quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Escritos de Intervenão Cívica e Social

Escrever poesia é uma forma de disfarçar a contundência dos textos de protesto.


Sempre tive jeito para escrever, desde a segunda classe, porque o meu pai me ensinou as primeiras letras antes de ir para a escola primária. Desde a primária que escrevi as pequenas estórias do cotidiano que me rodeava entre a escola e a vida no campo. Talvez por ter boa capacidade de observação, fazia rascunhos em sebentas e folhas soltas que tinha à mão. Curiosamente, nunca achei que tivesse jeito para poesia, embora andasse próximo de alguns Poetas que conheci, quando frequentava o Teatro Experimental do Porto. Talvez por isso, fui escrevendo um amontoado de palavras que mais tarde eles entenderam classificar como poemas de intervenção.   


Os princípios de escrita em forma de poema não foram convincentes! Pois, o primeiro poema dedicado a uma menina não resultou… porque, dois meses após termos reatado um hipotético namoro, embarcou para o Brasil, onde tinha o pai.


Os textos escritos nas reportagens em tempo das guerras ultramarinas eram censurados a granel. Como raramente passavam no crivo dos censores, refugiava-me nos textos em forma de poema para disfarçar o protesto que pretendia passar para o público. Assim contornei o sistema sem grandes incómodos.  


Ora, quando aconselhado a participar no concurso de livros de poemas da Editorial Inova, jamais esperava ganhar o prémio, uma vez que a minha timidez atava a vontade de acreditar entrar no mundo dos grandes poetas dos anos cinquenta e sessenta. Foi uma surpresa agradável, mas não entusiasmante para dar mais apreço à escrita em forma de poema.


Sempre tive o condão de observar a sociedade em diversos ângulos, vantajoso na recolha dos elementos essenciais para a construção do texto ou poema de intervenção cívica e social que me completa como cidadão solidário e disponível para abraçar grandes causas para o bem comum. Assim, vou escrevendo e divulgando para que tenhamos um mundo mais justo e mais solidário. E com a idade, sinto que ainda tenho muito a fazer dentro destes princípios, com sentido de amizade incondicional.


Primeiro poema a uma menina: 


     ADOLESCENTES


 


Era linda aquela tarde


em que o sol espreitava


por entre as nuvens soltas


como o teu cabelo ondulante


a rabiscar teu rosto airoso


no arraial de santo António,


 


os foguetes estoiravam no ar


tal como a nossa juventude


esplendor do tempo p’ra amar


estavas envolta na blusa branca


que te cobria os finos ombros


e eu olhei-te… sem rodeios


pus a mão nos laços verdes


que desciam até aos seios…


 


Deixas-te sair um sorriso


tão aberto e desprendido…


ansioso… perdi o juízo


ao controlar os movimentos


das mais próximas amigas;


com o olhar esboçavas


curiosidade na minha acção,


mas não quero que me digas


se era em mim que procuravas


o aconchego do coração.


 


Discreto, segui teus passos


porque estava no meu dia…


não podia pedir-te abraços


mas o momento prometia


esquecer o tempo ausente


longe dos exílios do coração


e por estares ali presente


temperavas a minha solidão.


 


Eu nunca tinha imaginado


sentir-me assim apaixonado


com amor chegando aos pares;


naquela tarde percebemos


o que é a invasão dos corpos


na ternura dos olhares…


ficamos embriagados de amor


e descobrimos a sensualidade


estimulando com fervor


os vivos sinais da felicidade.


       Termas de S. Vicente, Junho de 1956


   Joaquim Coelho


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Mas, fiz um poema a outra menina que cativei:


    DIA DE PROCISSÃO


 


Numa tarde quente do verão


subi à colina mais alta


para avistar a procissão


e escolher a moça mais bela


que leve rosas na mão.


 


Antes da volta ao pelourinho


vi a Aninhas de cor trigueira…


quis oferecer-lhe um docinho


e encravei nos olhos dela


envergonhado como um anjinho.


 


Esfumada a soberana ocasião,


sem tempo para meditar,


contornei os devotos da procissão


e vislumbrei uns seios altivos


bem à medida da minha mão!


 


Enchi o peito de ternura


para lhe cativar os beijos,


pois era tal a minha loucura


que tinha a boca em combustão!


agarrei-a bem pela cintura


e… com um gesto singular,


encostei-a às grades do portão.


 


O sol também foi nosso amigo…


Escondeu-se além do pinheiral!


A Aninhas mostrou-me o umbigo,


num gesto de ingénua sedução;


mas a hora era de perigo


e refreou mais uma usurpação


daqueles seios ainda virgens


que deslizavam na minha mão.


 


Foi ao toque das santas trindades


que acordaram os cordeirinhos,


na singularidade das idades


e com a ternura dos anjinhos.


 


  S.Vicente do  Pinheiro, Junho de 1958


Joaquim Coelho


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