domingo, 17 de outubro de 2021

Amizade Partilhada

Amizade e Afectos


Todas as pessoas nascem com uma missão mal definida, mas que terá de se desenvolver e realizar na longa jornada da sua vida. Logo, bastará ir seguindo os trâmites normais com a racionalidade própria da natureza humana e o percurso até pode ser fácil. O difícil é saber encontrar a razão porque nascemos com um futuro determinado – quando tudo se acaba no paradoxo da morte. E se não encontramos o motivo da nossa existência física poderemos sentir grandes dificuldades de adaptação a uma comunidade, porque a harmonia dentro da sociedade comunitária depende de cada um saber e querer desempenhar o seu papel com serenidade e sentido de partilha.


É de boa conduta seguir um percurso de vida onde o bom senso esteja presente nas decisões que teremos de tomar com vista à nossa qualiadde de vida. Naturalmente que durante a adolescencia apenas nos devemos preocupar com o aproveitamento escolar e com os afectos tolerados; mas, chegados à idade adulta, começamos a fazer escolhas para o futuro, passando por um período de aperfeiçoamento das nossas capacidades e do rumo que devemos seguir. As escolhas podem ser fáceis ou difíceis conforme os objectivos que pretendemos alcançar no futuro próximo.


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Para uma vida ordenada e tranquila até aos últimos dias, há que investir em três princípios fundamentais: colher ensinamentos e boa formação profissional; fomentar a proximidade com os vizinhos e com pessoas que nos pareçam comungar de princípios e valores que nos são afins, dando importância aos afectos e ao sabor da vida partilhada; não descorar a aquisição de bens financeiros e poupanças para eventuais situações de acidentes ou doenças graves, paralelamente com uma carreira contributiva para garantia de uma confortável pensão de reforma na velhice. Para aqueles que se afastem destes princípios, geralmente com a ganância de acumular fortunas, correm graves riscos de se verem isolados e detestados, vivendo uma vida fantasiada e perdulária, chegando ao fim dos dias… sem amigos, sem afectos, desgraçadamente intolerantes. Com uma certeza! O dinheiro não compra afectos nem alegria… e deixam cá tudo! Como dizia o outro, no funeral do cunhado que morreu por causa dum diferendo judicial com os filhos: “olhem para esta desgraça, uma família desfeita, com nove milhões no banco e o desgraçado vai pra cova e não leva nem uma notinha”.


As incompatibilidades no trabalho ou na sociedade podem agravar os comportamentos e levar ao isolamento social, precursor da solidão doentia e da ansiedade que se pode acentuar até ao desespero da depressão. E não vale a pena o refúgio nas redes sociais ou a procura de amizades virtuais, porque nada é igual à presença física e ao calor dos que connosco partilham momentos de vida.


Num meio social sem laivos de cultura, diversão saudável e sem afectos das pessoas que nos são próximas, ficamos reféns das banalidades do que nos mostram na televisão e nas redes sociais e perdemos a oportunidade de ser felizes. O maior inimigo da felicidade é não termos um fio condutor de energia anímica partilhada e a desconfiança nas pessoas que nos rodeiam, tal como os vizinhos que nem cumprimentamos e até nos ignoram. Mas, se não interagirmos com os membros da nossa comunidade, corremos o risco de ficarmos infinitamente ignorados pela indiferença com que admitimos este nefasto distanciamento.  


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Então, por mais acertiva que seja a nossa participação nos projectos da comunidade, face aos insurgentes que podem existir entre os nossos vizinhos, a nossa missão poderá tornar-se num propósito dificil de ser realizado. Ai daqueles que estão nas comunidades sem se integrarem e interagirem com os demais, principalmente naquelas questões que dependem do apoio e do consenço comunitário. Normalmente, é aqui que aparecem as rupturas que conduzem a situações de incompatibilidade social e bloqueio de acções comuns.


Nada melhor do que abraçarmos uma causa comum e benéfica para a comunidade, para quebrar o gelo do isolamento e da indiferença. O trabalho em comunidade engrandece a nossa estima e traz felicidade aos que interagem connosco. Isso é muito importante para a estabilidade psíquica e para a felicidade colectiva. Além dos benefícios na nossa saúde ao interagirmos com pessoas diferentes de nós e com hábitos diferenciados enriquecemos os nossos conhecimentos e ficamos mais abertos a novas relações com pessoas reais que nos agradam e fortalecem.       


SEMPRE tive o cuidado de viver a vida com utilidade comunitária, pensando no bem-estar da família e no planeamento para ter um rendimento na reforma, compatível com o meu humilde padrão de vida, sem deixar de usufruir dos melhores momentos da vida para ser feliz em comunidade e na partilha dos afectos e solidário nos empreendimentos.


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Ao investirem cegamente no sucesso financeiro, há pessoas que diabolizam a vida e sofrem inqualificáveis tormentos. Tenho amigos a sofrerem de doenças degenerativas e outros com problemas judiciais por causa da partilha de bens e fortunas financeiras. De vez enquando, realizo “avaliações judiciais” de bens de heranças com as famílias desgraçadamente desabindas… por causa de intolerantes teimosias e pecaminosas ganâncias! Tudo isto devido à falta de humanidade e perda dos princípios da equidade e da lucidez do bom senso. Lamentavelmente, alguns acabam em assassinatos e perda de todos os bens. Este flagelo vai-se agravando à medida que as pessoas perdem a noção do valor dos afectos e enveredam pelos caminhos da competição pelo automóvel mais vistoso e da mansão mais luxuosa… situações que levaram ao encerramento de importantes empresas e despedimento de milhares de trabalhadores em tempos recentes. A hesteria do consumismo desenfreado causa dependência obsessiva, leva muita gente à depressão, com vidas infelizes, quando não à perda da liberdade e a anos de prisão.


Tudo deve ter peso e medida. Se investirmos apenas no sucesso financeiro, podemos ter alguns amigos de ocasião, mas corremos o risco de perdemos a noção da natureza humana onde existem os afectos da família e dos verdadeiros amigos. E, com o tempo, aparecerá a solidão na velhice, porque nos esquecemos de guardar pequenos detalhes da vida em comunidade, ainda mais sentidos quando estivermos doentes e sentirmos a ausência das pessoas que nos foram próximas. Então, num laivo da memória profunda, podemos questionar a razão deste doloroso abandono, quando nem pela doença nos visitam! 


As redes sociais são um perigoso remedeio porque, em doses viciantes, nos afastam da realidade e corremos o perigo de nos desligarmos do mundo real e esquercermos os beneficícios da diversão com pessoas reais, com as quais poderíamos partilhar emoções e entender o amor com a terapia dos afectos, num torvelinho de momentos de grande Felicidade.


Temas Actuais


Vila Nova de Gaia, 14 de Fevereiro de 2018


Joaquim Coelho   


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domingo, 10 de outubro de 2021

O ELOGIO com AMIZADE

AMIZADE na Pesquisa de Terapeutas


As pessoas estão cada vez mais frias, há carências de carinho, não se valorizam as qualidades… só se ouvem críticas!


As pessoas estão cada vez mais intolerantes, e desgastam-se valorizando… os defeitos dos outros! Uma das causas do fracasso dos relacionamentos.


Falta o sentido do ELOGIO, tanto nos homens que não elogiam as mulheres e vice-versa!


Os chefes não elogiam o trabalho dos subordinados! Pais e filhos não se elogiam…


As pessoas valorizam mais as coisas fúteis, tais como futebolistas, novelas sem conteúdo afectivo, artistas, cantores, burrices…


A ausência de ELOGIO vai desvalorizando os valores que engrandecem as pessoas e as fazem felizes.


O excesso de Orgulho impede as pessoas de dialogar com positivismo, e essa carência é motivo de depressão e ansiedade que chega aos consultórios dos terapeutas! Leva à desconfiança, destrói casamentos, inferniza muitos lares!


É urgente começar a elogiar quem nos faz bem, valorizando a nossa família, os amigos, os alunos, os subordinados.


Elogiemos as boas atitudes e acções, a ética, os bons profissionais, a beleza dos nossos parceiros ou parceiras, o bom comportamento dos filhos.


Observemos o que as pessoas gostam: a família, os amigos, os companheiros de trabalho. Vivemos numa sociedade, onde precisamos muito uns dos outros! É impossível ou doentio viver sozinhos; o ELOGIO é a motivação na vida de qualquer pessoa. Não se esqueça de Elogiar quem o merece! Eu começo já:


"O reconhecimento é a luz que alumia o caminho… para o sucesso da missão!"


Joaquim Coelho


(Voluntário de intervenção cívica e social)


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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

A Poesia em Contramão

A propósito da Antologia da Memória Poética


 


 Excelentíssima Senhora Doutora Margarida Calafate Ribeiro


e Assistente Doutora Luciana Silva.


Porque hoje é um dia importante na história de Portugal, passo a responder à Vossa comunicação de 22 de fevereiro de 2011 para refutar as insinuações descabidas sobre os meus conhecimentos sobre o tema “conceitos de poesia”, uma vez que nunca pretendi arvorar-me em “poeta inovador”. Mas, como consta no repertório desse Centro de Estudos Sociais, foi-me atribuído o “Premio de Poesia Inovação”, por um Júri constituído por três distintos homens das letras portuguesas.


Por outro lado, quando aceitei o Vosso convite para colaborar no Projecto da “Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial” foi com a convicção de que o mesmo pretendia trazer à estampa muitos dos “desabafos de alma” de Antigos Combatentes que conseguiram passar para o papel os seus mais profundos sentimentos e emoções que os tocaram no difícil ambiente de guerra.


Ora, pelo que percebi das palestras em que participei, o caminho seguido pela equipa de investigadores, seus aliados, está longe de satisfazer tal objectivo, ao trazer à colação escritos de pessoas que nunca andaram por dentro da guerra nem estiveram sujeitos aos constrangimentos sofridos pelos participantes directos nos teatros de operações militares em condições de grande dificuldade e perigo.


Assim, ao ver deformado um projecto de grande envergadura, dispendioso, elitista e pouco dignificante para os participantes nas guerras ultramarinas, declino a minha participação e mais uma vez refuto as insinuações indecorosas produzidas.


Quanto aos poemas que me solicitaram, permito a publicação de, apenas, um!


Crente de que ainda haja tempo para alterarem os critérios de selecção, desejo que o projecto não morra na praia.


Respeitosos cumprimentos.


Valongo, 25 de Abril de 2011


Joaquim Coelho


NOTA FOTOGRÁFICA:


Participação na Apresentação da Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial:


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Controvérsia com a Antologuia da Memória Poética


À Assistente Doutora Luciana Silva,


Porque escrevo para descrever alguns estados de Alma?


Quando acompanhava o poeta Pedro Homem de Melo, na apreciação dos Ranchos Folclóricos que deveriam ser escolhidos para exibição na Televisão, deambulei por diversas terras do interior do Minho e das Beiras, onde fui sensibilizado para escrever algo em forma de poema. As paisagens e o ambiente rural desenvolveram em mim a mística da simplicidade dos camponeses e comecei a escrever versos para os Ranchos Folclóricos. O Professor Pedro Homem de Melo ficava horas e horas sentado à beira dos riachos a meditar; de quando em vez, também escrevia. Foi um tempo de grande aprendizagem, até porque este homem de Afife também foi meu professor.


Os primeiros poemas foram publicados na revista “Notícia” de Angola e com crítica bastante favorável. Outros foram publicados em Moçambique “Notícias da Beira”,  “Diário de Moçambique”, onde tive problemas com a Censura; também publiquei no boletim militar “Boina Verde”.  


Conhecia os poetas Egito Gonçalves e Papiniano Carlos de quando frequentámos o Teatro Experimental do Porto, no tempo em que era dirigido pelo grande António Pedro, entre 1955-60. Tempos depois de regressar da tropa (1969), falei-lhes nos escritos em tempo de Repórter de guerra e poemas dos "diários de guerra" em Angola e Moçambique; logo se prestaram a colaborar na preparação de um livro com a finalidade de participar no concurso que a Editorial Inova estava a organizar. Decorria o ano de 1972. Escolhidos os poemas, organizou-se o livro que foi levado a concurso. Eram 178 poemas, quase todos sobre o tempo da guerra do ultramar. Por decisão do Júri, ganhei o "Prémio de Poesia Inovação", com direito à publicação do livro. Dias antes da distribuição do livro, soube que a Comissão de Censura interferiu e a PIDE apreendeu o molho dos meus poemas. Nunca mais soube deles, porque ninguém arriscava dar-me informações. Fui aconselhado a ficar quieto. Até o “Prefácio” que abria o livro “Tempo Presente, poemas da guerra e da paz” foi confiscado. Junto fotocópia da capa.


Veio a revolução do 25 de Abril; tudo começou a mexer nos textos apreendidos. Também fui à procura, tendo encontrado 21 dos 178 poemas. Ao tempo não havia condições de fotocopiar e parte dos rascunhos estavam destruídos. Desanimei na divulgação, mas fui passando a limpo os rascunhos do diário que escrevi nas horas difíceis da vida no mato, em condições de dificuldades e perigos. Ainda não está tudo pronto, mas deu para organizar cinco livros de poemas e três de texto narrativo do ambiente no meio da guerra. Poemas, são cerca de 340 de Moçambique, mais de 310 de Angola e mais de 850 de Portugal.


Foram escritos por impulso e sem respeitar qualquer regra literária. São a expressão dos estados de alma nos momentos mais delicados das minhas vivências temporais. Há de tudo um pouco, desde ideias filosóficas, deslumbramento de amores, angústias e incertezas no meio da guerra e intervenção social. Quanto a publicação dos livros, as editoras não se mostram interessadas em o fazer às suas custas, salvo a Clássica Editora, que publicou o liuvro: "O Despertar dos Combatentes" com grande sucesso, o qual foi premiado pela Academia Francesa com a mensão "Récit Homérique", em 2006 ". No entanto, com a colaboração de investigadores de Intervenção Cívica e Social da Universidade do Minho e Universidade de Lisboa, estão em organização vários livros para publicação numa parceria com uma Editora de Antigos Combatentes.


Atendendo a que a guerra colonial me marcou para o resto da vida, tenho procurado mostrar que houve uma guerra que mexeu com a vida de mais de quatro milhões de bons portugueses (entre militares e respectivas famílias), matou cerca de dez mil, estropiou mais de trinta mil e traumatizou mais de duzentos mil. Enfim, aniquilou os sonhos de muitos homens duma geração. Coisa que tem sido escamoteada e desvirtuada pelos governantes e pelos decisores da sociedade, inclusive, pelos “senhores coronéis e generais” que ao tempo comandavam as tropas. 


Grande parte dos escritos conhecidos sobre a guerra colonial são de gente que não teve intervenção directa e, como tal, não sofreu na pele os efeitos da guerra. Em alguns casos, de Manuel Alegre e António Lobo Antunes, aparecem afirmações que são autênticos insultos aos verdadeiros combatentes. Os antigos combatentes estão indignados com as mentiras e o modo redutor e infiel como são tratados. Até a RTP, no seu programa “A Guerra”, deu mais tempo de antena aos comandantes (muitos deles responsáveis por terem ficado abandonados mais de três mil mortos nas terras africanas) e aos mentores das chacinas que atingiram muitos civis portugueses, especialmente em Angola, não dando palavra àqueles que participaram nas mais complicadas operações de guerra. No meu caso, disponibilizei mais de três mil fotografias e prestei depoimento gravado durante 35 minutos e só apresentaram 50 segundos numa questão de reduzido interesse factual. Mas, alguns dos representantes da UPA-FNLA que aparecem na Televisão são bem conhecidos na arte de mandar massacrar inocentes indefesos no Norte de Angola; deviam ter sido julgados por genocídio e crimes de guerra. 


Ora, como podem entender, não acredito que a recolha de temas sobre a “Poesia da Guerra Colonial” venha a interessar aos combatentes, já que tudo quanto se fez até ao presente foi para servir de amostragem e deleite duma pseudo-elite intelectual que nada tem feito em prol das necessidades dos combatentes traumatizados pelas vivências no meio da guerra. Mesmo assim, estou disponível para colaborar, desde que a "Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial" seja um instrumento de divulgação em homenagem aos antigos combatentes.


Valongo, Março de 2010


Joaquim Coelho


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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Escritos de Intervenão Cívica e Social

Escrever poesia é uma forma de disfarçar a contundência dos textos de protesto.


Sempre tive jeito para escrever, desde a segunda classe, porque o meu pai me ensinou as primeiras letras antes de ir para a escola primária. Desde a primária que escrevi as pequenas estórias do cotidiano que me rodeava entre a escola e a vida no campo. Talvez por ter boa capacidade de observação, fazia rascunhos em sebentas e folhas soltas que tinha à mão. Curiosamente, nunca achei que tivesse jeito para poesia, embora andasse próximo de alguns Poetas que conheci, quando frequentava o Teatro Experimental do Porto. Talvez por isso, fui escrevendo um amontoado de palavras que mais tarde eles entenderam classificar como poemas de intervenção.   


Os princípios de escrita em forma de poema não foram convincentes! Pois, o primeiro poema dedicado a uma menina não resultou… porque, dois meses após termos reatado um hipotético namoro, embarcou para o Brasil, onde tinha o pai.


Os textos escritos nas reportagens em tempo das guerras ultramarinas eram censurados a granel. Como raramente passavam no crivo dos censores, refugiava-me nos textos em forma de poema para disfarçar o protesto que pretendia passar para o público. Assim contornei o sistema sem grandes incómodos.  


Ora, quando aconselhado a participar no concurso de livros de poemas da Editorial Inova, jamais esperava ganhar o prémio, uma vez que a minha timidez atava a vontade de acreditar entrar no mundo dos grandes poetas dos anos cinquenta e sessenta. Foi uma surpresa agradável, mas não entusiasmante para dar mais apreço à escrita em forma de poema.


Sempre tive o condão de observar a sociedade em diversos ângulos, vantajoso na recolha dos elementos essenciais para a construção do texto ou poema de intervenção cívica e social que me completa como cidadão solidário e disponível para abraçar grandes causas para o bem comum. Assim, vou escrevendo e divulgando para que tenhamos um mundo mais justo e mais solidário. E com a idade, sinto que ainda tenho muito a fazer dentro destes princípios, com sentido de amizade incondicional.


Primeiro poema a uma menina: 


     ADOLESCENTES


 


Era linda aquela tarde


em que o sol espreitava


por entre as nuvens soltas


como o teu cabelo ondulante


a rabiscar teu rosto airoso


no arraial de santo António,


 


os foguetes estoiravam no ar


tal como a nossa juventude


esplendor do tempo p’ra amar


estavas envolta na blusa branca


que te cobria os finos ombros


e eu olhei-te… sem rodeios


pus a mão nos laços verdes


que desciam até aos seios…


 


Deixas-te sair um sorriso


tão aberto e desprendido…


ansioso… perdi o juízo


ao controlar os movimentos


das mais próximas amigas;


com o olhar esboçavas


curiosidade na minha acção,


mas não quero que me digas


se era em mim que procuravas


o aconchego do coração.


 


Discreto, segui teus passos


porque estava no meu dia…


não podia pedir-te abraços


mas o momento prometia


esquecer o tempo ausente


longe dos exílios do coração


e por estares ali presente


temperavas a minha solidão.


 


Eu nunca tinha imaginado


sentir-me assim apaixonado


com amor chegando aos pares;


naquela tarde percebemos


o que é a invasão dos corpos


na ternura dos olhares…


ficamos embriagados de amor


e descobrimos a sensualidade


estimulando com fervor


os vivos sinais da felicidade.


       Termas de S. Vicente, Junho de 1956


   Joaquim Coelho


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Mas, fiz um poema a outra menina que cativei:


    DIA DE PROCISSÃO


 


Numa tarde quente do verão


subi à colina mais alta


para avistar a procissão


e escolher a moça mais bela


que leve rosas na mão.


 


Antes da volta ao pelourinho


vi a Aninhas de cor trigueira…


quis oferecer-lhe um docinho


e encravei nos olhos dela


envergonhado como um anjinho.


 


Esfumada a soberana ocasião,


sem tempo para meditar,


contornei os devotos da procissão


e vislumbrei uns seios altivos


bem à medida da minha mão!


 


Enchi o peito de ternura


para lhe cativar os beijos,


pois era tal a minha loucura


que tinha a boca em combustão!


agarrei-a bem pela cintura


e… com um gesto singular,


encostei-a às grades do portão.


 


O sol também foi nosso amigo…


Escondeu-se além do pinheiral!


A Aninhas mostrou-me o umbigo,


num gesto de ingénua sedução;


mas a hora era de perigo


e refreou mais uma usurpação


daqueles seios ainda virgens


que deslizavam na minha mão.


 


Foi ao toque das santas trindades


que acordaram os cordeirinhos,


na singularidade das idades


e com a ternura dos anjinhos.


 


  S.Vicente do  Pinheiro, Junho de 1958


Joaquim Coelho


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terça-feira, 5 de outubro de 2021

Militares Veteranos da Europa Confraternizam

UM LEGADO A RECORDAR


Os militares Veteranos são detentores de um basto conhecimento da sociedade e do mundo. Porque os seus exemplos de abnegação no cumprimento de importantes missões de soberania, salvamento, apoios humanitários e solidariedade internacional, são o corolário de muitos anos vividos sobre a pressão no cumprimento do dever patriótico e universal, merecem todo o apreço e gratidão da humanidade. Aproveitando a estadia profissional na Alemanha, um pequeno grupo de Combatentes das guerras ultramarinas participou no grande Meeting de veteranos militares paraquedistas realizado pela Associação de Veteranos dos Estados Unidos da Améria, delegação dos aquartelamentos na Alemanha. Vale sempre a pena participar em convívios, onde se recordam bons momentos e recolhem boas energias que permitam viver mais uns anitos com alegria partilhada pelos amigos. 


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sábado, 2 de outubro de 2021

Apologia do Amor em Livro

PERDULÁRIOS DO AMOR


    Quando dou guarida ao raciocínio lógico algo me diz que qualquer coisa está para acontecer na minha vida… porque muitos episódios passaram por mim e a memória os deixa escapar em cada dia que me encontro barricado na recordação dos abrigos do tempo da guerra em África. De repente, surgem as imagens, muitas e claras, que me fazem sentir saudades de alguém com quem partilhei momentos de ternura e também sentimentos de amor. Foram dias e anos de conflitos entre a ternura, o amor, a camaradagem e a guerra. Mas eu sabia que tinha um destino e que a vida não iria ser fácil; por isso nunca desisti de equilibrar os sentidos até ao dia do regresso.


    Eu gostaria de ter vivido uma vida mais recatada, mais próxima das minhas raízes, sem ter que desenterrar as tristezas dos dias amargos passados no meio das matas e das savanas cheirando a guerra que deixou cicatrizes que jamais se escaparão da memória. Para fugir à psicose dos traumas da guerra, onde vi os amigos e companheiros a morrer sem que os pudesse salvar, porque os meios eram escassos e as distâncias dos locais de apoio eram impossíveis de vencer sem aeronaves adequadas, tive que aventurar-me nas viagens sem destino, passando por locais imprevistos. Foi uma forma de escapar à desgraça dos traumas, escapulindo-me para as pistas por onde passavam táxis aéreos pilotados por antigos companheiros da Força Aérea; aí, pacientemente, esperava boleia para qualquer ponto de África! Com a anuência dos comerciantes que contratavam os serviços dos aviões, percorri muitas dezenas de locais da imensa terra africana a sul da linha do Equador. Foram experiências de extraordinárias viagens de aventura e recreio onde aprendi a amar a natureza e as mulheres, respeitando os valores da amizade e da partilha.


    Quantas vezes, nessas viagens de destino incerto, me interroguei se não seria estupidez embarcar no avião sem saber para onde ele ia. Enquanto esperava na solidão das pistas do interior, olhava em todas as direcções e não vislumbrava motivo para aquela apetência de viajar na aventura do desconhecido. Algumas vezes fui enganado! Se pedia para ir a determinado local, porque tinha interesse em fazer reportagem, o piloto dizia que sim senhor, ia para lá… mas só depois de passar por outros locais do seu interesse e, quantas vezes, em sentido oposto à direcção que eu pretendia seguir. Nunca podia levar as coisas muito a sério – aventura é aventura!


    Em determinadas situações, as demoras nos percursos indefinidos comprometiam as reportagens que tinha planeado com vista a colaboração com os jornais “Notícias da Beira” e “Diário de Moçambique”. Foram casos raros, mas aconteceu chegar aos locais dos eventos depois dos mesmos terem terminado; foi o caso duma reportagem sobre um Torneio de Pára-quedismo na Rodésia do Sul (no governo de Iam Smith).


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    Lembro-me de ter sentido saudades das namoradas; isso motivou uma viragem na minha forma de convocar o amor para me aliviar as dores da guerra. Começava a detestar a guerra que já me causava indignação por causa dos interesses estrangeiros nos territórios ultramarinos portugueses; para não afrontar os colonos com essa realidade, apoiei-me nas amizades com ternura. Ou seja, depois dos dias frustrantes e dolorosos passados em missões de combate nas longínquas terras do norte de Moçambique, comecei a aproximar-me mais das moças da Beira, mantendo um namoro saltitante até encontrar uma jovem que não levava o namoro a sério, mas me fascinava pela simplicidade do comportamento e pelos momentos de carinho que me ajudavam a manter o equilíbrio emocional e a mente a funcionar com todos os neurónios; a sorte foi tanta que a própria família me adoptou no seu ambiente de amigos.


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    Há episódios que não sei explicar, mas que criaram um ambiente bastante apelativo às cenas de ternura envergonhada. Em determinados dias da semana, era costume da casa dessa família de “acolhimento” fazer bolos para o fim-de-semana. Pois, sendo eu um químico, participava com sugestões de novas receitas que nem sempre resultavam muito bem. Essas experiências na cozinha criavam um clima sensível aos toques carinhosos que se prolongavam com sensualidade nos rostos envoltos na farinha e no açúcar, ingredientes dos bolos. É por isso que sinto saudades desses tempos que marcaram bem a minha vida e fazem parte das minhas memórias. A simplicidade misturada com muita ternura proporcionava gostosos momentos de amor.


    Estes sinais de vitalidade fazem-me acreditar que a vida vale sempre a pena, mesmo que o destino nem sempre seja direccionado para a fortuna. Que mais posso desejar do que a saúde para saborear os gestos de amor e viver a fantasia dos dias bem vividos.


    Será o destino um flagelo que me acompanha de braços abertos em comunicação com os desprotegidos? Eu perco-me no emaranhado dos rudes problemas, olhando em redor, e nada encontro que alimente o sentimento que sinto por ti.


    Assim vou seguindo o sentido do tempo em que o sol nos contemplava nas terras da Beira - tão ingénuos e castos.


    Lanço minhas preces ao céu que tudo abarca e não sei onde estás. Mas sigo meu sortilégio ao encontro dos sonhos que as noites tropicais nos proporcionaram, os toques das peles ternas e cálidas ficaram como o estigma das sensações que nos refrescaram a alma e fizeram de nós uns simples perdulários do Amor! Tanta luz e tanta ternura que nos fascinou até que perdemos o rasto de nós próprios.


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    Na contemplação destes espaços que a natureza me faculta, tento memorizar as emoções e ascender ao mundo excêntrico dos sonhos prismáticos, onde possa sublimar os desgostos, depurar todas as misérias que a guerra nos traz e absorver a ternura dos olhos das crianças inocentes.


Porque já não estou por aí,


Vivo com o amor que está aqui!


           


Eu duvido que exista o paraíso


e uma mão cheia de ilusões


quando sinto bem o prejuízo


dos que provocam as confusões;


mesmo assim, fui ao paraíso


para ver se lá estavas,


no caminho perdi o juízo


mas tu já lá não moravas.


 


Hoje que o dia me alegra,


filomena de olhos cintilantes,


estejas tu onde estiveres


jamais eu posso esquecer


os tempos que vivemos antes.


 


Servos duma discreta paixão,


sorvendo a frescura do cajueiro


que bem temperava o coração,


com esse teu ar brejeiro


e os sorrisos triunfantes,


atiravas as dores bem distantes.


                Porto, Abril de 1968


POST-SCRIPTUM:


Muitos anos depois, encontrei a “menina” que me ajudou a combater os dias de angústia. Lembrando os tempos desse aconchego, ambos sentimos saudades dos ditosos dias de fazer bolos. Com uma expressão carinhosa, foi dizendo que nunca esqueceu os “miminhos” que lhe proporcionei e os bolos que saíram mal. Que saudades! 


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In Livro: "Apologia do Romântico" - Edições Sentinela-MAC