Escrever poesia é uma forma de disfarçar a contundência dos textos de protesto.
Sempre tive jeito para escrever, desde a segunda classe, porque o meu pai me ensinou as primeiras letras antes de ir para a escola primária. Desde a primária que escrevi as pequenas estórias do cotidiano que me rodeava entre a escola e a vida no campo. Talvez por ter boa capacidade de observação, fazia rascunhos em sebentas e folhas soltas que tinha à mão. Curiosamente, nunca achei que tivesse jeito para poesia, embora andasse próximo de alguns Poetas que conheci, quando frequentava o Teatro Experimental do Porto. Talvez por isso, fui escrevendo um amontoado de palavras que mais tarde eles entenderam classificar como poemas de intervenção.
Os princípios de escrita em forma de poema não foram convincentes! Pois, o primeiro poema dedicado a uma menina não resultou… porque, dois meses após termos reatado um hipotético namoro, embarcou para o Brasil, onde tinha o pai.
Os textos escritos nas reportagens em tempo das guerras ultramarinas eram censurados a granel. Como raramente passavam no crivo dos censores, refugiava-me nos textos em forma de poema para disfarçar o protesto que pretendia passar para o público. Assim contornei o sistema sem grandes incómodos.
Ora, quando aconselhado a participar no concurso de livros de poemas da Editorial Inova, jamais esperava ganhar o prémio, uma vez que a minha timidez atava a vontade de acreditar entrar no mundo dos grandes poetas dos anos cinquenta e sessenta. Foi uma surpresa agradável, mas não entusiasmante para dar mais apreço à escrita em forma de poema.
Sempre tive o condão de observar a sociedade em diversos ângulos, vantajoso na recolha dos elementos essenciais para a construção do texto ou poema de intervenção cívica e social que me completa como cidadão solidário e disponível para abraçar grandes causas para o bem comum. Assim, vou escrevendo e divulgando para que tenhamos um mundo mais justo e mais solidário. E com a idade, sinto que ainda tenho muito a fazer dentro destes princípios, com sentido de amizade incondicional.
Primeiro poema a uma menina:
ADOLESCENTES
Era linda aquela tarde
em que o sol espreitava
por entre as nuvens soltas
como o teu cabelo ondulante
a rabiscar teu rosto airoso
no arraial de santo António,
os foguetes estoiravam no ar
tal como a nossa juventude
esplendor do tempo p’ra amar
estavas envolta na blusa branca
que te cobria os finos ombros
e eu olhei-te… sem rodeios
pus a mão nos laços verdes
que desciam até aos seios…
Deixas-te sair um sorriso
tão aberto e desprendido…
ansioso… perdi o juízo
ao controlar os movimentos
das mais próximas amigas;
com o olhar esboçavas
curiosidade na minha acção,
mas não quero que me digas
se era em mim que procuravas
o aconchego do coração.
Discreto, segui teus passos
porque estava no meu dia…
não podia pedir-te abraços
mas o momento prometia
esquecer o tempo ausente
longe dos exílios do coração
e por estares ali presente
temperavas a minha solidão.
Eu nunca tinha imaginado
sentir-me assim apaixonado
com amor chegando aos pares;
naquela tarde percebemos
o que é a invasão dos corpos
na ternura dos olhares…
ficamos embriagados de amor
e descobrimos a sensualidade
estimulando com fervor
os vivos sinais da felicidade.
Termas de S. Vicente, Junho de 1956
Joaquim Coelho

Mas, fiz um poema a outra menina que cativei:
DIA DE PROCISSÃO
Numa tarde quente do verão
subi à colina mais alta
para avistar a procissão
e escolher a moça mais bela
que leve rosas na mão.
Antes da volta ao pelourinho
vi a Aninhas de cor trigueira…
quis oferecer-lhe um docinho
e encravei nos olhos dela
envergonhado como um anjinho.
Esfumada a soberana ocasião,
sem tempo para meditar,
contornei os devotos da procissão
e vislumbrei uns seios altivos
bem à medida da minha mão!
Enchi o peito de ternura
para lhe cativar os beijos,
pois era tal a minha loucura
que tinha a boca em combustão!
agarrei-a bem pela cintura
e… com um gesto singular,
encostei-a às grades do portão.
O sol também foi nosso amigo…
Escondeu-se além do pinheiral!
A Aninhas mostrou-me o umbigo,
num gesto de ingénua sedução;
mas a hora era de perigo
e refreou mais uma usurpação
daqueles seios ainda virgens
que deslizavam na minha mão.
Foi ao toque das santas trindades
que acordaram os cordeirinhos,
na singularidade das idades
e com a ternura dos anjinhos.
S.Vicente do Pinheiro, Junho de 1958
Joaquim Coelho

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