da ribeira de Vale da Porca, apreciava a natureza paradisíaca e vislumbrei as andanças de um jovem casalinho no meio da vegetação, em modos de descontraído acasalamento, crentes de serem os únicos seres humanos usufruindo daquele ambiente campestre.

   Na procura de Amigos do tempo das guerras ultramarinas, fui parar a Vale da Porca – Macedo de Cavaleiros. Quando me deliciava no passeio junto da ribeira de Vale da Porca, apreciava a natureza paradisíaca e vislumbrei as andanças de um jovem casalinho no meio da vegetação, em modos de descontraído acasalamento, crentes de serem os únicos seres humanos usufruindo daquele ambiente campestre.

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   Subi ao penhasco com vista para a ribeira e por ali fiquei a magicar como aproveitar a ocasião para escrever uma estória com a qual pretendia concorrer ao “Concurso do Jornal” que prometia uma viagem a um de dois países da “cortina de ferro”. Depois de acertar as condições com o jornalista Afonso Praça, dei início à escrita que entreguei em tempo útil para o dito concurso. E, vai daí, cinco meses passados recebi a notícia de ter sido o premiado no tema “VIDA”, tendo possibilidade de fazer a viagem premiada no ano seguinte; o que veio a acontecer para minha grata satisfação em 1978.

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   Então, vamos à estória recolhida no Vale da Porca, terra natal do cantor luso-brasileiro Roberto Leal.     

DONS DA NATUREZA – Vida

   Estamos nos fins da Primavera em que todas as plantas expelem a sua seiva viçosa. As árvores impregnadas de verdores mostram os rebentos e os frutos no ciclo eterno da renovação; nas searas, as espigas de tons doirados são acariciadas pela brisa suave; no céu cor de turquesa aparecem indícios de nuvens pesadas e a atmosfera asfixiante neste vale da Porca vai-se dissipando.

   A languidez desta paisagem banhada de sol e sacudida pelo vento vai-se desvanecendo, e o ar das montanhas morenas vai sendo respirado, com delícia, pelas gentes dos escarpados dos montes. Satisfazendo a solicitude do ambiente bucólico e sensual, apetece fazer coisas divertidas, exaltar a natureza com laivos de loucura em busca da felicidade.

   Os riachos, adormecidos na serenidade das águas, acariciam as folhas que deslizam lentamente no seu insípido silêncio; de vez em quando, são despertados pela presença do calor humano em cânticos graciosos de louvor à colheita dos frutos. Até os frutos maduros se deixam cair, quando uma jovem aproveita a hora da sesta para se banhar, desnuda, nas águas límpidas da represa solitária que serve para regar as hortas!

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   A beleza das flores que contornam as águas rejuvenesce a atmosfera propícia à acumulação das indispensáveis energias para alimentar a chama da vida ciosa de paixões – curiosa fantasia da reconfortante exaltação das delícias do amor casto.

Noé, depois de ter mugido as ovelhas, lava as mãos e a cara enegrecida pelo rigor da labuta entre a poeira resultante do movimento dos animais; enfeita a cabeça com ramagens e põe o cinto de peles já desgastadas. Assim solitário e prenhe de felicidade, caminha até à frescura do riacho… onde encontra a bela jovem na represa.

- Oh! como é bela a natureza, exclama.

   Que surpresa nos seus olhos espectados. Nem as flores dos cactos com figos da índia exalam tanta beleza… deliciosa. Aproxima-se e tenta agarrar aquele fruto doce e sensual, ainda selvagem, e não se atreve a beijar o corpo fresco; de repente, a jovem salta-lhe para os braços… gesto tão inesperado que o deixou estonteado. Ele sente uma picada no coração e treme, quase enlouquece com tantas carícias.

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   Achei por bem afastar-me do ponto de observação, porque entendi, naquele momento tão voluptuoso, que haveria uma ligação amorosa entre aquele par. Fiquei a sós com os lagartos que buscavam mosquitos para seu alimento, ali mesmo junto às rochas onde tinham os seus esconderijos. Não perturbei o silêncio que envolvia a natureza onde aqueles dois jovens se entregavam à poderosa atracção dos corpos sedentos de prazer. Apenas se ouvia o balbuciar feliz de algumas palavras perceptíveis de candura e felicidade… sem alucinações.

- Oh! Como os rouxinóis cantam alegres seus gorjeios flébeis e melodiosos que a minha flauta tenta reproduzir, mas parece amuada… nem só as flores estão com viço, lamenta-se Noé, que continua a divagar: - como eu queria fazer ramos de grinaldas com teus cabelos fulvos que me tocam o corpo num êxtase inebriante!

   Correram para o beiral. A Clarisse parecia iluminada por uma estranha auréola que lhe põe o olhar em chamas. Ainda cheia de lubricidade, cai sobre Noé, numa sofreguidão estonteante, passeia o corpo fresco e viçoso que se retorce sobre o de Noé, excitando-o fortemente. Todo o corpo treme em delirante exaltação… caindo em lascivas posições e lúbricos prazeres; foi-se tornando flácido e imóvel. Adormeceram…

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   Acordaram despidos e entrelaçados, sem se darem conta da hora tardia. Perante tanta formosura, Noé lança-se sobre o corpo da jovem Clarisse, como um animal insaciável! Ela mal teve tempo de despertar do susto e logo sente o seu corpo flexível e delicado ser penetrado numa agitação constante e imparável. Cruzam as línguas ardentes e molhadas… suas naturezas fundem-se numa só! Que devastação. Aniquilados pelas forças puras das montanhas, como que perdidos nos braços dum longo sonho, sentiram seus corpos vibrantes e abrasados em prazeres devoradores dos sentidos ser envolvidos no perfume da brisa leve e criadora da seiva que vertiginosamente penetrou no corpo impúbere da Clarisse.

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   Eram oito da tarde e já as ovelhas baliam…

   Há grande agitação no curral. Perante tanta inquietação, Noé abre o cancelo onde se acomoda o gado…. E fica a tremer!  À frente dos seus olhos, ali mesmo no meio da gravanha, duas ovelhas sofrem as agruras do parto. Parecia uma profecia. Logo no dia em que Clarisse se foi banhar na ribeira, ainda arfando com excitação, longe da maldade do mundo, as ovelhas haviam de parir!

   Limpando o rosto com a camisola esburacada, acudiu ao balir das rezes. Passados alguns momentos de natural atrapalhação, Noé aparece diante da jovem com um lindo anho. Clarisse, surpreendida com aquele rebento da vida, agarra-o com ternura, enquanto o rapaz, alagado em suor, continua a sua inesperada tarefa de parteiro.

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   A singeleza da comoção causada nos dois jovens é fonte de deslumbramento, perante dois seres que se libertaram para a vida num dia de canícula e abundância de momentos felizes – maravilhoso gesto da natureza em reprodução.

Lisboa, Abril de 1977

Joaquim Coelho

Trabalho premiado no Concurso do Semanário, “O JORNAL”, no tema VIDA.

Viagem e estadia de 22 dias num de dois países: Áustria ou Jugoslávia.

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Em 1976 realizei a viagem à Jugoslávia, com bom proveito:

             Aproveitando o prémio do "Jornal", embarquei em Barcelona num cruzeiro passando por Nice, Nápoles, Secília, Bari, Dubrobnik e viajando pela Jugoslávia com lindas cidades e naruteza.

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sábado, 11 de março de 2023

As Mudanças no Tempo

Transição de Gerações

26-01-2023, Patrícia Barnabé

        Nunca pertenci a lado nenhum, e não é feitio, apesar dos pontapés da vida continuo a adorar pessoas, mas nasci numa geração sortuda com uma ingrata herança de país. Na travessia para a democracia, os filhos dos anos 70 em Portugal são uma espécie de saco de boxe existencial numa leeeeenta mudança de mentalidades. Alguns de nós até somos filhos dos pais politizados que fizeram a revolução, devolvendo-nos a liberdade fundamental, os meus heróis, mas a maioria estava noutra ou a tentar sobreviver à miséria. Por isso, as entrelinhas mantiveram-se até há pouco tempo, por isso algumas de nós passaram a vida a tentar encaixar num país novo sem cultura de modernidade. Ou de cidade sequer. Abrimo-nos ao mundo – vimos Portugal entrar na CEE, a chegada dos computadores e dos telemóveis, sem saber que um dia mandariam em nós – mas as cabeças eram quase todas rurais à procura de melhor vida. Com tudo o que tem de esperança e vontade, e o que herda de antiquado e paralisador. Mas o que esperar de um país tantos anos descalço? Podes sair da aldeia, mas ela não sai de dentro de ti.

Lisboa foi sempre uma grande aldeia. Para o bem, quando é comunidade, generosidade, bairrismo castiço e partilha, e para o mal quando espreita a vida alheia pelos cortinados e desconfia do novo e do diferente porque quer que tudo permaneça na mesma. Assim, as raparigas nascidas nos anos 70 tiveram de fazer o caminho todo – com a ajuda da Madonna, nos anos 80 e do rock 'n'roll nos 90 – enredadas em injustos mal-entendidos. A maioria nem sequer reparava nos desníveis sociais, tirando os ricos e os pobres que ainda hoje obcecam a maioria, ninguém pensava nos costumes nem mexia no machismo vigente que, de tão repetido, se tornou confortável. Fora muito bem montado numa subtileza de padrões, tão bem treinados pela igreja e pela ditadura, que pareciam naturais. Até as mulheres jogaram as regras deste jogo viciado, e até o defenderam, não queriam perder o poder da domesticidade e da família, sem reparar que lhe faltavam todos os outros.

Assim, vivemos a duas velocidades. Por um lado, a pasmaceira do mundo real, que também nos deu a qualidade de vida e o silêncio que hoje os estrangeiros velhos e ricos da Europa cobiçam (e sufocam aos poucos); por outro, a velocidade das nossas jovens cabeças, que cedo perceberam que muito permanecia injusto e errado nos costumes. Neste caso, diz-me quem é a tua mãe e dir-te-ei quem és, ainda fomos uma geração de pais distantes. Mas se tinhas a sorte de ter uma mãe moderna, a sorte era afinal um azar porque fazias o caminho das pedras. Nunca fui ensinada a agradar e a seguir, a ser prendada, clássica e mãe de todos, como se usava antigamente, plasmado na Nossa Senhora. Cresci no meio de uma maioria de rapariguinhas amorosas, silenciosas e sacrificiais, que não levantavam ondas, nem expressavam opiniões (que é como "estar morta por dentro" como diz a comediante americana Ali Wong). Mesmo as modernas da minha geração, são quem cozinha lá em casa e trata dos filhos, como dita a velha cartilha, e ainda fazem de conta que gostam, ou encolhem os ombros.

Nós fomos as primeiras a comprar, sozinhas, as nossas casas, carros, férias e vontades, sem pais e sem maridos. Nunca quis ser sustentada. Mas as miúdas independentes eram tão poucas que foram aves raras, invejadas e temidas em doses iguais. Se fosse hoje, éramos incrivelmente sexy, mas fomos só tramadas. Tramadas pelo sistema e pelas outras raparigas. Uma geração depois e esta já parece uma conversa ancestral. Mas se hoje as miúdas badalam a urgência da igualdade de género, e até se dão ao luxo de ser escandalosas, nós crescemos a ser o elefante na sala. Como é natural, o que esta geração apregoa, nós tivemos de sussurrar. Sou do tempo em que ser livre, vegetariana e yogui - e lutar pelas causas da igualdade - era coisa de malucas e de freaks. Hoje é mato. Como usar um piercing ou uma tatuagem, que tinham um forte simbolismo, hoje é banal, até bimbo (para os filhos dos anos 70, o bimbo é mesmo bimbo, agora é moda, o que até pode ter alguma piada); tudo é sistema e todos reclamam a sua fatia de rebeldia, que é cada vez menor.  

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Crescemos na rua, com muitas férias e poucas regras. Os nossos pais largavam-nos tardes a fio ao sol, não pairava ainda o medo da pedofilia, nem do cancro da pele. E como não se sabia quase nada, também perdemos alguns para a aventura das drogas, do álcool e das faixas de aceleração. Talvez por estarmos tão próximos dos elementos, e apesar de alguém nos ter chamado de rascas, somos muito pouco medricas e muito sem merdas. Os nossos valores eram invioláveis. Por exemplo, era regra tratar os mais velhos, os professores, com respeito e alguma deferência por tudo o que ainda não sabíamos. O que nos salvou da arrogância autocentrada da juventude que vemos hoje nas redes sociais. E é claro que respondíamos sempre a um bom dia no elevador. Também fomos a geração que leu livros, porque eram tempo ganho, e ouviu discos do princípio ao fim, cada canção da banda de quem envergávamos uma t-shirt – este era um assunto sério. Qual playlists, só nas festas de garagem, com bolas de espelhos e momento de slows. Crescemos sem ecrãs, o que hoje parece um sonho.

Também arrebatámos os primeiros empregos modernos em áreas que ninguém queria, eram consideradas menores, entretanto tornaram-se cool: do cabeleireiro ao cozinheiro, do stylist ao carpinteiro, do ceramista ao místico. Em terra de cegos, a meia dúzia que tinha olho, conseguiu ser rei, estava tudo por fazer. Tivemos o crédito bonificado e só partilhávamos casa se quiséssemos ou morássemos longe. A grande maioria saiu de casa dos pais aos 20 anos ou tinham problemas. O que faltou? O mundo Erasmus, esse foi o presente da geração seguinte, por isso quero muito testemunhar as pequenas revoluções silenciosas da nova geração, nela revejo o meu amor à ironia e ao sarcasmo e ao poder da individualidade. São muito mais espertos e individualistas, mais preparados e sobreviventes, herdaram um capitalismo selvagem e um planeta a rebentar pelas costuras.

Por isso são desmarcados e cínicos, mais ansiosos e perdidos, nós sabíamos sempre o caminho de casa, como na aldeia, lá está. Fizeram tudo certo, mas sacudiram a melhor qualidade da geração de transição: a ingenuidade. Que não é mais do que um sinal de vida boa e saudável, protegida e até alienada, como a das aldeias, mais uma vez. Fomos muito mimados, porque fomos os primogénitos da liberdade. Tudo era especial e assustador porque era raro e novo. Por isso, às vezes, apetece-me ir viver para o campo.

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