sábado, 18 de março de 2023

Estória de Amor Campestre

Estória de Amor selvagem deu “viagem à Jugoslávia”

   Pois, nos primeiros tempos de Liberdade resultante da revolução de Abril de 1974, começamos a sentir vontade de viajar e conhecer outros mundos e gentes nesta Europa que nos desprezava. As férias eram passadas com casais amigos que tinham filhos como na minha prole. A vida corria de feição para novos conhecimentos e melhorias de relacionamentos mais alargados.

   Comecei a escrever nos jornais uns artigos de intervenção cívica e social que chamaram a atenção de alguns jornalistas como o José Saraiva do JN e o Afonso Praça do “Jornal”, em Lisboa. Logo me desafiaram a colaborar em artigos de opinião sobre as guerras ultramarinas, das quais eu tinha grande espólio por ter andado por lá como combatente operacional Paraquedista e como repórter de guerra. Nessas condições, acompanhei colunas de reabastecimento às tropas aquarteladas no Norte de Angola, região dos Dembos, onde convivi com muitas guarnições de tropas do Exército.

Nem tudo correu como o esperado, porque uma onda de repúdio contra os combatentes que foram desmobilizados e abandonados pelos poderes governamentais criou um ambiente intolerável na sociedade muito perigoso na demagogia dos partidos mais apoiados nos “retornados” que insultaram e acusaram os militares desmobilizados pela desgraça que atingiu muitos milhares de pessoas que tinham as suas vidas bem acomodadas nas colónias.

   Ora, os artigos sobre as guerras ultramarinas foram interrompidos, mas, o director do “Jornal”, Afonso Praça, lançou um concurso literário para um tema “VIDA”, cujo prémio era uma viagem à Jugoslávia. Resolvi concorrer e acabei por ser premiado, com uma “estória” recolhida em tempo de férias campestres.

   Como era habitual, passava parte das férias com a família em casa dos familiares da minha mulher em Bragança. Na procura de Amigos do tempo das guerras ultramarinas, fui parar a Vale da Porca – Macedo de Cavaleiros. Quando me deliciava no passeio junto da ribeira de Vale da Porca, apreciava a natureza paradisíaca e vislumbrei as andanças de um jovem casalinho no meio da vegetação, em modos de descontraído acasalamento, crentes de serem os únicos seres humanos usufruindo daquele ambiente campestre.

   Na procura de Amigos do tempo das guerras ultramarinas, fui parar a Vale da Porca – Macedo de Cavaleiros. Quando me deliciava no passeio junto da ribeira de Vale da Porca, apreciava a natureza paradisíaca e vislumbrei as andanças de um jovem casalinho no meio da vegetação, em modos de descontraído acasalamento, crentes de serem os únicos seres humanos usufruindo daquele ambiente campestre.

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   Subi ao penhasco com vista para a ribeira e por ali fiquei a magicar como aproveitar a ocasião para escrever uma estória com a qual pretendia concorrer ao “Concurso do Jornal” que prometia uma viagem a um de dois países da “cortina de ferro”. Depois de acertar as condições com o jornalista Afonso Praça, dei início à escrita que entreguei em tempo útil para o dito concurso. E, vai daí, cinco meses passados recebi a notícia de ter sido o premiado no tema “VIDA”, tendo possibilidade de fazer a viagem premiada no ano seguinte; o que veio a acontecer para minha grata satisfação em 1978.

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   Então, vamos à estória recolhida no Vale da Porca, terra natal do cantor luso-brasileiro Roberto Leal.     

DONS DA NATUREZA – Vida

   Estamos nos fins da Primavera em que todas as plantas expelem a sua seiva viçosa. As árvores impregnadas de verdores mostram os rebentos e os frutos no ciclo eterno da renovação; nas searas, as espigas de tons doirados são acariciadas pela brisa suave; no céu cor de turquesa aparecem indícios de nuvens pesadas e a atmosfera asfixiante neste vale da Porca vai-se dissipando.

   A languidez desta paisagem banhada de sol e sacudida pelo vento vai-se desvanecendo, e o ar das montanhas morenas vai sendo respirado, com delícia, pelas gentes dos escarpados dos montes. Satisfazendo a solicitude do ambiente bucólico e sensual, apetece fazer coisas divertidas, exaltar a natureza com laivos de loucura em busca da felicidade.

   Os riachos, adormecidos na serenidade das águas, acariciam as folhas que deslizam lentamente no seu insípido silêncio; de vez em quando, são despertados pela presença do calor humano em cânticos graciosos de louvor à colheita dos frutos. Até os frutos maduros se deixam cair, quando uma jovem aproveita a hora da sesta para se banhar, desnuda, nas águas límpidas da represa solitária que serve para regar as hortas!

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   A beleza das flores que contornam as águas rejuvenesce a atmosfera propícia à acumulação das indispensáveis energias para alimentar a chama da vida ciosa de paixões – curiosa fantasia da reconfortante exaltação das delícias do amor casto.

Noé, depois de ter mugido as ovelhas, lava as mãos e a cara enegrecida pelo rigor da labuta entre a poeira resultante do movimento dos animais; enfeita a cabeça com ramagens e põe o cinto de peles já desgastadas. Assim solitário e prenhe de felicidade, caminha até à frescura do riacho… onde encontra a bela jovem na represa.

- Oh! como é bela a natureza, exclama.

   Que surpresa nos seus olhos espectados. Nem as flores dos cactos com figos da índia exalam tanta beleza… deliciosa. Aproxima-se e tenta agarrar aquele fruto doce e sensual, ainda selvagem, e não se atreve a beijar o corpo fresco; de repente, a jovem salta-lhe para os braços… gesto tão inesperado que o deixou estonteado. Ele sente uma picada no coração e treme, quase enlouquece com tantas carícias.

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   Achei por bem afastar-me do ponto de observação, porque entendi, naquele momento tão voluptuoso, que haveria uma ligação amorosa entre aquele par. Fiquei a sós com os lagartos que buscavam mosquitos para seu alimento, ali mesmo junto às rochas onde tinham os seus esconderijos. Não perturbei o silêncio que envolvia a natureza onde aqueles dois jovens se entregavam à poderosa atracção dos corpos sedentos de prazer. Apenas se ouvia o balbuciar feliz de algumas palavras perceptíveis de candura e felicidade… sem alucinações.

- Oh! Como os rouxinóis cantam alegres seus gorjeios flébeis e melodiosos que a minha flauta tenta reproduzir, mas parece amuada… nem só as flores estão com viço, lamenta-se Noé, que continua a divagar: - como eu queria fazer ramos de grinaldas com teus cabelos fulvos que me tocam o corpo num êxtase inebriante!

   Correram para o beiral. A Clarisse parecia iluminada por uma estranha auréola que lhe põe o olhar em chamas. Ainda cheia de lubricidade, cai sobre Noé, numa sofreguidão estonteante, passeia o corpo fresco e viçoso que se retorce sobre o de Noé, excitando-o fortemente. Todo o corpo treme em delirante exaltação… caindo em lascivas posições e lúbricos prazeres; foi-se tornando flácido e imóvel. Adormeceram…

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   Acordaram despidos e entrelaçados, sem se darem conta da hora tardia. Perante tanta formosura, Noé lança-se sobre o corpo da jovem Clarisse, como um animal insaciável! Ela mal teve tempo de despertar do susto e logo sente o seu corpo flexível e delicado ser penetrado numa agitação constante e imparável. Cruzam as línguas ardentes e molhadas… suas naturezas fundem-se numa só! Que devastação. Aniquilados pelas forças puras das montanhas, como que perdidos nos braços dum longo sonho, sentiram seus corpos vibrantes e abrasados em prazeres devoradores dos sentidos ser envolvidos no perfume da brisa leve e criadora da seiva que vertiginosamente penetrou no corpo impúbere da Clarisse.

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   Eram oito da tarde e já as ovelhas baliam…

   Há grande agitação no curral. Perante tanta inquietação, Noé abre o cancelo onde se acomoda o gado…. E fica a tremer!  À frente dos seus olhos, ali mesmo no meio da gravanha, duas ovelhas sofrem as agruras do parto. Parecia uma profecia. Logo no dia em que Clarisse se foi banhar na ribeira, ainda arfando com excitação, longe da maldade do mundo, as ovelhas haviam de parir!

   Limpando o rosto com a camisola esburacada, acudiu ao balir das rezes. Passados alguns momentos de natural atrapalhação, Noé aparece diante da jovem com um lindo anho. Clarisse, surpreendida com aquele rebento da vida, agarra-o com ternura, enquanto o rapaz, alagado em suor, continua a sua inesperada tarefa de parteiro.

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   A singeleza da comoção causada nos dois jovens é fonte de deslumbramento, perante dois seres que se libertaram para a vida num dia de canícula e abundância de momentos felizes – maravilhoso gesto da natureza em reprodução.

Lisboa, Abril de 1977

Joaquim Coelho

Trabalho premiado no Concurso do Semanário, “O JORNAL”, no tema VIDA.

Viagem e estadia de 22 dias num de dois países: Áustria ou Jugoslávia.

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Em 1976 realizei a viagem à Jugoslávia, com bom proveito:

             Aproveitando o prémio do "Jornal", embarquei em Barcelona num cruzeiro passando por Nice, Nápoles, Secília, Bari, Dubrobnik e viajando pela Jugoslávia com lindas cidades e naruteza.

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