– DESABAFOS INTEMPORAIS, em terras Tropicais!
Ao regressar de Moçambique, em Abril de 1968, permaneci oito dias em Luanda, revendo antigos amigos jornalistas e militares da Força Aérea. Não tive tempo para visitar o novo quartel dos Pára-quedistas, em Belas, mas confraternizei com alguns camaradas de armas que também andaram por Moçambique, durante a “guerra do petróleo”.
O espectacular desenvolvimento de Angola presumia que os recursos financeiros disponíveis para aguentar o exigente esforço de guerra eram o combustível que alimentava a crescente população branca, sem que alguém perdesse tempo a pensar na descolonização. Das conversas que mantive, nunca vislumbrei nos planos daquela gente a hipotética viagem de regresso à metrópole. Mas, entre os militares operacionais, era notório o cansaço e o desgaste psicológico perante as indefinições do fim da guerra. Decorria o ano de 1968!

Passei uns bons dias de lazer com pessoal da messe de sargentos da Força Aérea, onde o salutar relacionamento com os operacionais de voo me permitiram fazer a viagem de regresso a Lisboa, com passagem pela ilha de São Tomé. Aí, fui encontrar o Padre missionário Álvaro Teixeira, que pertencia à numerosa família Teixeira, que foram os meus “amparos” na cidade da Beira, durante parte do tempo que lá estive.
Antes de partir de Luanda, a “rapaziada” fez questão de pagar uma mariscada no Pólo Norte, onde veio à baila a minha comissão em Angola, desde 1961 a 1963; tive oportunidade de referir que nunca soube porque embarquei na comitiva do Ministro do Ultramar, Doutor Adriano Moreira, sem estar completamente pronto da instrução de combate nas Tropas Pára-quedistas. Passei vinte e três dias em Angola, umas vezes no grupo de segurança privada do ministro, onde conheci a Enfermeira Pára-quedista Ivone, e outras vezes em serviço de reportagem fotográfica para o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 31, comandado pelo Tenente-coronel Pára-quedista Alcínio Ribeiro.

Corria o mês de Agosto de 1961, quando regressei ao Regimento de Caçadores Pára-quedistas para concluir a formação de combate e outros ensinamentos importantes de preparação para a guerra. Durante a instrução, encontrei o José Carvalho e senti uma grande proximidade por ele ser natural do Porto e ter feito parte do grupo de amigos do Porto, desde os meus quinze anos. O José era um dos organizadores de viagens de fim-de-semana, em autocarro de Tancos ao Porto e volta. Sempre atento aos reguilas das “boleias”, nenhum lhe escapava no pagamento da viagem.
Assim, passei a ter amigos nos Pára-quedistas. Dos amigos antigos, restavam três na cidade do Porto, do tempo em que trabalhava como “guia turístico”, acompanhando ingleses e franceses pela cidade e arredores, até às Caves de vinho do Porto, onde terminavam em franca prova de vinhos!

Naquele tempo, frequentávamos os salões de jogos de bilhar em grandes competições. O José não gostava do cheiro do tabaco e refugiava-se nas escadas do Palladium, enquanto os matrecos entretinham o resto da malta de “morcons” que chamavam “parolos” aos que vinham das aldeias para a cidade, como eu! Às vezes, via-o sentado no Magestic como se fosse gente fina sem vintém… nunca vi que pagasse um café a alguém, porque era um “teso” como quase todos os outros; mas o “parolo” Joaquim tinha dinheiro para lhes pagar os bilhetes de cinema, pirolitos e chocolates ou rebuçados, quando a malta assistia aos filmes nos cinemas Águia Douro, Batalha, Coliseu, Parque das Camélias (filmes do Tarzan).

Nas tardes em que apanhava o eléctrico para Campanhã, acompanhava o José na descida da Rua de Santo António até às escadas para a Estação de S. Bento, onde se sentava olhando quem passava na rua da Madeira, ao lado dos urinóis, e apreciava as pernas das cachopas que corriam escada abaixo para apanhar o comboio. Não tinha jeito para namorar, mas gostava de ver um bom corpo de mulher madura, e lançava umas bocas sem recato. O José não bebia copos, mas ia à Adega do Quim tomar um sumo de laranja e dar duas de conversa, especialmente quando lá estava a irmã mais nova do Quim, a Laurinda. Nem sempre a conversa corria bem, pois a moça ficava aferroada com o José.

Tempos mais tarde, ficou zangado comigo quando pedi namoro à Laurinda, com o consentimento da mãe, numa conversa espontânea ao fundo da Rua de Santo António. Eu estava prestes a embarcar definitivamente para Angola e não tinha muito interesse no namoro com a Laurinda, mas a mãe dela insistiu para me dar a direcção e para ficar minha “madrinha de guerra”. Sabendo disto, o José não me perdoou a safadeza. Mais tarde… ficou com ela!
Sem tempo para despedidas, embarquei sem avisar ninguém. Para não haver choradeiras, nem sequer avisei os meus familiares. O meu pai sabia que eu era assim desprendido e não ligava, mas tive saudades da minha mãe, daquela cambada de irmãos (eramos dez) e dos amigos; escrevi uma mensagem para o Notícias de Penafiel, que o Padre Antídio publicou, a dar conta da minha ida para Angola.
Não tinha planos para a Laurinda, namorada, porque para a Laurinda, minha mãe, tinha ideias de lhe dar muitas alegrias, logo que regressasse da guerra em Angola. Mas a memória não é uma caixa fechada e os meses de sobressalto no meio da guerra foram desastrosos para as minhas boas intenções.

Comecei a ser crítico contra a guerra e sentia algum azedume contra os colonos que passaram a hostilizar os militares em Luanda. Houve muitas “makas” nas boites que pouco frequentava, mas percebia as razões do desentendimento. A mais séria, com dois mortos e alguns feridos, foi na pastelaria Versailles, primeiro com os empregados e, depois, com a polícia de segurança pública. Deixou marcas profundas no relacionamento com a população de Luanda, especialmente entre os jornalistas e a PIDE. Não me incomodou, até porque continuei o meu ritmo de vida entre a cidade e as missões de intervenção em zonas problemáticas do norte de Angola.

Vivia pacatamente entre a cidade e as matas dos Dembos, quando despertei para a escrita opinativa sobre as razões da guerra. Frequentei um curso de jornalismo de investigação e comecei a fazer reportagem com todas as tropas. Tinha apoios dos jornalistas Ernesto Lara Filho, da revista “NOTICIA”, Mário Mota do “Província de Angola”. Lidava bem com os servidores da censura, mas não podia divulgar as informações que conseguia recolher dentro das repartições da administração provincial, onde descobri contratos de concessões de exploração de minérios a empresas estrangeiras que muito lesavam os interesses económicos de Portugal.
Eu tinha intuição e muita curiosidade; também tive ajudas. Quando fazia as escriturações do expediente na secretaria, o sargento Durão mostrou-me uma “exposição” escrita pelo sargento Ferraz, onde recusava ir para o mato! Coisa grave, no contexto da tropa… pois, pensava ter privilégios por ser filho de um general! Foi detido durante dez dias no quartel. Eu ia falar com ele, quase todos os dias, e levava algumas guloseimas. Ajudou-me no lançamento da escrita e das reportagens sobre a guerra e a publicação nos jornais. A sua mulher, de origem sul-africana, era tradutora no “Notícias de Luanda” e no “Comércio”. Ajudou-me a abrir portas nos meios jornalísticos, onde confidenciava com o jornalista da revista “Notícia” Lara Filho. Aí, desafiou-me a participar nos concursos de poesia: acabei por ganhar um prémio, que recebi das mãos da poetisa e médica Alda Lara, numa sessão de homenagem aos destacados jornalistas e repórteres de Angola, na Casa do Porto.

Sabendo de situações melindrosas com Paraquedistas com mais estaleca em Angola, por precaução, eu evitava relacionamentos com as miúdas de Luanda; porque eram fingidas e mentirosas, tive vários problemas com elas… que me incomodavam na secção de justiça do Batalhão (onde o oficial de justiça, capitão paraquedista Campos Costa, me livro de consequências graves). Ora, nas minhas digressões por diversos extractos sociais de Luanda, tive três bonitas experiências com mulheres mais maduras: a algarvia, do quiosque da Portugália, que me dava guarida e partilhavaa algumas tardes em sedutoras conversas e copos de whisky, mesmo depois de termos a companhia do marido!!! pois era casada com um enfermeiro do Hospital Maria Pia… a Maria Ondina, regressada de Goa, após a invasão, pela União Indiana, de Dezembro de 1961... desapareceu passados dois meses... foi para Macau! A Graciete, que me dava explicações.
Em Março de 1961, quando fui integrado na equipa de jornalistas do Artur Agostinho da RTP, que me permitiu fazer reportagem com os Caçadores Especiais, até Quibaxe, conheci a Maria Ondina, numa reunião de intelectuais de Angola; determinada e corajosa, professora e tradutora, foi para Goa. Aquando da invasão Indiana, voltou a Luanda no contingente de refugiados goeses, em Dezembro de 1961; nos poucos encontros que tive com ela, conversamos e trocamos opiniões quanto ao futuro e notei grande ansiedade e insatisfação com a vida. Voltou a partir sem despedida nem recado…

Conheci a professora Graciete um ano depois de integrar o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21, como combatente, em Setembro de 1961. Frequentei uma escola onde ela dava explicações, na Vila Clotilde; ambos gostávamos dos bailes e das tertúlias no Futebol Clube de Vila Clotilde.
A Graciete, professora, ajudou-me a aperfeiçoar a escrita. Escrevíamos longas cartas, um ao outro, que entregávamos em mão. A seguir, íamos namorar, sem nunca falar de viva-voz sobre os escritos. Era um desafio curioso! O namoro era romântico, em jeito de descomprometido. Mas a escrita era forte e aberta à crítica construtiva. Das duas vezes que nos aborrecemos, fomos dar uma volta pela ilha, onde o ambiente proporcionava delícias amorosas; chamou-me para a casa dela, na Maianga, onde passamos longas e felizes horas acariciando com ternura, numa entrega sem reservas.

Tive um grande desgosto, quando ia encontrar-me com a Graciete junto aos correios, para passearmos na avenida Paulo Dias de Novais… foi atropelada com gravidade e seguiu para o hospital. Melhorou, mas perdeu o brilho e a simpatia… sofria sem saber de quê! Com dificuldade, fomos jantar à ilha por duas vezes…
Fui em missão a Lucunga, patrulhar as margens do rio Mbridge e voltei, doze dias depois. Nada sabia da Graciete. Falei com a reitora do Liceu feminino, Drª. Hermínia Robert, que me deu a triste notícia do falecimento da Graciete. Foi uma pena, partir na flor da vida…

Entre dias agradáveis em Luanda e semanas de incertezas no mato, a vida corria sem sobressaltos até que a morte do cabo Pereira, seguida dos ferimentos graves no Caetano e no Fontes tiveram algum efeito psicológico no meu modo de ver a guerra. Ninguém ficou indiferente e percebi que a morte aparecia sem aviso. Os turras da UPA já tinham melhores canhangulos e armas com tiro de rajada. Tive que assumir que era um combatente por Portugal, mas com outro sentido de liberdade que me poderia causar alguns sarilhos. Já percebia porque afastaram o Professor Adriano Moreira de Ministro do Ultramar, falei disso ao sargento Renato Durão. Evidentemente, tive que me acautelar depois da prisão dos dezasseis pára-quedistas. Prenderam mais uns quantos envolvidos numa intentona de revolta militar e proibiram a publicação dos meus escritos na revista “Notícia” e nos jornais de Angola; o jornalista Ernesto Lara Filho bem me avisou…

Embora persentisse estar referenciado nos serviços de segurança, gostava de passar pelo CITA e conversar com as funcionárias, naturalmente. De vez em quando o Major-director admoestava-me com a censura! Nunca liguei muito ao assunto. Sabia que o major era da confiança do Ministro Adriano Moreira e conhecia as minhas actividades paralelas, incluindo a recolha de livros para a biblioteca do quartel, sugerida pelo capitão Veríssimo e protagonizada pelo “farçola” Ângelo Perry.
Fui algumas vezes à missa, à igreja do Carmo; em determinado Domingo, acompanhado pelo Cacela algarvio, arranjei lá uma namoradinha, que me envolveu numa contenda por causa dos bailes de nudismo no Bairro do Cruzeiro! Do deslumbramento sentido na sua aparente inocência veio a desilusão e o repúdio que mudou para pior o modo de conviver com as miúdas de Luanda. Não era por razões morais, mas pela desfaçatez com que enganavam os parceiros.

Apesar de ser amigo privilegiado da reitora do Liceu Guiomar de Lencastre, Drª. Hermínia Robert, tive alguns problemas por causa dos tabefes que abonei a duas meninas intrometidas e mentirosas, que me chatearam com intrigas! O capitão Campos Costa livrou-me dos processos e colaborou comigo até os arquivar. Com alguma prudência, lá me livrei das miúdas e entreguei ao capitão um caderno de apontamentos com anotações de vícios, identificação de nomes fictícios e métodos de engate de uma dezena de gajas jovens!
Eu ainda tinha alguma dignidade de conduta, mesmo que a moral de muita gente de Luanda andasse de pernas-para-o-ar. Havia demasiados escândalos e muita gente sabia dos bailes de nudismo e das dormidas em camas alheias. Nunca fiquei refém de nada, mas tomei algumas cautelas até embarcar no aeroporto rumo a Lisboa.
Desliguei-me do que era mundano, mas fiquei com saudades daqueles tempos de emoções fortes e desprendidas, entre as matas do norte de Angola e as alcovas de Luanda.
Quando regressei de Angola, em Março de 1963, o Zé Carvalho foi procurar-me na camarata, com pezinhos de lã, perguntou se eu tinha fotografias da Laurinda, pois… tinha casado com ela e já tinham um filho! Como nunca escrevi à moça, naturalmente não fiquei surpreendido e entreguei as fotos ao meu amigo, com o desejo de felicidades. Casualmente, encontrei a mãe da Laurinda junto da adega do Quim, tio da moça, que me segredou problemas naquele casamento da Laurinda!

Muito mais tarde, tive a sorte de saber da Maria Ondina Braga; escrevia livros e veio morar para Braga. Visitei-a uma vez, dava aulas e continuava a sonhar com o oriente, mas estava desgastada!
Uma Amiga comum confirmou que faleceu há uma semana, tal como vi num jornal. Enfim, a vida não pode parar… até se extinguir! Sempre ficam as boas memórias para nos animar!
Aqui deixo estes desabafos com alguma nostalgia gratificante.
Ermesinde, 21 de Março de 2003
Joaquim Coelho







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