A propósito da Antologia da Memória Poética
Excelentíssima Senhora Doutora Margarida Calafate Ribeiro
e Assistente Doutora Luciana Silva.
Porque hoje é um dia importante na história de Portugal, passo a responder à Vossa comunicação de 22 de fevereiro de 2011 para refutar as insinuações descabidas sobre os meus conhecimentos sobre o tema “conceitos de poesia”, uma vez que nunca pretendi arvorar-me em “poeta inovador”. Mas, como consta no repertório desse Centro de Estudos Sociais, foi-me atribuído o “Premio de Poesia Inovação”, por um Júri constituído por três distintos homens das letras portuguesas.
Por outro lado, quando aceitei o Vosso convite para colaborar no Projecto da “Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial” foi com a convicção de que o mesmo pretendia trazer à estampa muitos dos “desabafos de alma” de Antigos Combatentes que conseguiram passar para o papel os seus mais profundos sentimentos e emoções que os tocaram no difícil ambiente de guerra.
Ora, pelo que percebi das palestras em que participei, o caminho seguido pela equipa de investigadores, seus aliados, está longe de satisfazer tal objectivo, ao trazer à colação escritos de pessoas que nunca andaram por dentro da guerra nem estiveram sujeitos aos constrangimentos sofridos pelos participantes directos nos teatros de operações militares em condições de grande dificuldade e perigo.
Assim, ao ver deformado um projecto de grande envergadura, dispendioso, elitista e pouco dignificante para os participantes nas guerras ultramarinas, declino a minha participação e mais uma vez refuto as insinuações indecorosas produzidas.
Quanto aos poemas que me solicitaram, permito a publicação de, apenas, um!
Crente de que ainda haja tempo para alterarem os critérios de selecção, desejo que o projecto não morra na praia.
Respeitosos cumprimentos.
Valongo, 25 de Abril de 2011
Joaquim Coelho
NOTA FOTOGRÁFICA:
Participação na Apresentação da Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial:




Controvérsia com a Antologuia da Memória Poética
À Assistente Doutora Luciana Silva,
Porque escrevo para descrever alguns estados de Alma?
Quando acompanhava o poeta Pedro Homem de Melo, na apreciação dos Ranchos Folclóricos que deveriam ser escolhidos para exibição na Televisão, deambulei por diversas terras do interior do Minho e das Beiras, onde fui sensibilizado para escrever algo em forma de poema. As paisagens e o ambiente rural desenvolveram em mim a mística da simplicidade dos camponeses e comecei a escrever versos para os Ranchos Folclóricos. O Professor Pedro Homem de Melo ficava horas e horas sentado à beira dos riachos a meditar; de quando em vez, também escrevia. Foi um tempo de grande aprendizagem, até porque este homem de Afife também foi meu professor.
Os primeiros poemas foram publicados na revista “Notícia” de Angola e com crítica bastante favorável. Outros foram publicados em Moçambique “Notícias da Beira”, “Diário de Moçambique”, onde tive problemas com a Censura; também publiquei no boletim militar “Boina Verde”.
Conhecia os poetas Egito Gonçalves e Papiniano Carlos de quando frequentámos o Teatro Experimental do Porto, no tempo em que era dirigido pelo grande António Pedro, entre 1955-60. Tempos depois de regressar da tropa (1969), falei-lhes nos escritos em tempo de Repórter de guerra e poemas dos "diários de guerra" em Angola e Moçambique; logo se prestaram a colaborar na preparação de um livro com a finalidade de participar no concurso que a Editorial Inova estava a organizar. Decorria o ano de 1972. Escolhidos os poemas, organizou-se o livro que foi levado a concurso. Eram 178 poemas, quase todos sobre o tempo da guerra do ultramar. Por decisão do Júri, ganhei o "Prémio de Poesia Inovação", com direito à publicação do livro. Dias antes da distribuição do livro, soube que a Comissão de Censura interferiu e a PIDE apreendeu o molho dos meus poemas. Nunca mais soube deles, porque ninguém arriscava dar-me informações. Fui aconselhado a ficar quieto. Até o “Prefácio” que abria o livro “Tempo Presente, poemas da guerra e da paz” foi confiscado. Junto fotocópia da capa.
Veio a revolução do 25 de Abril; tudo começou a mexer nos textos apreendidos. Também fui à procura, tendo encontrado 21 dos 178 poemas. Ao tempo não havia condições de fotocopiar e parte dos rascunhos estavam destruídos. Desanimei na divulgação, mas fui passando a limpo os rascunhos do diário que escrevi nas horas difíceis da vida no mato, em condições de dificuldades e perigos. Ainda não está tudo pronto, mas deu para organizar cinco livros de poemas e três de texto narrativo do ambiente no meio da guerra. Poemas, são cerca de 340 de Moçambique, mais de 310 de Angola e mais de 850 de Portugal.
Foram escritos por impulso e sem respeitar qualquer regra literária. São a expressão dos estados de alma nos momentos mais delicados das minhas vivências temporais. Há de tudo um pouco, desde ideias filosóficas, deslumbramento de amores, angústias e incertezas no meio da guerra e intervenção social. Quanto a publicação dos livros, as editoras não se mostram interessadas em o fazer às suas custas, salvo a Clássica Editora, que publicou o liuvro: "O Despertar dos Combatentes" com grande sucesso, o qual foi premiado pela Academia Francesa com a mensão "Récit Homérique", em 2006 ". No entanto, com a colaboração de investigadores de Intervenção Cívica e Social da Universidade do Minho e Universidade de Lisboa, estão em organização vários livros para publicação numa parceria com uma Editora de Antigos Combatentes.
Atendendo a que a guerra colonial me marcou para o resto da vida, tenho procurado mostrar que houve uma guerra que mexeu com a vida de mais de quatro milhões de bons portugueses (entre militares e respectivas famílias), matou cerca de dez mil, estropiou mais de trinta mil e traumatizou mais de duzentos mil. Enfim, aniquilou os sonhos de muitos homens duma geração. Coisa que tem sido escamoteada e desvirtuada pelos governantes e pelos decisores da sociedade, inclusive, pelos “senhores coronéis e generais” que ao tempo comandavam as tropas.
Grande parte dos escritos conhecidos sobre a guerra colonial são de gente que não teve intervenção directa e, como tal, não sofreu na pele os efeitos da guerra. Em alguns casos, de Manuel Alegre e António Lobo Antunes, aparecem afirmações que são autênticos insultos aos verdadeiros combatentes. Os antigos combatentes estão indignados com as mentiras e o modo redutor e infiel como são tratados. Até a RTP, no seu programa “A Guerra”, deu mais tempo de antena aos comandantes (muitos deles responsáveis por terem ficado abandonados mais de três mil mortos nas terras africanas) e aos mentores das chacinas que atingiram muitos civis portugueses, especialmente em Angola, não dando palavra àqueles que participaram nas mais complicadas operações de guerra. No meu caso, disponibilizei mais de três mil fotografias e prestei depoimento gravado durante 35 minutos e só apresentaram 50 segundos numa questão de reduzido interesse factual. Mas, alguns dos representantes da UPA-FNLA que aparecem na Televisão são bem conhecidos na arte de mandar massacrar inocentes indefesos no Norte de Angola; deviam ter sido julgados por genocídio e crimes de guerra.
Ora, como podem entender, não acredito que a recolha de temas sobre a “Poesia da Guerra Colonial” venha a interessar aos combatentes, já que tudo quanto se fez até ao presente foi para servir de amostragem e deleite duma pseudo-elite intelectual que nada tem feito em prol das necessidades dos combatentes traumatizados pelas vivências no meio da guerra. Mesmo assim, estou disponível para colaborar, desde que a "Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial" seja um instrumento de divulgação em homenagem aos antigos combatentes.
Valongo, Março de 2010
Joaquim Coelho




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