sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Prémio de Poesia e os Mestres

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O autor, Joaquim de Sousa Coelho

Natural das Termas de S. Vicente, Penafiel, cedo rumou à cidade do Porto, na condição de trabalhador-estudante no Colégio João de Deus.

Depois da formação em “Guia Turístico” no International Career Institute de Londres, mostrava a cidade do Porto aos turistas e frequentava os ensaios do Teatro Experimental do Porto, nas traseiras do Grande Hotel, no tempo em que era dirigido pelo grande António Pedro, entre 1955-60; aí conheceu os poetas Egito Gonçalves e Papiniano Carlos; colaborou com o poeta e professor Pedro Homem de Melo, na Escola do Infante D. Henrique e na apreciação dos Ranchos Folclóricos que apresentava na RTP do Monte da Virgem; a proximidade destes distintos poetas aprimoraram a sensibilidade do Joaquim Coelho para a poesia.

Tempos depois de regressar da tropa (1969), encontrou dois desses conhecidos poetas numa festa de homenagem ao Professor Óscar Lopes, realizada no Académico do Porto; teve a sorte de mostrar os escritos em tempo de Repórter de guerra e poemas dos “diários de guerra” em Angola e Moçambique, os quais mereceram uma boa crítica e logo se prestaram a colaborar na preparação de um livro com a finalidade de participar no concurso que a Editorial Inova estava a organizar. Decorria o ano de 1972. Escolhidos 178 poemas, formatou-se o livro que foi levado a concurso. Destacavam-se os poemas sobre o tempo da guerra do ultramar. Por decisão do Júri, ganhou o "Prémio de Poesia Inovação", com direito à publicação do livro. Dias antes da distribuição do livro, a Comissão de Censura interferiu e a PIDE apreendeu o molho dos poemas.

Mais tarde, o acervo de escritos dispersos (parte deles publicados em jornais e revistas) mereceu a atenção dos seus camaradas de armas, companheiros de trabalho e investigadores universitários e culturais, entre os quais o jovem médico e investigador de acção cívica, social e cultural João Semedo, que incentivaram e desafiaram o Joaquim Coelho a levar à estampa as narrativas com “estórias” dos tempos da guerra, das vidas comuns da sociedade e influentes nas vidas dos amigos e colaboradores profissionais. Com este novo impulso, nos anos 80 e 90, vindo dos camaradas Pára-quedistas, com insistência na publicação das reportagens de guerra, num tempo em que se procurava limpar as guerras coloniais da história de Portugal, a Clássica Editora publicou “O Despertar dos Combatentes” com grande sucesso, cá e além-fronteiras; pois, os críticos da Academia Francesa atribuíram-lhe o Prémio “Récit Homérique”, em 2006 – melhor narrativa.

A euforia livreira do autor, com tal distinção, foi brutalmente abafada pelos efeitos nefastos de dois tumores malignos, que conseguiu eliminar numa luta de três anos. E, os amigos investigadores universitários, encontrarm diversos artigos de relevante interesse social e cívico, publicados em jornais nos anos 80 e 90, contactaram o Joaquim Coelho e voltaram a mexer nos papéis para preparar novas publicações, com especial destaque nas interessantes narrativas de uma vida cheia de peripécias que causam inveja a muitos aventureiros de nomeada universal.

A condição de humildade e serenidade, na postura do autor Joaquim Coelho, causa espanto e respeito aos colaboradores das Edições Sentinela, os quais muito agradecem.

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A MINHA POESIA

Os meus versos podem compor histórias de coisas simples, das coisas que amo, da vida dolorosa dos combatentes, do mundo em que eu amo imenso - o meu. Pode ser um amontoado de palavras, mas é o eco da vida em tons graves, em alegre paródia ou em deleitosos enlevos que fazem parte de mim e que tento conservar como prolongamento dos meus dias.

Assim, na minha poesia voa o meu pensamento tocado pela sensibilidade que me emociona e impõe alguma arte de transmitir as imagens de esperança, para retocar as memórias.

O rosto é um poema em formação… e a voz um sussurro delicioso que tento descodificar, porque vem de dentro como um chamamento que se vê nos generosos olhos anilados!

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SINGELO TRIBUTO AOS MESTRES

Gente importante no desvendar do meu percurso na escrita e no melhor entendimento da sociedade humanista e solidária.  


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Papiniano Carlos


Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues foi um escritor português nascido em Moçambique e radicado no Porto desde a infância.

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 Caminhemos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,

já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.


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Cântico

Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.


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José EGITO de Oliveira GONÇALVES, poeta, tradutor, editor e ator.

Nasceu na freguesia de Matosinhos, foi preso pela PIDE na madrugada de 29 de Abril no ano letivo em que frequentava o 7.º ano de Letras no então Liceu Nacional D. Manoel II. De origem camponesa transmontana, pelo que teve um ambiente familiar com essa componente rural e com o marítimo urbano da vila em que nasceu junto da cidade do Porto.

Iniciou-se na crítica de cinema em Ponta Delgada, como crítico do ‘Cine-Jade’; o seu primeiro texto publicado, no ‘Correio dos Açores’ em 1943 (quando já tinha regressado a Matosinhos), foi o ‘Poema para os Companheiros da Ilha’.

Passou a residir no Porto desde 1948 até à sua morte, tendo vindo a casar nos anos 50 com Fernanda Gonçalves que foi atriz no Teatro Experimental do Porto (TEP).

Em termos profissionais, foi administrador duma Editora e chefe do Gabinete de Marketing duma Companhia de Seguros.

A sua intensa atividade de divulgação cultural e literária concretizou-se, a partir dos anos 50, na fundação e/ou direção de diversas revistas literárias que foram importantes para a divulgação da poesia portuguesa neorrealista e surrealista dos anos 50 e 60 do séc. XX:


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O Fósforo na Palha

Aos meus olhos

a cidade organiza

a sua tristeza.

Uma cintura aperta

a asfixia.

Um furo mais.


Um riso eleva-se

e sou eu que rio

sou eu que amo.


Auxílio a cidade

a suportar.

Um furo menos.

Não há pedras bastantes

para o nosso túmulo.


Sitiados

Esta cidade é a última cidade...

Os muros derruídos estão cercados:

Os canhões troam através dos mapas.


Nossa imagem, revelada pelas montras,

Passeia pelas ruas de mãos dadas...

Somos a última trincheira valiosa.


Unidos, trituramos os assaltos

E renovamos o cristal da esperança.


Os ruídos emolduram-te o sorriso,

Pura mensagem, prenhe de um futuro

Isolado de poeiras e de lágrimas.


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João Pedro Furtado da Cunha Semedo

(Lisboa, 20 de junho de 1951 - Lisboa, 17 de julho de 2018) foi um médico, investigador cultural e político português.


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João Semedo foi médico. Presidiu ao Conselho de Administração do Hospital Joaquim Urbano (SNS), especializado em doenças respiratórias e infeciosas. Autor de diversos projetos-lei na área da Saúde, entre os quais os que conduziram à aprovação das leis de prescrição de genéricos, do estatuto do dador de sangue, do acompanhamento nos serviços de urgência, da carta dos direitos dos utentes do SNS (tempos de espera), da dispensa gratuita de medicamentos após alta hospitalar e do testamento vital.


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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Fui até Angola e Voltei

 – DESABAFOS  INTEMPORAIS, em terras Tropicais!

  Ao regressar de Moçambique, em Abril de 1968, permaneci oito dias em Luanda, revendo antigos amigos jornalistas e militares da Força Aérea. Não tive tempo para visitar o novo quartel dos Pára-quedistas, em Belas, mas confraternizei com alguns camaradas de armas que também andaram por Moçambique, durante a “guerra do petróleo”.

O espectacular desenvolvimento de Angola presumia que os recursos financeiros disponíveis para aguentar o exigente esforço de guerra eram o combustível que alimentava a crescente população branca, sem que alguém perdesse tempo a pensar na descolonização. Das conversas que mantive, nunca vislumbrei nos planos daquela gente a hipotética viagem de regresso à metrópole. Mas, entre os militares operacionais, era notório o cansaço e o desgaste psicológico perante as indefinições do fim da guerra. Decorria o ano de 1968!

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Passei uns bons dias de lazer com pessoal da messe de sargentos da Força Aérea, onde o salutar relacionamento com os operacionais de voo me permitiram fazer a viagem de regresso a Lisboa, com passagem pela ilha de São Tomé. Aí, fui encontrar o Padre missionário Álvaro Teixeira, que pertencia à numerosa família Teixeira, que foram os meus “amparos” na cidade da Beira, durante parte do tempo que lá estive.

Antes de partir de Luanda, a “rapaziada” fez questão de pagar uma mariscada no Pólo Norte, onde veio à baila a minha comissão em Angola, desde 1961 a 1963; tive oportunidade de referir que nunca soube porque embarquei na comitiva do Ministro do Ultramar, Doutor Adriano Moreira, sem estar completamente pronto da instrução de combate nas Tropas Pára-quedistas. Passei vinte e três dias em Angola, umas vezes no grupo de segurança privada do ministro, onde conheci a Enfermeira Pára-quedista Ivone, e outras vezes em serviço de reportagem fotográfica para o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 31, comandado pelo Tenente-coronel Pára-quedista Alcínio Ribeiro.

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Corria o mês de Agosto de 1961, quando regressei ao Regimento de Caçadores Pára-quedistas para concluir a formação de combate e outros ensinamentos importantes de preparação para a guerra. Durante a instrução, encontrei o José Carvalho e senti uma grande proximidade por ele ser natural do Porto e ter feito parte do grupo de amigos do Porto, desde os meus quinze anos. O José era um dos organizadores de viagens de fim-de-semana, em autocarro de Tancos ao Porto e volta. Sempre atento aos reguilas das “boleias”, nenhum lhe escapava no pagamento da viagem.  

 Assim, passei a ter amigos nos Pára-quedistas. Dos amigos antigos, restavam três na cidade do Porto, do tempo em que trabalhava como “guia turístico”, acompanhando ingleses e franceses pela cidade e arredores, até às Caves de vinho do Porto, onde terminavam em franca prova de vinhos!

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Naquele tempo, frequentávamos os salões de jogos de bilhar em grandes competições. O José não gostava do cheiro do tabaco e refugiava-se nas escadas do Palladium, enquanto os matrecos entretinham o resto da malta de “morcons” que chamavam “parolos” aos que vinham das aldeias para a cidade, como eu! Às vezes, via-o sentado no Magestic como se fosse gente fina sem vintém… nunca vi que pagasse um café a alguém, porque era um “teso” como quase todos os outros; mas o “parolo” Joaquim tinha dinheiro para lhes pagar os bilhetes de cinema, pirolitos e chocolates ou rebuçados, quando a malta assistia aos filmes nos cinemas Águia Douro, Batalha, Coliseu, Parque das Camélias (filmes do Tarzan).

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Nas tardes em que apanhava o eléctrico para Campanhã, acompanhava o José na descida da Rua de Santo António até às escadas para a Estação de S. Bento, onde se sentava olhando quem passava na rua da Madeira, ao lado dos urinóis, e apreciava as pernas das cachopas que corriam escada abaixo para apanhar o comboio. Não tinha jeito para namorar, mas gostava de ver um bom corpo de mulher madura, e lançava umas bocas sem recato. O José não bebia copos, mas ia à Adega do Quim tomar um sumo de laranja e dar duas de conversa, especialmente quando lá estava a irmã mais nova do Quim, a Laurinda. Nem sempre a conversa corria bem, pois a moça ficava aferroada com o José.

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Tempos mais tarde, ficou zangado comigo quando pedi namoro à Laurinda, com o consentimento da mãe, numa conversa espontânea ao fundo da Rua de Santo António. Eu estava prestes a embarcar definitivamente para Angola e não tinha muito interesse no namoro com a Laurinda, mas a mãe dela insistiu para me dar a direcção e para ficar minha “madrinha de guerra”. Sabendo disto, o José não me perdoou a safadeza. Mais tarde… ficou com ela!

Sem tempo para despedidas, embarquei sem avisar ninguém. Para não haver choradeiras, nem sequer avisei os meus familiares. O meu pai sabia que eu era assim desprendido e não ligava, mas tive saudades da minha mãe, daquela cambada de irmãos (eramos dez) e dos amigos; escrevi uma mensagem para o Notícias de Penafiel, que o Padre Antídio publicou, a dar conta da minha ida para Angola.

Não tinha planos para a Laurinda, namorada, porque para a Laurinda, minha mãe, tinha ideias de lhe dar muitas alegrias, logo que regressasse da guerra em Angola. Mas a memória não é uma caixa fechada e os meses de sobressalto no meio da guerra foram desastrosos para as minhas boas intenções.

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Comecei a ser crítico contra a guerra e sentia algum azedume contra os colonos que passaram a hostilizar os militares em Luanda. Houve muitas “makas” nas boites que pouco frequentava, mas percebia as razões do desentendimento. A mais séria, com dois mortos e alguns feridos, foi na pastelaria Versailles, primeiro com os empregados e, depois, com a polícia de segurança pública. Deixou marcas profundas no relacionamento com a população de Luanda, especialmente entre os jornalistas e a PIDE. Não me incomodou, até porque continuei o meu ritmo de vida entre a cidade e as missões de intervenção em zonas problemáticas do norte de Angola. 

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Vivia pacatamente entre a cidade e as matas dos Dembos, quando despertei para a escrita opinativa sobre as razões da guerra. Frequentei um curso de jornalismo de investigação e comecei a fazer reportagem com todas as tropas. Tinha apoios dos jornalistas Ernesto Lara Filho, da revista “NOTICIA”, Mário Mota do “Província de Angola”. Lidava bem com os servidores da censura, mas não podia divulgar as informações que conseguia recolher dentro das repartições da administração provincial, onde descobri contratos de concessões de exploração de minérios a empresas estrangeiras que muito lesavam os interesses económicos de Portugal.

Eu tinha intuição e muita curiosidade; também tive ajudas. Quando fazia as escriturações do expediente na secretaria, o sargento Durão mostrou-me uma “exposição” escrita pelo sargento Ferraz, onde recusava ir para o mato! Coisa grave, no contexto da tropa… pois, pensava ter privilégios por ser filho de um general! Foi detido durante dez dias no quartel. Eu ia falar com ele, quase todos os dias, e levava algumas guloseimas. Ajudou-me no lançamento da escrita e das reportagens sobre a guerra e a publicação nos jornais. A sua mulher, de origem sul-africana, era tradutora no “Notícias de Luanda” e no “Comércio”. Ajudou-me a abrir portas nos meios jornalísticos, onde confidenciava com o jornalista da revista “Notícia” Lara Filho. Aí, desafiou-me a participar nos concursos de poesia: acabei por ganhar um prémio, que recebi das mãos da poetisa e médica Alda Lara, numa sessão de homenagem aos destacados jornalistas e repórteres de Angola, na Casa do Porto.

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Sabendo de situações melindrosas com Paraquedistas com mais estaleca em Angola, por precaução, eu evitava relacionamentos com as miúdas de Luanda; porque eram fingidas e mentirosas, tive vários problemas com elas… que me incomodavam na secção de justiça do Batalhão (onde o oficial de justiça, capitão paraquedista Campos Costa, me livro de consequências graves). Ora, nas minhas digressões por diversos extractos sociais de Luanda, tive três bonitas experiências com mulheres mais maduras: a algarvia, do quiosque da Portugália, que me dava guarida e partilhavaa algumas tardes em sedutoras conversas e copos de whisky, mesmo depois de termos a companhia do marido!!! pois era casada com um enfermeiro do Hospital Maria Pia… a Maria Ondina, regressada de Goa, após a invasão, pela União Indiana, de Dezembro de 1961... desapareceu passados dois meses... foi para Macau! A Graciete, que me dava explicações.

Em Março de 1961, quando fui integrado na equipa de jornalistas do Artur Agostinho da RTP, que me permitiu fazer reportagem com os Caçadores Especiais, até Quibaxe, conheci a Maria Ondina, numa reunião de intelectuais de Angola; determinada e corajosa, professora e tradutora, foi para Goa. Aquando da invasão Indiana, voltou a Luanda no contingente de refugiados goeses, em Dezembro de 1961; nos poucos encontros que tive com ela, conversamos e trocamos opiniões quanto ao futuro e notei grande ansiedade e insatisfação com a vida. Voltou a partir sem despedida nem recado…

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Conheci a professora Graciete um ano depois de integrar o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21, como combatente, em Setembro de 1961. Frequentei uma escola onde ela dava explicações, na Vila Clotilde; ambos gostávamos dos bailes e das tertúlias no Futebol Clube de Vila Clotilde.

 A Graciete, professora, ajudou-me a aperfeiçoar a escrita. Escrevíamos longas cartas, um ao outro, que entregávamos em mão. A seguir, íamos namorar, sem nunca falar de viva-voz sobre os escritos. Era um desafio curioso! O namoro era romântico, em jeito de descomprometido. Mas a escrita era forte e aberta à crítica construtiva. Das duas vezes que nos aborrecemos, fomos dar uma volta pela ilha, onde o ambiente proporcionava delícias amorosas; chamou-me para a casa dela, na Maianga, onde passamos longas e felizes horas acariciando com ternura, numa entrega sem reservas.

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Tive um grande desgosto, quando ia encontrar-me com a Graciete junto aos correios, para passearmos na avenida Paulo Dias de Novais… foi atropelada com gravidade e seguiu para o hospital. Melhorou, mas perdeu o brilho e a simpatia… sofria sem saber de quê! Com dificuldade, fomos jantar à ilha por duas vezes…

Fui em missão a Lucunga, patrulhar as margens do rio Mbridge e voltei, doze dias depois. Nada sabia da Graciete. Falei com a reitora do Liceu feminino, Drª. Hermínia Robert, que me deu a triste notícia do falecimento da Graciete. Foi uma pena, partir na flor da vida…      

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Entre dias agradáveis em Luanda e semanas de incertezas no mato, a vida corria sem sobressaltos até que a morte do cabo Pereira, seguida dos ferimentos graves no Caetano e no Fontes tiveram algum efeito psicológico no meu modo de ver a guerra. Ninguém ficou indiferente e percebi que a morte aparecia sem aviso. Os turras da UPA já tinham melhores canhangulos e armas com tiro de rajada. Tive que assumir que era um combatente por Portugal, mas com outro sentido de liberdade que me poderia causar alguns sarilhos. Já percebia porque afastaram o Professor Adriano Moreira de Ministro do Ultramar, falei disso ao sargento Renato Durão. Evidentemente, tive que me acautelar depois da prisão dos dezasseis pára-quedistas. Prenderam mais uns quantos envolvidos numa intentona de revolta militar e proibiram a publicação dos meus escritos na revista “Notícia” e nos jornais de Angola; o jornalista Ernesto Lara Filho bem me avisou…  

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Embora persentisse estar referenciado nos serviços de segurança, gostava de passar pelo CITA e conversar com as funcionárias, naturalmente. De vez em quando o Major-director admoestava-me com a censura! Nunca liguei muito ao assunto. Sabia que o major era da confiança do Ministro Adriano Moreira e conhecia as minhas actividades paralelas, incluindo a recolha de livros para a biblioteca do quartel, sugerida pelo capitão Veríssimo e protagonizada pelo “farçola” Ângelo Perry.

Fui algumas vezes à missa, à igreja do Carmo; em determinado Domingo, acompanhado pelo Cacela algarvio, arranjei lá uma namoradinha, que me envolveu numa contenda por causa dos bailes de nudismo no Bairro do Cruzeiro! Do deslumbramento sentido na sua aparente inocência veio a desilusão e o repúdio que mudou para pior o modo de conviver com as miúdas de Luanda. Não era por razões morais, mas pela desfaçatez com que enganavam os parceiros.

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Apesar de ser amigo privilegiado da reitora do Liceu Guiomar de Lencastre, Drª. Hermínia Robert, tive alguns problemas por causa dos tabefes que abonei a duas meninas intrometidas e mentirosas, que me chatearam com intrigas!  O capitão Campos Costa livrou-me dos processos e colaborou comigo até os arquivar. Com alguma prudência, lá me livrei das miúdas e entreguei ao capitão um caderno de apontamentos com anotações de vícios, identificação de nomes fictícios e métodos de engate de uma dezena de gajas jovens!

Eu ainda tinha alguma dignidade de conduta, mesmo que a moral de muita gente de Luanda andasse de pernas-para-o-ar. Havia demasiados escândalos e muita gente sabia dos bailes de nudismo e das dormidas em camas alheias. Nunca fiquei refém de nada, mas tomei algumas cautelas até embarcar no aeroporto rumo a Lisboa.

Desliguei-me do que era mundano, mas fiquei com saudades daqueles tempos de emoções fortes e desprendidas, entre as matas do norte de Angola e as alcovas de Luanda.

Quando regressei de Angola, em Março de 1963, o Zé Carvalho foi procurar-me na camarata, com pezinhos de lã, perguntou se eu tinha fotografias da Laurinda, pois… tinha casado com ela e já tinham um filho! Como nunca escrevi à moça, naturalmente não fiquei surpreendido e entreguei as fotos ao meu amigo, com o desejo de felicidades. Casualmente, encontrei a mãe da Laurinda junto da adega do Quim, tio da moça, que me segredou problemas naquele casamento da Laurinda!    

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Muito mais tarde, tive a sorte de saber da Maria Ondina Braga; escrevia livros e veio morar para Braga. Visitei-a uma vez, dava aulas e continuava a sonhar com o oriente, mas estava desgastada!

Uma Amiga comum confirmou que faleceu há uma semana, tal como vi num jornal.  Enfim, a vida não pode parar… até se extinguir! Sempre ficam as boas memórias para nos animar!

Aqui deixo estes desabafos com alguma nostalgia gratificante.

Ermesinde, 21 de Março de 2003

Joaquim Coelho

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sábado, 5 de fevereiro de 2022

Viver com Satisfação Partilhada

NEM SEMPRE SOMOS O QUE QUEREMOS

Quando nascemos, não temos nada! Nem sequer temos forças para procurar. Gritamos ao mundo contra o castigo de nascer nus, sem nada.

Nasci como os outros… e não tendo nada, procurei seguir a luz que existia em mim. Então percebi que estava no princípio da vida e tinha um caminho a percorrer. Não sentia a alma, mas sentia a energia regeneradora de acontecimentos difusos. À minha volta havia sinais de amor, pessoas que me mimavam sem rodeios; mas pertencia ao mundo que pretendia desafiar. Como não tinha nada, decidi-me criar o que faltava para viver com satisfação. Nos meus sonhos não via fantasias, via realidades… no fim do sono, tinha o mundo à minha espera e havia luz em todos os caminhos.

Enchi-me de coragem e consultei o génio que me aconselhou a colher sabedoria, a sonhar com a beleza da natureza, a respeitar os meus semelhantes, a contribuir para o bem comum, a acautelar-me das maldades dos invejosos, dos atropelos dos gananciosos e das rasteiras dos manhosos.  

Caminhei na vida com determinação, mesmo remando contra o vento, acreditando que há sempre um vento de feição. Sempre gostei do trabalho que fazia, dos estudos que abracei, das actividades que escolhi, dos amigos que encontrei, dos amores que me mimaram o percurso. Nunca me arrependi de nada, mesmo que nem tudo fosse do meu inteiro agrado. Nunca fui exigente com os bens materiais, mas sempre me preocupei em cumprir e fazer cumprir os preceitos e deveres adequados ao bom entendimento na comunicação e trabalho comunitário.

Desde pequeno que o meu avô materno me ensinou a ser arrumado, especialmente nas ideias, na vontade e nas pretensões. É como despir a alma e sentir o corpo bem aconchegado ao mundo. Antes de começarmos a arrumar a casa, devemos arrumar as ideias, ponderar e avançar ao encontro do futuro. Às vezes, precisamos parar, sentar na beira do caminho e olhar o horizonte até percebermos a nossa pequenez perante a natureza; entender a nossa insignificância perante o universo; perceber como lidar com a prepotência dos poderosos; procurar atenuar a nossa ignorância perante os grandes pensadores.

Para fazermos grandes feitos, devemos começar pelas coisas simples, pelas coisas pequenas. Chegar alimentos aos animais, regar as plantas, mesmo as mais insignificantes, é um começo do caminho que nos pode levar muito longe e atingir o cume do monte que os nossos pais imaginaram quando nascemos. O sucesso está ao alcance de cada ser humano, desde que saibamos entender a natureza abstracta, sabendo lidar bem com a natureza humana e escolher áreas de intervenção profissional para as quais sentimos estar preparados e com conhecimentos para avançar com determinação e convicção.

Podemos ir mais alem do que imaginamos; podemos ter muito do que queremos, sem ser demasiado ambiciosos. Podemos formar família e educar os filhos para o sucesso, sem facilitismos, sem sofismas e sem arrogâncias. Um terço da personalidade dos nossos descendentes é genética, nada a fazer; nos outros dois terços, podemos burilar o modo de lidar com a sociedade, sem descorar os ensinamentos e a aquisição do saber, muito importante para o sucesso profissional e social.

O resto, as contingências da vida encarregar-se-ão de nos formatar com mais ou menos defeitos próprios da nossa condição de pessoas com liberdade condicionada pelos preconceitos, pelas religiões, pelas ideologias, pelos sofismas dos maldosos que sempre pretenderam ditar as suas regras mais absurdas e desumanas e tolher a liberdade.

Saibamos manter a lucidez e o bom senso e a caminhada será muito mais prazenteira.

Maia, Outubro de 1987

Joaquim Coelho

Tributo aos Amigos e Familiares - VER:


https://www.youtube.com/watch?v=c5U_aESWvUU

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Clik na Imagem para VER:


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