NEM SEMPRE SOMOS O QUE QUEREMOS
Quando nascemos, não temos nada! Nem sequer temos forças para procurar. Gritamos ao mundo contra o castigo de nascer nus, sem nada.
Nasci como os outros… e não tendo nada, procurei seguir a luz que existia em mim. Então percebi que estava no princípio da vida e tinha um caminho a percorrer. Não sentia a alma, mas sentia a energia regeneradora de acontecimentos difusos. À minha volta havia sinais de amor, pessoas que me mimavam sem rodeios; mas pertencia ao mundo que pretendia desafiar. Como não tinha nada, decidi-me criar o que faltava para viver com satisfação. Nos meus sonhos não via fantasias, via realidades… no fim do sono, tinha o mundo à minha espera e havia luz em todos os caminhos.
Enchi-me de coragem e consultei o génio que me aconselhou a colher sabedoria, a sonhar com a beleza da natureza, a respeitar os meus semelhantes, a contribuir para o bem comum, a acautelar-me das maldades dos invejosos, dos atropelos dos gananciosos e das rasteiras dos manhosos.
Caminhei na vida com determinação, mesmo remando contra o vento, acreditando que há sempre um vento de feição. Sempre gostei do trabalho que fazia, dos estudos que abracei, das actividades que escolhi, dos amigos que encontrei, dos amores que me mimaram o percurso. Nunca me arrependi de nada, mesmo que nem tudo fosse do meu inteiro agrado. Nunca fui exigente com os bens materiais, mas sempre me preocupei em cumprir e fazer cumprir os preceitos e deveres adequados ao bom entendimento na comunicação e trabalho comunitário.
Desde pequeno que o meu avô materno me ensinou a ser arrumado, especialmente nas ideias, na vontade e nas pretensões. É como despir a alma e sentir o corpo bem aconchegado ao mundo. Antes de começarmos a arrumar a casa, devemos arrumar as ideias, ponderar e avançar ao encontro do futuro. Às vezes, precisamos parar, sentar na beira do caminho e olhar o horizonte até percebermos a nossa pequenez perante a natureza; entender a nossa insignificância perante o universo; perceber como lidar com a prepotência dos poderosos; procurar atenuar a nossa ignorância perante os grandes pensadores.
Para fazermos grandes feitos, devemos começar pelas coisas simples, pelas coisas pequenas. Chegar alimentos aos animais, regar as plantas, mesmo as mais insignificantes, é um começo do caminho que nos pode levar muito longe e atingir o cume do monte que os nossos pais imaginaram quando nascemos. O sucesso está ao alcance de cada ser humano, desde que saibamos entender a natureza abstracta, sabendo lidar bem com a natureza humana e escolher áreas de intervenção profissional para as quais sentimos estar preparados e com conhecimentos para avançar com determinação e convicção.
Podemos ir mais alem do que imaginamos; podemos ter muito do que queremos, sem ser demasiado ambiciosos. Podemos formar família e educar os filhos para o sucesso, sem facilitismos, sem sofismas e sem arrogâncias. Um terço da personalidade dos nossos descendentes é genética, nada a fazer; nos outros dois terços, podemos burilar o modo de lidar com a sociedade, sem descorar os ensinamentos e a aquisição do saber, muito importante para o sucesso profissional e social.
O resto, as contingências da vida encarregar-se-ão de nos formatar com mais ou menos defeitos próprios da nossa condição de pessoas com liberdade condicionada pelos preconceitos, pelas religiões, pelas ideologias, pelos sofismas dos maldosos que sempre pretenderam ditar as suas regras mais absurdas e desumanas e tolher a liberdade.
Saibamos manter a lucidez e o bom senso e a caminhada será muito mais prazenteira.
Maia, Outubro de 1987
Joaquim CoelhoTributo aos Amigos e Familiares - VER:
https://www.youtube.com/watch?v=c5U_aESWvUU





















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