terça-feira, 18 de julho de 2023

O Tempo em Movimento

Olhando o Tempo

     Incrédulo e descrente com as obscuras obstruções à nossa liberdade de circulação, à laia de “confinamento”, decretadas pelos poderosos senhores do mundo, vislumbro desastrosos resultados na saúde mental das populações e graves tormentos na vida quotidiana. Enquanto as televisões lançam notícias alarmantes a importunar a nossa paz familiar, proibindo os convívios com os amigos, passei pela salutar atmosfera do Monte da Virgem e sentei-me à sombra do monumento da Nossa Senhora Imaculada Conceição, para meditar serenamente sobre o que está a acontecer na minha comunidade e no mundo. Como passamos pelo tempo sem nos apercebermos do que nos resta, vale a pena fazer um intervalo e pensar.

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    Com outros companheiros de jornada solidária, andamos em grande correria no socorro aos aflitos que não encontram os necessários medicamentos na sua zona de residência, enquanto outros já esgotaram as reservas monetárias para a alimentação e gritam por quem lhes leve uma simples refeição diária. Isto acontece desde Maio de 2020, e as instituições públicas continuam no marasmo habitual!  

O tempo passa e desgasta; mas não esqueço que é o meu “dia de aniversário” e conforta-me saber que muitos dos Amigos e Familiares que, no ano passado, fizeram parte dos mais de 160 convivas presentes na “Festa dos 80 anos”, afrontaram o confinamento e organizaram um “Almoço-Convívio”, com acompanhamento musical, em homenagem ao meu contributo para o Estatuto dos Antigos Combatentes. Pois, é caso para dizer que não conseguimos salvar o mundo… mas não desistimos.

   Como já não tenho tempo para confortar todos os que sofrem de injustiças nem de doenças fatais, continuarei a usar o tempo para encontrar e confortar todos aqueles que fizeram parte da minha vida e ainda me acompanham. Durante os seis anos de "Voluntariado" no apoio a doentes oncológicos do IPO e Hospital de São João, no Porto,   encontrei as mais complicadas situações psicológicas em pessoas fortes e resilientes na luta pela vida; mas também encontrei pessoas de tal modo fragilizadas e perdidas sem esperança! Sempre tive um rasgo de energia capaz de confortar e animar na convicção de que a esperança é sempre a ultima a morrer.

   Cheguei ao cume do meu tempo sem sentir o cansaço da longa jornada; mas tenho a certeza que não terei tempo de realizar todos os projectos que me animam na caminhada da vida.

   Foram tantas as realizações com dedicação e empenho na perfeição do possível de mim, mas nem sempre o proveito me foi favorável. Talvez tivesse andado demasiado ocupado numa aprendizagem permanente, sempre com sentido prático nas actividades profissionais e nas colectividades que ajudei a desenvolver na comunidade, com satisfação e proveito para os meus contemporâneos.

   Nunca tive pressa de alcançar os objectivos, porque o conhecimento era o princípio da certeza na plena realização de trabalhos grandiosos. Sempre assumi as responsabilidades e dei o meu contributo com naturalidade e fiz acontecer as premissas que levaram à satisfação dos sonhos dos meus semelhantes. Nunca senti o peso dos sonhos nas decisões que me conduziram à sua concretização, porque as obras eram de monta e havia dezenas de famílias à espera de entrarem para a sua nova casa, na cooperativa a que presidi com dedicação.

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   Não tenho razão para sentir saudades do que quer que seja e muito menos nostalgia, porque sempre vivi com plena consciência dos parâmetros que balizam as nossas vidas. Vivi intensamente cada momento da minha vida, porque sempre abracei várias missões, em simultâneo, sem me deixar perder no rumo das realizações convenientes para as pessoas com quem partilhei grandes alegrias e algumas incertezas.

   Como não sou imortal… olho o horizonte com a lucidez de quem sabe que a morte é um fim necessário para nos fazer temer chegar à terra fria sem decoro e sem mácula, sabendo que todos sofremos de alguma imperfeição.

   Tenho plena noção da falta de afectos que desanimam qualquer mortal que se preze, embora não me possa queixar; mas, de tempos a tempos, sinto vontade de reunir todos os meus Familiares, os meus Amigos de todos os tempos, os meus colaboradores, os meus mestres, os meus chefes para, numa salutar saudação à VIDA, cantarmos o hino da alegria e festejarmos o reencontro das nossas recordações.

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   Tudo quanto realizei, foi em prol duma sociedade verdadeiramente humanizada, onde todos vivam plenamente felizes. Dei os meus contributos com sentido de solidariedade, mas nem sempre alcancei as metas que me propus atingir. Como os demais seres humanos, também sou falível e perdulário. Perdoar-me-ão a idolatria da perfeição, mesmo que me possam apontar falhas de lucidez; sempre soube apetrechar-me das necessárias ferramentas para levar por diante as minhas realizações com reconhecido sucesso. Sendo activista por natureza, sempre fugi à bajulação, mesmo sabendo que os invejosos e os gananciosos me poderiam atrofiar. Daí nada a apontar, porque sempre saí dos apertos com a mestria de um vencedor providencial.

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   Aos meus Amigos mais próximos; aos meus queridos Filhos e demais Familiares deixo um fervoroso recado: com a arma da lucidez e com a firmeza do caracter, tomai cuidado com os invejosos, perigosos como os lacraus; apetrechai-vos de sabedoria, para evitardes os sedentos de bajulação; sede firmes e consistentes na defesa das vossas convicções adornadas de bom senso, para que o futuro vos sorria.

   Sem temores e sem remorsos, continuarei a caminhada, enquanto vislumbrar a luz que me encanta no horizonte longínquo, porque o futuro é já ali.

V.N. de Gaia, 21 de Julho de 2020 

                  Joaquim Coelho

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APOLOGIA DOS AMIGOS

Apologia da Coragem

   Porque as vivências do Joaquim Coelho, nas guerras ultramarinas, foram muito mais alucinantes e atractivas do que a normalidade dos combatentes empenhados numa guerra de imprevisíveis finalidades, por imperativo de consciência, mesmo correndo o risco de ser mal compreendido pelos meus camaradas de armas, entendi ser primordial importância proclamar a neces- sidade de aflorar questões inequivocamente incomuns mas complementares à ideia da publicação de extractos da vida de muitos camaradas e companheiros de missões militares nas guerras africanas.

Atendendo ao meu passado de graduado na Mocidade Portuguesa, onde aprendi a amar e defender os valores patrióticos, jamais a minha consciência permitiria apoiar acções ou testemunhar, sob palavra de honra, em quaisquer situações que pudessem causar danos à instituição militar da minha opção profissional. No entanto, porque sempre acompanhei e vivi de perto as atrib- uladas vivências do sargento Coelho, em grande parte, causadas por questões anómalas contra a sua salutar rebeldia e afrontamento dos poderes obscuros, tenho que reconhecer a abnegação, a coragem, o saber, a lisura de comporta- mentos e a solidariedade para com todos os seus camaradas de armas que a hierarquia tentava ofuscar e rebater.

Prestei o meu testemunho abonatório perante os censores que o quiser- am silenciar, cortando os textos que enviou ao jornal “Notícias da Beira”, por causa do manifesto ponto de vista sobre as populações “recolhidas” dos acam- pamentos que assaltamos em zonas de guerra. A verticalidade e coragem deste homem sereno manifestou-se publicamente no decorrer do “inquérito” disci- plinar que reclamou ao senhor Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, como forma de demonstrar a sua inocência e destruir a “tese maquiavélica” urdida na “participação” do tenente Castro Gonçalves, que atirava para o sargento Coelho as culpas do fracasso de uma operação de assalto a acampamento in- imigo na zona do rio Mulunga, estrada do Chai. Com aprumo e surpreendente sentido de humildade, soube ultrapassar a tentativa de “humilhação” prognos- ticada pelo comandante de batalhão, tenente-coronel Argentino Seixas, que o proibia do uso de armas militares, enquanto decorresse o inquérito disciplinar. Por ironia, afrontou tal determinação fazendo uso de uma pequena pistola civil, que exibia airosamente num minúsculo coldre à cowboy! Retirado  dos combatentes operacionais, cumpriu com extraordinária dedicação o dever de vague-mestre, durante sete meses, proporcionando aos seus camaradas, em operações, alimentação e apoio logístico com qualidade e atempadamente.

Só um homem com a calma e inteligência do Joaquim Coelho poderia desembaraçar-se de situações complexas em que se envolveu: A forma eficaz como interveio na deserção de militares da Força Aérea da Zâmbia, onde me envolveu, juntamente com o Vicente e o Figueira, na segurança do aeropor- to de Lourenço Marques, para aterragem e recolha do avião Dakota com de- zoito pessoas zambianas; a maneira como se safou das sanções da PIDE, por lhe terem apreendido o passaporte, quando requereu a deslocação à Zâmbia (acabou por fazer a viagem clandestinamente); o seu discreto relacionamento e aparente colaboração com o Engenheiro Jorge Jardim, para que tivéssemos melhores condições de alojamento dentro da Base Aérea 10, na Beira, são ex- emplos que nos surpreenderam, porque denotam conhecimentos e tendência para acções aventurosas, mas humanistas, sigilosamente ponderadas.

Com uma força moral superior, suplantou as mais difíceis condições de vida nos momentos em que muitos de nós esmoreciam sob o peso das responsab- ilidades de termos mulher e filhos na metrópole, ou por vermos morrer os nossos camaradas feridos, por falta de condições de evacuação e assistência médica. Foi notável a sua resistência ao sofrimento, após a primeira embosca- da no Vale de Miteda; embora fisicamente combalido nas costelas e na perna esquerda, deu primazia à evacuação dos restantes feridos, seguindo apeado até Miteda, onde ficou, com mais quatro camaradas, em precárias condições de saúde; providenciou a evacuação de todos para Mueda, através dos seus amigos pilotos da Força Aérea. Por o ter feito à revelia dos chefes de operações, teve que responder a um inquérito disciplinar absolutamente incrível, em que foi relator o major Mensurado, seu “amigo” desde Angola, sobre o qual havia suspeitas de ser “agente” da Pide, dentro dos Pára-quedistas.

Enquanto estivemos deslocados no deserto de Nacala, o Joaquim Coelho organizou partidas de futebol e de ténis; marcava horas para discutirmos e analisarmos a situação da guerra e melhorar o ânimo perante a conjuntura; com o sargento Magalhães da Mota, formou turmas e ministraram aulas aos interessados; com seus trinados na viola, dava-nos o bailinho da Madeira; com fios eléctricos, engendrou uma grande antena triangular onde captava emis- soras portuguesas, com um simples rádio de bolso. Nas semanas que perman- ecemos em Nacala, entre duas intervenções operacionais no Norte, tais activ- idades serviram para minimizar o desconforto pela perda de quatro soldados (Madriana, Farelo, Sousa e Pinto) mortos nas operações entre Nangade e o Vale de Miteda, em condições que nos deixaram marcas para o resto da vida.

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   Não fora a sua natural perspicácia, sabedoria das normas militares e con- hecimentos de política internacional, de pouco lhe teriam valido as dezenas de voluntários que testemunharam a seu favor, quando alguns oficiais imprevi- dentes, com passado nebuloso e pouco recomendável, lhe moveram processos disciplinares injustos e o quiseram aniquilar nos confins da ilha do Ivo. A sua serenidade, os seus préstimos a todos os camaradas de armas, legitimados pela condição de disponibilidade para ajudar em quaisquer circunstâncias, no mato ou no quartel, aliadas à confiança na sua indomável força de comando, fizeram do meu amigo Joaquim Coelho um homem respeitado, exemplo de modéstia e humanismo, digno de elevado apreço entre os que com ele partilharam ex- traordinários momentos da vida.

- Amigo Joaquim Coelho: Por todo o teu empenho em dignificar as causas nobres da sociedade; por todos quantos usam a Boina Verde, até por aqueles militares do Exército destacados nos aquartelamentos isolados do mundo, a quem prestaste ajuda alimentar e moral; pelas tertúlias de séria reflexão sobre o futuro; por tudo quanto sacrificaste dos teus tempos de lazer, o meu bem-ha- ja e que o sucesso jamais te seja recusado. Apesar dos dias de inquietação que tramaram o teu percurso militar, pela temperança e ponderação que sempre demonstraste perante o perigo, o meu eterno reconhecimento. As elevadas capacidades intelectuais demonstradas nos cursos que concluíste, bem como o teu sucesso profissional, confirmam que nunca precisaste de estar refém das apreciações castradoras do “aprumo militar” feitas por oficiais que incomoda- vas com a tua natural verticalidade e determinação. Obrigado por continuares firme nas convicções e por partilhares connosco situações e vivências que mar- carão a história do nosso tempo. Os nossos filhos e netos merecem saber algo mais sobre as nossas vidas em terras ultramarinas.

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                     Tancos, 23 de Maio de 1991

                              Franklin Branco Armindo (Tenente-coronel Pq)

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