sábado, 19 de agosto de 2023

Viver com Esperança e Sorte

ATRIBULAÇÕES CONCERTADAS

Ninguém nasce destinado ao sofrimento e à privação da liberdade. Todos nascemos para sermos felizes!

Se perdemos o entusiasmo pela vida, corremos o perigo de entrar numa onda de desânimo e seguir os caminhos da escuridão. É o entusiasmo que nos faz seguir em busca do objectivo digno que nos preencha a vida por inteiro, sempre com esperança de melhores dias. Os valores humanos são a base para uma felicidade plena.

Investi a vida numa jornada de protecção da Natureza humana, aliviando as mentes obscurecidas e desenvolvendo acções de proximidade com fins propícios ao cultivo da camaradagem e da grata amizade. Sempre na senda da sociedade fraterna e inclusiva, fomentei a cultura com fundamento na capacitação dos valores solidários e partilha do saber generalizado, tanto de afrirmação pessoal como profissionalismo produtivo, dentro do conceito da felicidade plena. Mas nunca deixei de cultivar o saber e adquirir conhecimentos úteis e reconfortantes para uma vida feliz. Talvez seja um sintoma de irreverência, mas faz parte de mim.

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Passei por difíceis bifurcações na vida, em parte compensadas com uma melhoria substancial! Eis alguns episódios:

1º - Quando tinha cinco anos, o meu pai entregou-me uma arma de caça para levar a um “ferreiro” para desencravar um chumbo de zagalote; sem saber como, mexi no gatinho que disparou e a bala furou-me o pé esquerdo; fui socorrido pelas empregadas do Dr. Campos, nosso vizinho, que fizeram os curativos, como era habitual!… depois de curado e alimentado com um bife, apareceu o meu pai, com ar de zangado, mas elas protegeram-me e não o deixaram entrar na casa; quando foram para a cama, duas delas despiram-se e brincaram à minha frente… eu não entendia, mas gostava de ver.

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2º - Depois de fazer sete anos, num despique com minha irmã Conceição, a apanhar pregos do chão, ela empurrou-me e caí de costas… levantei-me muito zangado e dei-lhe um murro na cabeça… tinha pregos na mão fechada, dois ou três ficaram espetados; começou a gritar… veio a mãe e foi curar-lhe a ferida, que sangrava; apareceu o meu pai, vendo que a tinha agredido, deu-me um bofetão que me atirou ao chão, pontapeou-me e feriu-me… chorava com dores e meteram-me na cama, em recuperação. A notícia chegou à minha madrinha, que vivia na quinta da Vila – Termas de S. Vicente, com mais um tio e os avós maternos… levou-me para lá. Gente mais culta e organizada, com melhor forma de vida. O avô ensinava e dava lições de vida aos netos… voltei à escola com muito sucesso, fazendo quatro anos de escolaridade em, apenas, dois! Cresci lesto e saudável para melhor enfrentar a vida.

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3º - Andava no Colégio João de Deus e fazia coisas lindas: tocava o órgão da capela, aprendi a fazer galenas (rudimentar rádio-receptor auto-alimentado) que vendia aos alunos e ganhava bom dinheiro! Os directores descobriram, deram-me castigo com registo na caderneta! Depois, um vigilante deu uma bofetada num aluno, sem razão; tiramos desforra agredindo o gajo… fomos apanhados e expulsos.

O director do Grande Hotel do Porto, pai de uma das minhas professoras, vizinho e amigo do meu pai, sabendo da situação, deu-me emprego no hotel, como ascensorista… passei a ganhar dinheiro, continuei a estudar e deram-me formação de “guia-Turístico” em Londres. Tive sucesso e conheci novos mundos e outras formas de vida.

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4º - Devido ao começo da guerra em Angola, fui desviado da especialidade de Controlo de Tráfego Aéreo para a polícia aérea da Força Aérea… preparava-me para desertar… já na Base Aérea 3 de Tancos, encontrei um camarada do Colégio João de Deus, oficial pára-quedista… disse-me que desertar era não ver mais a família… aconselhou-me e fui para pára-quedista… um  mundo de aprendizagem fascinante e escola de vida… mais tarde, avancei para a guerra, mas bem preparado.

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5º - Em Moçambique, afrontei a hierarquia, com razão… estive detido na ilha do Ivo devido a uma participação maliciosa de um oficial! Reclamei ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea um Inquérito, que foi realizado… mais de 150 camaradas de armas ofereceram-se para testemunharem a meu favor… espanto geral! Os oficiais, cagados de medo do previsível “conselho de guerra”, concordaram em arquivar o inquérito… o comandante Seixas mandou-me de férias para a Europa.

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6º - Num treino de paraquedismo desportivo, fracturei a perna esquerda e tornozelo com fractura exposta… dois meses internado no Hospital de S. João, onde uma gangrena complicou a recuperação; a equipa médica deu conhecimento a minha irmã Margarida que teriam de amputar o pé… sem que eu soubesse! Percebendo a gravidade, consegui mobilizar o Enfermeiro de serviço no fim-de-semana (meu conhecido por prestar serviço no posto de socorros da Siderurgia Nacional); tive a sorte de ele aceitar fornecer produtos e ajudar na administração de um preparado estudado por mim, à base de bacteriostáticos e anti-sépticos, de modo a limpar a parte do pé gangrenado; após duas horas no posto de curativos, o pé parecia estar livre da podridão. Na observação médica da 3ª feira seguinte, optaram por continuar os curativos. Com determinação e sorte, consegui ficar com os dois pés! Estou muito grato às minhas irmãs: Margarida e Conceição, pelo seu empenho no apoio e ajuda durante o internamento e recuperação, bem como aos Amigos incondicionais... e Alunos, a quem ministrei Cursos de paraquedismo desportivo, que me confortram com suas visitas.   ....Coelho-acidente.jpg

7º - Nos dezoito anos de trabalho na Siderurgia Nacional, tive diversas divergências com o director Doutor Mexedo, em parte, por combater uma forte rede de corrupção que delapidava os dinheiros da empresa. Farto daquilo, queria sair com indemnização… convocado para uma reunião com o Director, levei uma granada no bolso e coloquei-a em cima da secretária… o homem fugiu a gritar… alegando que o queria matar; seis meses depois, recebi a melhor indemnização daquele tempo. Passei a independente… liberdade de acção e bons ganhos monetários… até ser ludibriado pelas máfias na Alemanha, quando ajudava o meu irmão Fernando na reorganização dos seus trabalhadores lá destacados.

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8º - Decorria o ano de 2006... Fui à consulta médica saber se as análises davam o cancro como curado. Os médicos informaram-me que tinha outro! “o senhor está muito mal, talvez já não se aguente para além de três meses…”. Protestei que tinha trabalho para mais de vinte anos… tinha que viver!

Aproveitando os conhecimentos de bioquímica, fui à procura de médicos amigos… crente na possibilidade de fazer a quimioterapia que os médicos não aconselhavam!

Vagueei por aí… e quando descia a Avenida Visconde de Barreiros, na Maia, um automóvel parou de repente, ali ao meu lado… “olha o amigo do Saraiva! Ainda agora estive com ele… disse-me que você é um às na fotografia, entre aqui”… efectivamente, eu tinha um amigo “Saraiva” na Siderurgia Nacional… e entrei; mostrou-me uma maleta com máquina fotográfica… “cento e cinquenta euros e é para si”. Respondi que só tinha cem euros… entregou-me a máquina e dois relógios de oferta! Estava com pressa, saí do carro… abri a maleta, porra! Fui enganado.

Meio incrédulo com o acontecido, virei para circular por cima do Venepor, a ver montras… nem queria acreditar, na montra duma farmácia vi um AVISO: “fazem-se análises a tal e tal… concentração de células cancerígenas, plaquetas e hemoglobina.” Pensei: tenho o problema do controlo da quimioterapia particular resolvido, disse para comigo! Com os médicos Amigos e um Enfermeiro do Posto de Saúde de Ermesinde, avançamos com as sessões (à minha maneira) e, dois meses depois estava livre de células cancerígenas!

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Confirmei que, muitas das nossas quedas, são seguidas de um novo impulso, mais vigoroso e triunfante.

Mas, ao observar a sociedade, senti um grande infortúnio e desapontamento - encalhei nos rochedos do pensamento, ao indagar porque há tanta gente que enriquece sem trabalhar e muitos outros a espalhar tenebrosas maldades!

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A vida na sociedade mecanizada é como navegar em mar revolto: é preciso inteligência e determinação para sobreviver; sabedoria para ganhar; garra para o sucesso; e, quem não lutar arduamente, arrisca-se a ficar na berma do caminho, na iminência de cair na sarjeta e sentir amarga derrota.

Portanto, temos que manter viva a esperança… e continuar a CAMINHAR; há sempre uma hora mais favorável e com vento de maré, para um novo impulso!

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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Memórias dos Amores Tropicais

   PERDULÁRIOS DO AMOR

   Quando dou guarida ao raciocínio lógico algo me diz que qualquer coisa está para acontecer na minha vida… porque, muitos episódios passaram por mim e a memória os deixa escapar em cada dia que me encontro barricado na recordação dos abrigos do tempo da guerra em África. De repente, surgem as imagens, muitas e claras, que me fazem sentir saudades de alguém com quem partilhei momentos de ternura e também sentimentos de amor. Foram dias e anos de conflitos entre a ternura, o amor, a camaradagem e a guerra. Mas eu sabia que tinha um destino e que a vida não iria ser fácil; por isso nunca desisti de equilibrar os sentidos até ao dia do regresso.

   Eu gostaria de ter vivido uma vida mais recatada, mais próxima das minhas raízes, sem ter que desenterrar as tristezas dos dias amargos passados no meio das matas e das savanas cheirando a guerra que deixou cicatrizes que jamais se escaparão da memória. Para fugir à psicose dos traumas da guerra, onde vi os amigos e companheiros a morrer sem que os pudesse salvar, porque os meios eram escassos e as distâncias dos locais de apoio eram impossíveis de vencer sem aeronaves adequadas, tive que aventurar-me nas viagens sem destino, passando por locais imprevistos. Foi uma forma de escapar à desgraça dos traumas, escapulindo-me para as pistas de aviação por onde passavam táxis aéreos pilotados por antigos companheiros da Força Aérea; aí, pacientemente, esperava boleia para qualquer ponto de África! Com a anuência dos comerciantes que contratavam os serviços dos aviões, percorri muitas dezenas de locais da imensa terra africana a sul da linha do Equador. Foram experiências de extraordinárias viagens de aventura e recreio onde aprendi a amar a natureza e as mulheres com seus matizes indecifráveis, respeitando os valores da amizade e da partilha.

 


   Em certas ocasiões, nessas viagens de destino incerto, me interroguei se não seria estupidez embarcar no avião sem saber para onde ele ia. Enquanto esperava na solidão das pistas do interior, olhava em todas as direcções e não vislumbrava motivo para aquela apetência de viajar na aventura do desconhecido. Algumas vezes, fui enganado! Se pedia para ir a determinado local, porque tinha interesse em fazer reportagem, o piloto dizia que sim senhor, ia para lá… mas só depois de passar por outros locais do seu interesse e, quantas vezes, em sentido oposto à direcção que eu pretendia seguir. Nunca podia levar as coisas muito a sério – aventura é aventura, e valia a pena!

Quantas vezes, as demoras nos percursos indefinidos comprometiam as reportagens que tinha planeado com vista a colaboração com os jornais “Notícias da Beira” e “Diário de Moçambique”. Foram casos raros, mas aconteceu chegar aos locais dos eventos depois dos mesmos terem terminado; foi o caso duma reportagem sobre um Torneio de Pára-quedismo na Rodésia do Sul (no governo de Iam Smith).

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   Lembro-me de ter sentido saudades das namoradas; isso motivou uma viragem na minha forma de convocar o amor para me aliviar as dores da guerra. Começava a detestar a guerra que já me causava indignação por causa dos interesses estrangeiros nos territórios ultramarinos portugueses; para não afrontar os colonos com essa realidade, apoiei-me nas amizades com ternura. Ou seja, depois dos dias frustrantes e dolorosos passados em missões de combate nas longínquas terras do norte de Moçambique, comecei a aproximar-me mais das moças da Beira, mantendo um namoro saltitante até encontrar uma jovem que não levava o namoro a sério, mas me fascinava pela simplicidade do comportamento e pelos momentos de carinho que me ajudavam a manter o equilíbrio emocional e a mente a funcionar com todos os neurónios; a sorte foi tanta que a própria família me adoptou no seu ambiente de amigos.

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   Há episódios que não sei explicar, mas que criaram um ambiente bastante apelativo às cenas de ternura envergonhada. Em determinados dias da semana, era costume da casa dessa família de “acolhimento” fazer bolos para o fim-de-semana. Pois, sendo bioquímico, participava com sugestões de novas receitas que nem sempre resultavam muito bem. Essas experiências na cozinha criavam um clima sensível aos toques carinhosos que se prolongavam com sensualidade nos rostos envoltos na farinha e no açúcar, ingredientes dos bolos. É por isso que sinto saudades desses tempos que marcaram bem a minha vida e fazem parte das minhas memórias. A simplicidade misturada com muita ternura proporcionava gostosos momentos de amor.

Estes sinais de vitalidade fazem-me acreditar que a vida vale sempre a pena, mesmo que o destino nem sempre seja direccionado para a fortuna. Que mais posso desejar do que a saúde para saborear os gestos de amor e viver a fantasia dos dias bem vividos junto de pessoas que nos são afins.

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   Será o destino um flagelo que me acompanha de braços abertos em comunicação com os desprotegidos? Eu perco-me no emaranhado dos inesperados problemas, olhando em redor, e nada encontro que alimente o sentimento que sinto por ti.

Assim, vou seguindo o sentido do tempo em que o sol nos contemplava nas terras da Beira - tão ingénuos e castos.

Lanço minhas preces ao céu que tudo abarca e não sei onde estás. Mas sigo meu sortilégio ao encontro dos sonhos que as noites tropicais nos proporcionaram, os toques das nossas peles ternas e cálidas ficaram como o estigma das sensações que nos refrescaram a alma e fizeram de nós uns simples perdulários do Amor! Tanta luz e tanta ternura que nos fascinou até que perdemos o rasto de nós próprios. Em qualquer parte deste planeta, temos que ser felizes. E somos Felizes!

Na contemplação destes espaços que a natureza me faculta sem nada me pedir, tento memorizar as emoções e ascender ao mundo excêntrico dos sonhos prismáticos, onde possa sublimar os desgostos, depurar todas as misérias que a guerra nos traz e absorver a ternura dos olhos das crianças inocentes.

O regresso chegou em dia de Primavera, logo todo o horizonte se engalanou florido e promissor com esperança de dias mais airosos. O meu fadário foi bem recheado de acontecimnetos na evolução dos sentimentos e das convicções que me conduziram até ao cimo da colina. Daqui vejo todos os Amigos e camaradas de todos os tempos e posso contemplar as estrelas que nos alumiam os caminhos com alegria e contentamento, por merecemos essa dávida dos deuses.

Vila Nova de Gaia, 20 de Julho de 2019

Joaquim Coelho

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POST-SCRIPTUM:

Muitos anos depois, encontrei a “menina” que me ajudou a combater os dias de angústia. Lembrando os tempos desse aconchego, ambos sentimos saudades dos ditosos dias de fazer bolos. Com uma expressão carinhosa, foi dizendo que nunca esqueceu os “miminhos” que lhe proporcionei e os bolos que saíram mal. Ah que saudades! 

                                                  Joaquim Coelho

In livro "Apologia do Romântico", de Joaquim Coelho

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terça-feira, 18 de julho de 2023

O Tempo em Movimento

Olhando o Tempo

     Incrédulo e descrente com as obscuras obstruções à nossa liberdade de circulação, à laia de “confinamento”, decretadas pelos poderosos senhores do mundo, vislumbro desastrosos resultados na saúde mental das populações e graves tormentos na vida quotidiana. Enquanto as televisões lançam notícias alarmantes a importunar a nossa paz familiar, proibindo os convívios com os amigos, passei pela salutar atmosfera do Monte da Virgem e sentei-me à sombra do monumento da Nossa Senhora Imaculada Conceição, para meditar serenamente sobre o que está a acontecer na minha comunidade e no mundo. Como passamos pelo tempo sem nos apercebermos do que nos resta, vale a pena fazer um intervalo e pensar.

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    Com outros companheiros de jornada solidária, andamos em grande correria no socorro aos aflitos que não encontram os necessários medicamentos na sua zona de residência, enquanto outros já esgotaram as reservas monetárias para a alimentação e gritam por quem lhes leve uma simples refeição diária. Isto acontece desde Maio de 2020, e as instituições públicas continuam no marasmo habitual!  

O tempo passa e desgasta; mas não esqueço que é o meu “dia de aniversário” e conforta-me saber que muitos dos Amigos e Familiares que, no ano passado, fizeram parte dos mais de 160 convivas presentes na “Festa dos 80 anos”, afrontaram o confinamento e organizaram um “Almoço-Convívio”, com acompanhamento musical, em homenagem ao meu contributo para o Estatuto dos Antigos Combatentes. Pois, é caso para dizer que não conseguimos salvar o mundo… mas não desistimos.

   Como já não tenho tempo para confortar todos os que sofrem de injustiças nem de doenças fatais, continuarei a usar o tempo para encontrar e confortar todos aqueles que fizeram parte da minha vida e ainda me acompanham. Durante os seis anos de "Voluntariado" no apoio a doentes oncológicos do IPO e Hospital de São João, no Porto,   encontrei as mais complicadas situações psicológicas em pessoas fortes e resilientes na luta pela vida; mas também encontrei pessoas de tal modo fragilizadas e perdidas sem esperança! Sempre tive um rasgo de energia capaz de confortar e animar na convicção de que a esperança é sempre a ultima a morrer.

   Cheguei ao cume do meu tempo sem sentir o cansaço da longa jornada; mas tenho a certeza que não terei tempo de realizar todos os projectos que me animam na caminhada da vida.

   Foram tantas as realizações com dedicação e empenho na perfeição do possível de mim, mas nem sempre o proveito me foi favorável. Talvez tivesse andado demasiado ocupado numa aprendizagem permanente, sempre com sentido prático nas actividades profissionais e nas colectividades que ajudei a desenvolver na comunidade, com satisfação e proveito para os meus contemporâneos.

   Nunca tive pressa de alcançar os objectivos, porque o conhecimento era o princípio da certeza na plena realização de trabalhos grandiosos. Sempre assumi as responsabilidades e dei o meu contributo com naturalidade e fiz acontecer as premissas que levaram à satisfação dos sonhos dos meus semelhantes. Nunca senti o peso dos sonhos nas decisões que me conduziram à sua concretização, porque as obras eram de monta e havia dezenas de famílias à espera de entrarem para a sua nova casa, na cooperativa a que presidi com dedicação.

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   Não tenho razão para sentir saudades do que quer que seja e muito menos nostalgia, porque sempre vivi com plena consciência dos parâmetros que balizam as nossas vidas. Vivi intensamente cada momento da minha vida, porque sempre abracei várias missões, em simultâneo, sem me deixar perder no rumo das realizações convenientes para as pessoas com quem partilhei grandes alegrias e algumas incertezas.

   Como não sou imortal… olho o horizonte com a lucidez de quem sabe que a morte é um fim necessário para nos fazer temer chegar à terra fria sem decoro e sem mácula, sabendo que todos sofremos de alguma imperfeição.

   Tenho plena noção da falta de afectos que desanimam qualquer mortal que se preze, embora não me possa queixar; mas, de tempos a tempos, sinto vontade de reunir todos os meus Familiares, os meus Amigos de todos os tempos, os meus colaboradores, os meus mestres, os meus chefes para, numa salutar saudação à VIDA, cantarmos o hino da alegria e festejarmos o reencontro das nossas recordações.

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   Tudo quanto realizei, foi em prol duma sociedade verdadeiramente humanizada, onde todos vivam plenamente felizes. Dei os meus contributos com sentido de solidariedade, mas nem sempre alcancei as metas que me propus atingir. Como os demais seres humanos, também sou falível e perdulário. Perdoar-me-ão a idolatria da perfeição, mesmo que me possam apontar falhas de lucidez; sempre soube apetrechar-me das necessárias ferramentas para levar por diante as minhas realizações com reconhecido sucesso. Sendo activista por natureza, sempre fugi à bajulação, mesmo sabendo que os invejosos e os gananciosos me poderiam atrofiar. Daí nada a apontar, porque sempre saí dos apertos com a mestria de um vencedor providencial.

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   Aos meus Amigos mais próximos; aos meus queridos Filhos e demais Familiares deixo um fervoroso recado: com a arma da lucidez e com a firmeza do caracter, tomai cuidado com os invejosos, perigosos como os lacraus; apetrechai-vos de sabedoria, para evitardes os sedentos de bajulação; sede firmes e consistentes na defesa das vossas convicções adornadas de bom senso, para que o futuro vos sorria.

   Sem temores e sem remorsos, continuarei a caminhada, enquanto vislumbrar a luz que me encanta no horizonte longínquo, porque o futuro é já ali.

V.N. de Gaia, 21 de Julho de 2020 

                  Joaquim Coelho

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APOLOGIA DOS AMIGOS

Apologia da Coragem

   Porque as vivências do Joaquim Coelho, nas guerras ultramarinas, foram muito mais alucinantes e atractivas do que a normalidade dos combatentes empenhados numa guerra de imprevisíveis finalidades, por imperativo de consciência, mesmo correndo o risco de ser mal compreendido pelos meus camaradas de armas, entendi ser primordial importância proclamar a neces- sidade de aflorar questões inequivocamente incomuns mas complementares à ideia da publicação de extractos da vida de muitos camaradas e companheiros de missões militares nas guerras africanas.

Atendendo ao meu passado de graduado na Mocidade Portuguesa, onde aprendi a amar e defender os valores patrióticos, jamais a minha consciência permitiria apoiar acções ou testemunhar, sob palavra de honra, em quaisquer situações que pudessem causar danos à instituição militar da minha opção profissional. No entanto, porque sempre acompanhei e vivi de perto as atrib- uladas vivências do sargento Coelho, em grande parte, causadas por questões anómalas contra a sua salutar rebeldia e afrontamento dos poderes obscuros, tenho que reconhecer a abnegação, a coragem, o saber, a lisura de comporta- mentos e a solidariedade para com todos os seus camaradas de armas que a hierarquia tentava ofuscar e rebater.

Prestei o meu testemunho abonatório perante os censores que o quiser- am silenciar, cortando os textos que enviou ao jornal “Notícias da Beira”, por causa do manifesto ponto de vista sobre as populações “recolhidas” dos acam- pamentos que assaltamos em zonas de guerra. A verticalidade e coragem deste homem sereno manifestou-se publicamente no decorrer do “inquérito” disci- plinar que reclamou ao senhor Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, como forma de demonstrar a sua inocência e destruir a “tese maquiavélica” urdida na “participação” do tenente Castro Gonçalves, que atirava para o sargento Coelho as culpas do fracasso de uma operação de assalto a acampamento in- imigo na zona do rio Mulunga, estrada do Chai. Com aprumo e surpreendente sentido de humildade, soube ultrapassar a tentativa de “humilhação” prognos- ticada pelo comandante de batalhão, tenente-coronel Argentino Seixas, que o proibia do uso de armas militares, enquanto decorresse o inquérito disciplinar. Por ironia, afrontou tal determinação fazendo uso de uma pequena pistola civil, que exibia airosamente num minúsculo coldre à cowboy! Retirado  dos combatentes operacionais, cumpriu com extraordinária dedicação o dever de vague-mestre, durante sete meses, proporcionando aos seus camaradas, em operações, alimentação e apoio logístico com qualidade e atempadamente.

Só um homem com a calma e inteligência do Joaquim Coelho poderia desembaraçar-se de situações complexas em que se envolveu: A forma eficaz como interveio na deserção de militares da Força Aérea da Zâmbia, onde me envolveu, juntamente com o Vicente e o Figueira, na segurança do aeropor- to de Lourenço Marques, para aterragem e recolha do avião Dakota com de- zoito pessoas zambianas; a maneira como se safou das sanções da PIDE, por lhe terem apreendido o passaporte, quando requereu a deslocação à Zâmbia (acabou por fazer a viagem clandestinamente); o seu discreto relacionamento e aparente colaboração com o Engenheiro Jorge Jardim, para que tivéssemos melhores condições de alojamento dentro da Base Aérea 10, na Beira, são ex- emplos que nos surpreenderam, porque denotam conhecimentos e tendência para acções aventurosas, mas humanistas, sigilosamente ponderadas.

Com uma força moral superior, suplantou as mais difíceis condições de vida nos momentos em que muitos de nós esmoreciam sob o peso das responsab- ilidades de termos mulher e filhos na metrópole, ou por vermos morrer os nossos camaradas feridos, por falta de condições de evacuação e assistência médica. Foi notável a sua resistência ao sofrimento, após a primeira embosca- da no Vale de Miteda; embora fisicamente combalido nas costelas e na perna esquerda, deu primazia à evacuação dos restantes feridos, seguindo apeado até Miteda, onde ficou, com mais quatro camaradas, em precárias condições de saúde; providenciou a evacuação de todos para Mueda, através dos seus amigos pilotos da Força Aérea. Por o ter feito à revelia dos chefes de operações, teve que responder a um inquérito disciplinar absolutamente incrível, em que foi relator o major Mensurado, seu “amigo” desde Angola, sobre o qual havia suspeitas de ser “agente” da Pide, dentro dos Pára-quedistas.

Enquanto estivemos deslocados no deserto de Nacala, o Joaquim Coelho organizou partidas de futebol e de ténis; marcava horas para discutirmos e analisarmos a situação da guerra e melhorar o ânimo perante a conjuntura; com o sargento Magalhães da Mota, formou turmas e ministraram aulas aos interessados; com seus trinados na viola, dava-nos o bailinho da Madeira; com fios eléctricos, engendrou uma grande antena triangular onde captava emis- soras portuguesas, com um simples rádio de bolso. Nas semanas que perman- ecemos em Nacala, entre duas intervenções operacionais no Norte, tais activ- idades serviram para minimizar o desconforto pela perda de quatro soldados (Madriana, Farelo, Sousa e Pinto) mortos nas operações entre Nangade e o Vale de Miteda, em condições que nos deixaram marcas para o resto da vida.

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   Não fora a sua natural perspicácia, sabedoria das normas militares e con- hecimentos de política internacional, de pouco lhe teriam valido as dezenas de voluntários que testemunharam a seu favor, quando alguns oficiais imprevi- dentes, com passado nebuloso e pouco recomendável, lhe moveram processos disciplinares injustos e o quiseram aniquilar nos confins da ilha do Ivo. A sua serenidade, os seus préstimos a todos os camaradas de armas, legitimados pela condição de disponibilidade para ajudar em quaisquer circunstâncias, no mato ou no quartel, aliadas à confiança na sua indomável força de comando, fizeram do meu amigo Joaquim Coelho um homem respeitado, exemplo de modéstia e humanismo, digno de elevado apreço entre os que com ele partilharam ex- traordinários momentos da vida.

- Amigo Joaquim Coelho: Por todo o teu empenho em dignificar as causas nobres da sociedade; por todos quantos usam a Boina Verde, até por aqueles militares do Exército destacados nos aquartelamentos isolados do mundo, a quem prestaste ajuda alimentar e moral; pelas tertúlias de séria reflexão sobre o futuro; por tudo quanto sacrificaste dos teus tempos de lazer, o meu bem-ha- ja e que o sucesso jamais te seja recusado. Apesar dos dias de inquietação que tramaram o teu percurso militar, pela temperança e ponderação que sempre demonstraste perante o perigo, o meu eterno reconhecimento. As elevadas capacidades intelectuais demonstradas nos cursos que concluíste, bem como o teu sucesso profissional, confirmam que nunca precisaste de estar refém das apreciações castradoras do “aprumo militar” feitas por oficiais que incomoda- vas com a tua natural verticalidade e determinação. Obrigado por continuares firme nas convicções e por partilhares connosco situações e vivências que mar- carão a história do nosso tempo. Os nossos filhos e netos merecem saber algo mais sobre as nossas vidas em terras ultramarinas.

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                     Tancos, 23 de Maio de 1991

                              Franklin Branco Armindo (Tenente-coronel Pq)

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domingo, 23 de abril de 2023

Os Livros - Fontes de Conhecmento

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A leitura é fonte de conhecimento que ajuda a libertar a mente e a vencer com sucesso.

O mundo precisa de mais gente com coragem para mudar, gente louca que avance contra as injustiças sem olhar aos juízes que nos julgam com o sentimento farisaico dos deuses endeusados à servidão dos poderosos e do vil dinheiro. Precisamos urgentemente de gente corajosa, gente que se desprenda do sofá e venha para a rua protestar contra os vilões que nos atrapalham a vida e corrompem os dias de esperança. Segue o teu caminho como sendo construído por ti, busca a felicidade dentro de ti próprio para a poderes partilhar plenamente.

A mais eficaz protecção dos nossos direitos está no grau de conhecimentos que possuimos.

Clik na imagem para ver temas:Coelho-Livros3.jpg

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segunda-feira, 27 de março de 2023

História de Amor na minha Escola

Amistosa Gratidão… 60 anos depois

Os tempos da vida escolar são um marco importante para a vida inteira. Sendo um tempo de mudança da juventude para a adolescência, nem nos damos conta das repercussões das nossas travessuras no percurso de vida dos nossos companheiros de turma.

Em 2011, fui convidado para o “encontro” de antigos alunos da Escola Primária do Pinheiro, Termas de S. Vicente, coisa interessante! Ora, quem era o principal organizador do evento? Precisamente um companheiro a quem um grupo de “matulões” havia pregado uma partida que deixou a freguesia em polvorosa, com toque de sinos a rebate e intervenção da Guarda Republicana. Mas, tal rebuliço deu em casamento, com grande festa e muitos anos de felicidade.

Vai daí, o dito casal, na comemoração dos 50 anos de casados “Bodas de Ouro”, resolveu convidar os antigos companheiros da escola para um memorável Convívio de “reconhecimento” e gratidão, especialmente, aos promotores do seu prematuro “casamento”!

Então, lá nos encontramos no Monte de Santo António, para um almoço e troca de prendas. Foi um dia festivo que muito nos agradou, pela importância de rever antigos companheiros, alguns vindos do estrangeiro, num CONVÍVIO de revisão de memórias inesquecíveis.

Curiosamente, tal maroteira consta no meu livro “Caminhando Indoooooo…”, espécie de diário que resume as principais peripécias do quotidiano da minha vida. Segue-se um “retalho” do livro onde consta o insólito episódio:  

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 7 - Rumo à escola, com devoção e vingança!

Voltei à escola com mais saber. Apesar de ter contrariado a vontade da professora Maria José, quando pretendeu que todos entrassem na Mocidade Portuguesa, aprendi o suficiente para fazer a 2ª e 3ª classe num ano, a 4ª classe e admissão aos liceus no ano seguinte. Havia turmas mistas, com rapazes e raparigas e, quando a professora ia conversar com a colega da outra sala, deixava-me como responsável pela turma. Ora, era ocasião para me vingar dos alunos com quem tinha contas a ajustar, por causa dos jogos do pião ou das mossas causadas pelas pedras nos “combates” de fim de tarde. Usando o meu saber, punha problemas mais complicados no quadro para todos fazerem; os rapazes, que pedissem para os ensinar, levavam com a cana-da-índia no lombo, mas ajudava as miúdas mais amigas.

Já no último ano escolar, senti os efeitos da inveja de alguns rufiões. Passava todo o ano sem uma reprimenda, o que era motivo de contentamento para o meu pai, mas também para a minha tia Maria e meu avô Manuel. Nas férias do Natal, como de costume, recebíamos panfletos para fazermos peditório para os tuberculosos. Logo no segundo dia à tarde, fui para as Termas de S. Vicente pedir nas lojas, farmácia, pensão Escondidinho e no hotel. Apressei-me a angariar algum dinheiro, com o fito de dar umas corridas com os patins que o meu pai me tinha oferecido quando passei de ano escolar. Calcei os patins e comecei a demonstração, correndo na estrada alcatroada, desde a farmácia até às “meninas do Germaninho” e volta. Como não conseguia subir a rampa até aos correios, levava os patins às costas… quando apareceram dois matulões numa bicicleta, convidando-me para seguir de patins atrás deles. Ainda estava a perguntar como podia ser, já um deles amarrava o cordel no meu braço direito e prendia na traseira da bicicleta. Desceram por ali abaixo, comigo atrás… no fim da recta da bomba de gasolina do Matias, viraram para trás. Lá me fui equilibrando, mas comecei a ficar atrapalhado com tanta velocidade… viraram para o parque dos balneários do hotel! Os patins não andam em piso de paralelos… catrapus, dois trambolhões e tinha a pele do calcanhar direito esgaçada. Os malandros fugiram, mas tive quem me levasse para a farmácia, onde me curaram cuidadosamente.

Passei o Natal acamado, pensando na desforra. Ora, descobri que os tratantes tinham 2 irmãos na escola. Às vezes, pediam para os deixar experimentar os patins… foram no engodo. No final das aulas, para fim-de-semana, um dos ditos calçou os patins e começou a andar, cai e não cai. Expliquei-lhe que se equilibrava melhor inclinando o corpo para a frente e com impulsos à medida que lançava o pé para a frente. Começou a correr… a correr… eu a ver o fundo do recreio sem vedação. À segunda avançada, com mais velocidade, chegou ao fundo, sem saber travar… catrapus, estatelou-se na estrada, duma altura de mais de três metros! Os amigos que assistiam à desastrosa demonstração, levaram-no para a farmácia. Há dias assim… para não rirem de mim!

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A miudagem frequentava a igreja e a catequese. Fiz a comunhão juntamente com a minha irmã Conceição; tivemos direito a roupas lindas. No decorrer da missa de Festa, o padre Adriano fez o sermão e falou que precisava de gente nova para ajudar nas missas; dava lições de latim para ter dois ou três ajudantes na missa – eu comecei a ajudar nas missas e recebia gorjetas quando eram pelos defuntos… que maravilha.

Gostava dos sons do órgão da igreja e dediquei-me a aprender a tocar; dava-lhe um jeito e passei a ser um dos preferidos no acompanhamento dos coros… mas também gostava de tocar os sinos – aquilo era uma festa, a puxar as cordas e vê-los a dar voltas sem controlo! Havia o perigo de levar uma pancada na cabeça e ficar mal… como era pequenote, a rotação do sino passava mais alto! 

A vida ia correndo com normalidade, com o ano escolar quase a acabar, até ao dia em que resolvemos fazer o “casamento” a um casalinho que arrulhava como dois pombinhos, que apanhamos aos beijinhos! Era o Loureiro e a Olinda…

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Juntaram-se meia dúzia de rufiões, alguns repetentes, para fazerem uma cabana na bouça das austrálias, localizada do outro lado da estrada, que ficou pronta em dois dias! No final das aulas, o António Vales, mais o António Barbosa e o Joaquim Bastos agarraram o casalinho e prenderam-nos na cabana, ficando os três matulões a guardar, enquanto eu e o António Moreira fomos até à igreja ver o ambiente.

Quando começou a escurecer, apareceram os pais dos “pombinhos” à procura dos "desaparecidos"... o padre Adriano mandou tocar os sinos a rebate e logo se juntou gente no adro da igreja… gerou-se grande confusão; apareceu uma patrulha da guarda republicana com um jeep… escapamos desta confusão e fomos ver como estava a “cabana”, enquanto a população procurava os desaparecidos e os presumíveis envolvidos na marosca; encontramos os “guardas da cabana” a fugirem bouça baixo e vimos o “casalinho” meio aturdido entre as austrálias… vendo-se livres… correram para a igreja. E tudo acabou na caça aos malfeitores que fugiram com medo dos guardas...

No dia seguinte, juntaram-se as professoras na minha sala de aula, onde o casalinho descobriu a “careca” aos “maus da fita”. As professoras obrigaram todos a acompanhá-las até à igreja… onde o padre Adriano atestou umas bofetadas nos cinco ousados meliantes, seguindo-se a reprimenda num sermão que nos envergonhou!

 Ora, oito anos mais tarde, em 1959, o António Loureiro e a Olinda casaram e foram felizes, sem nunca esquecerem a tramoia que lhes engendramos. Quando nos cruzavamos, nas festas e romarias, olhavam-nos com um sorriso amistoso... mas nunca falamos do caso da cabana.

 

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   O meu quotidiano misturava-se com horas de estudo, recados às mercearias e horas de brincadeiras atrevidas. Também ajudava nas mondas dos milheirais e na sacha. Como em casa do meu avô Manuel só havia refeição melhorada aos sábados e domingos, o tio António incumbia-me de ir até ao campo da Quebradinha, onde andavam as galinhas na apanha dos bichos da terra! Ora, o que ia fazer? Nada mais do que agarrar duas ou três pedras e atirá-las à cabeça das galinhas… se não acertava à primeira, não falhava na segunda! Cuidadosa como era, a tia Maria gestora da quinta, ao fim do dia pedia ajuda para escorraçar as galinhas até ao galinheiro e contar os bicos… “ai que faltam galinhas”… voltava ao campo e lá encontrava as faltosas, mas mortas. “Coitadinhas, o que terá acontecido?” Levava-as para casa e no dia seguinte tínhamos arrozada de galinha especial.

In Livro: “Caminhando Indoooo…” – Edições Sentinela-MAC

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Comparação - Escolas do nosso Tempo:

Do FACEBOOK

Favoritos  - 03-02-2023

Salazar...

Serei um GAJO NORMAL????

Antigamente na escola havia os... ‘burros’... ‘gordos’... ‘caixa de óculos’... ‘sem sal’... ‘pretos’... ‘chineses’... ‘indianos’... ‘artolas’... ‘maricas’... etc.

Os ‘burros’ chumbavam!

Não se tornavam doutores como hoje em dia.

Mas a fasquia era definida pelo “marrão” da turma!

Não era nivelada por baixo, como agora.

Somos todos iguais... diz-se!!!

Antes não parecia que fossemos!

Mas o ‘gordo’ também tinha notas brutais e ninguém sabia como!

Talvez porque não jogasse à bola!

O ‘caixa de óculos’ tinha um sentido de humor inigualável, mas não fazia corridas, pois tinha medo de cair!

O ‘preto’ jogava à bola como ninguém e fazia umas fintas inimagináveis!

Tinha um físico fora do comum!

O ‘chinês’ tinha vindo de outra escola, sabia à brava inglês, e tinha histórias que não lembravam a ninguém.

Cada um tinha um «defeito», até uma alcunha!

Mas tinha ou lutava por ter também outras qualidades.

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Hoje não.

Dizem que somos todos iguais.

Agora, tudo ou é bullying... ou racismo... ou xenofobia... ou opressão... ou assédio... ou violência!

Antigamente, quando se era mesmo racista, levava-se um "chapadão" na tromba e aprendia-se logo que o ‘preto’ era como nós outros!

Apenas tinha cor diferente.

E não era bullying!... Era ‘aprendizagem on job’.

Aprender assim era duro; pois, dói e não se esquece mais.

E às vezes, em casa, com os pais também se ‘aprendia’.

O menino ou menina ‘sem sal’ passava despercebido(a) e sentia-se sozinho(a).

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Ter uma alcunha diferente era fixe.

A diferença era vista com bons olhos.

E aprendia-se uma coisa importante:

- Rirmos de nós próprios.

E não "chorarmos" porque alguém nos chamou isto ou aquilo.

Assumia-se a gordura... o ‘esquelético’... a ‘caixa de óculos’... e tudo o mais que viesse.

Mas quando não se estava bem, quando não se gostava da alcunha, fazia-se uma coisa importante:

- mudava-se, lutava-se por acabar com ela.

Não se culpava os outros nem a sociedade.

Não se faziam ‘queixinhas’ !

E falhava-se... Muitas vezes!

Mas cada vez que se falhava ficava-se mais forte.

E sabíamos que era assim. Que havia uns que conseguiam, outros ficavam para trás, que havia quem vencia e quem falhava.

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Agora não.

Todos somos iguais, há mesmo a chamada igualdade de género!

Todos somos bons... todos merecemos... todos temos as mesmas oportunidades... todos devemos até ganhar o mesmo... todos somos vítimas... todos somos oprimidos... e todos somos parvos..…. porque aceitamos este ambiente do ‘politicamente correto’ sem dizer nada… e até devemos dizer que somos ‘normais’.

Segundo o novo paradigma social, devem ter muito cuidado comigo, porque:

- Sou velho ou quase... tenho mais de 50 anos... e quando chegar à reforma, se chegar a tê-la, o que vai fazer de mim um tolo... improdutivo... que gasta estupidamente os recursos do Estado, e:

- Nasci branco, o que me torna racista;

- Não voto na esquerda radical, o que me torna fascista;

- Sou hétero, o que me torna um homofóbico;

- Possuo casa própria, o que me torna um proprietário rico (ou talvez mesmo um latifundiário);

- Gosto de cordeiro de leite... o que me torna um abusador de animais;

- Sou cristão e, embora não praticante, sou um infiel aos olhos de milhões de muçulmanos;

- Não concordo com tudo o que o Governo faz, o que me torna um reacionário;

- Gosto de ver mulheres bonitas bem vestidas (ou despidas), ou super decotadas, o que me torna um tipo capaz de assediar;

- Valorizo a minha identidade portuguesa e a minha cultura europeia e ocidental, o que me torna um xenófobo;

- Gostaria de viver em segurança e ver os infractores na prisão, o que me torna um desrespeitador dos direitos "fundamentais" protegidos;

- Conduzo um carro a diesel, o que me torna um poluidor, contribuindo para o aumento de CO2;

Apesar destes defeitos todos, acho que ainda sou feliz… era mais antes da pandemia… mas, mesmo assim... considero-me um ‘gajo normal’!!

 Desconhece-se o autor, postado por:

José Casimiro Carvalho

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Jogavamos à bola, ao pião, à corda, tanto na escola como na estrada, e faziamos corridas de "motas" de rodas em madeira e rolamentos; quando havia batoteiros, dava porrada e corridas à pedrada - alguns iam com a cabeça a sangrar... no fim eramos todos amigos!

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Também eramos matreiros na malandrice...

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