Neste Natal, Recordo o meu Querido Pai com Saudade
Porque o meu Pai faria 105 anos no dia de Natal, recordo alguns episódios marcantes da nossa vida em comum.
Nasci em terras de Termas de S. Vicente, precisamente quando as tropas alemãs se preparavam para invadir a Polónia, o que aconteceu em 1 de Setembro de 1939, dando início à Segunda guerra Mundial.
Em muitas fases da minha vida, perante situações mais complicadas, recordo sempre a força e determinação do meu Pai. Era um homem modesto, dedicado ao trabalho, muito apegado à vida, resiliente, criativo, artista no canto e na representação teatral, habilidoso na reparação de relógios e armas (que veio a especializar-se na Relojoaria Andrade Melo, no Porto).
Como mais velho de uma prole de dez filhos, estive sempre próximo do meu pai durante os primeiros aos de vida. Recordo as dificuldades que ia ultrapassando com empenho e mestria para tirar da terra o sustento para as necessidades da família que crescia de ano para ano, residindo numa casa de granito com bastante espaço, quinteiro, quintal com fruteiras e cortes do gado.

Os tempos de guerra agravaram a miséria que se vivia, pelo que o meu Pai fez planos para conseguir alimentar a família, procurando trabalhar na Carris do Porto ou nos Serviços Municipalizados, mas precisou do apoio do tio e padrinho - Joaquim Pereira Cavadas, então regedor na freguesia de S. Vicente do Pinheiro, o que não conseguiu. Tendo comprado três terrenos de lavoura, tomou de arrendamento mais cinco do senhor Pinto Lopes (proprietário de quase metade da freguesia de Valpedre), de maneira a rentabilizar esses terrenos agrícolas de forma vantajosa. Para tal, comprou uma junta de bois, algumas ovelhas, a que juntou mais uma vaca e dois porcos.


Para ter mais garantias de realizar dinheiro, vendia o leite da vaca à fábrica de Lacticínios que ficava a cem metros da nossa casa, na condição de receber semanalmente uns tantos pacotes de manteiga para a família barrar a broa e regueifa aos fins de semana, recebendo o resto em dinheiro; realizava mais dinheiro com a venda de um dos porcos mais gordinho e venda das ovelhas que iam sendo criadas, além do lucro pela troca da junta de bois anualmente, o que permitia viver razoavelmente bem, além de ajudar a minorar a fome de alguns vizinhos que não tinham terras de cultivo. Com o aumento de trabalho, contratou dois moços com idade entre os desoito e vinte anos.

Assim geria o tempo na labuta da preparação das terras para a sementeira, convocava os amigos para ajuda nas colheitas dos cereais, do vinho, da apanha da azeitona, das "malhadas" do milho e do linho; ainda tinha tempo para reparar relógios e armas dos amigos, além de se divertir nas festas e romarias, dançando com a minha mãe e cantando ao desafio; de tempos a tempos participava na época de apresentação de peças teatrais no Salão Paroquial de Valpedre, perante os senhores da terra, o Padre e professores, sempre em papeis de destaque; ficou célebre pela interpretação da canção “Rancho Grande”, em voga nos filmes de Pedro Infante.
Homem resistente e forte, nutria especial carinho pela família, correndo riscos de ser preso quando se deslocava, de noite, ao encontro dos contrabandistas na tentativa de comprar açúcar, arroz e outros bens alimentícios que o sistema de racionamento por “senhas” não satisfazia as necessidades da família. Estávamos em tempo de guerra e as restrições eram muitas! Mas o meu Pai sempre conseguia manter a prole bem alimentada e com algumas guloseimas pelas festas de ano, como o Natal, Ano Novo, Páscoa e festas da freguesia.

Perante uma tremenda baixa de rendimentos devido ao incêndio que matou a junta de bois e destruiu parte da casa, sem possibilidades financeiras para comprar outra junta de bois para trabalhar a terra, não esmoreceu. Obteve o apoio do grande proprietário das Quintas de Santa Maria, Pinto Lopes. Este comprou nova junta de bois, na condição de dividirem o lucro da venda anual (como era habitual nas feiras de gado). Sentindo os rendimentos depauperados com tal situação, incumbiu a minha mãe de assumir a gestão dos trabalhos agrícolas e foi empregar-se nas minas de carvão de São Pedro da Cova, onde trabalhou dois anos. Vinha a casa nos fins de semana. Fazia a viagem de regresso às minas, juntamente com outros conterrâneos, pelo percurso de Valpedre, atravessando os montes por Ordins, Sobreira e São Pedro da Cova. Tinha o cuidado de comprar e levar para casa uns quilos de broa de boa qualidade e mais barata nas minas.
Sempre fui curioso e mexilhão, embora levasse as reprimendas da ordem, mas tinha o perdão pelos estragos que fazia, especialmente quando mexia nas peças dos relógios que estavam em reparação. Desde os quatro anos que acompanhava o meu pai nas visitas que fazia aos amigos ou para ver relógios e armas para reparação.
Apesar da sua ocupação diária, a partir dos meus cinco anos, o meu Pai ensinou-me a escrever e a fazer contas. Tentou entusiasmar-me para a sua arte dos relógios e armas, mas era coisa que não me interessava. Muitos anos mais tarde, lamentava-se por não ter nenhum dos filhos a prosseguir naquela arte das máquinas do tempo!

Recordo a paciência do meu Pai no apaziguamento de conflitos nas romarias, que se impunha acompanhado por um vistoso pau de marmeleiro. O senhor Américo era admirado e respeitado em todo o conselho de Penafiel e entre os relojoeiros do Porto, onde tinha bons amigos. Até porque, com um amigo da arte de relojoaria da Calçada, Oldrões, com pequenas maquinetas construídas por eles, faziam minúsculas peças para reparar os relógios.
Nas suas participações políticas, azedou-se com o Regedor de Valpedre por não o ter avisado das pretensões da Guarda Republicana em “roubar” os cereais dos agricultores: apareceram lá em casa com vários Jeeps, iam às caixas de cereais, enchiam os sacos e levavam, deixando a minha mãe a chorar; no segundo ano que isso aconteceu, vi a minha Mãe ajoelhada à frente do Regedor rogando que deixassem o suficiente para fazermos o pão que precisávamos, porque tínhamos passado fome durante o ano. O Regedor, que era seu tio, apenas lhe pôs uma mão sobre a cabeça e disse: minha filha, são ordens de Lisboa, não posso fazer nada! Perante aquela cena, agarrei-me à perna de um guarda que ia descer as escadas com um saco às costas e levei um biqueiro que me enraiveceu tanto que nem chorei.

Ora, confraternizando com amigos do reviralho, acabou por aderir ao “movimento” da campanha presidencial do Humberto Delgado. Em diversos encontros com gente do Porto, participou na campanha orientada pelos Advogados Montalvão Machado e Eduardo Santos Silva. As reuniões realizavam-se no Café da Brasileira e no escritório da Rua de Santo António. Como o meu pai era amigo do Dr. Urgel Horta (União Nacional), chegou a ser admoestado para não se meter em sarilhos que o podiam prejudicar.
No dia das eleições, fui com o meu Pai para a porta da escola de S. Vicente distribuir boletins de voto do Humberto Delgado. Ora, logo fomos incomodados pelo Regedor Joaquim Pereira Cavadas (nosso padrinho e tio do meu Pai). Não houve consequências, mas pioraram as nossas relações familiares. O meu Pai ficou órfão de mãe por esta ter morrido após o parto, e o seu pai foi para o Brasil com a filha mais velha, deixando o filho sob tutela e educação do tio e padrinho Cavadas, onde esteve até ao casamento com a minha Mãe. Por estas e por outras, embora sendo o herdeiro directo, por se ter afastado, nada recebeu da quinta, após a morte do tio e padrinho.

Recordo a determinação do meu pai, quando foi à escola primária pagar os vidros das janelas que parti à pedrada, depois de ter levado meia dúzia de “bolos” de palmatória, injustamente, porque um aluno havia mijado na entrada da Escola; parece que ainda o estou a ver a pegar numa corda e zupar-me nas costas, por ter levado os vizinhos para o quintal para comerem frutas (tinham partido vários ramos das fruteiras); parece que o estou a ver tentando entrar na cozinha do Dr. Campos, onde eu estava sob o cuidado das empregadas que me tinham acabado de curar o pé furado com um tiro acidental de caçadeira; parece que o estou a ver subindo as escadas de casa, depois de ouvir os gritos da minha irmã Conceição, por lhe ter dado um murro na cabeça e terem ficado dois ou três pregos lá espetados; a pancada que levei deixou-me dorido e acamado, até que recebi a visita da minha tia Maria que me levou para a quinta da Vila e deu novo alento no estudo e melhorou o rumo da minha vida.

Enfim, parece que estou a ver o meu Pai muito feliz, ao ouvir os comentários dos Amigos próximos, depois do meu sucesso no exame de admissão aos liceus: “senhor Américo, o rapaz pode ir longe, meta-o num colégio do Porto”; e assim foi. Gerente da Garagem dos Transporte Grijo, sendo amigo e vizinho do director do Grande Hotel do Porto, senhor Álvaro Machado, cuja filha era professora no Colégio João de Deus, conseguiu um contrato de internamento como trabalhador-estudante naquele Colégio, onde estudava, tocava o órgão na capela e trabalhava três horas diárias a fazer sandes para o lanche dos alunos.

O meu Pai sempre foi especialmente cuidadoso nas iguarias para as festas anuais (Natal, Ano Novo e Páscoa), onde não faltava o bom bacalhau, vinho do Porto e doçaria.
Finalmente, o meu Pai teve um fim lamentável e misterioso, tendo “aparecido” morto num café onde era habitual encontrar-se com clientes em negócios de relógios e armas de colecção. A autópsia foi inconcludente, o que nos deixou dúvidas sobre a causa da morte; porque o Procurador da República que liderou o processo era um dos colecionadores de relógios e tinha outros amigos com os mesmos interesses, os quais açambarcaram mais de oitocentos valiosos relógios de colecção durante os “trinta dias obrigatórios de publicação nos jornais”, avisando presumíveis clientes que tivessem entregue relógios para reparação. Ora, dois meses depois, viemos a perceber que nos tinham "roubado", sem dó nem respeito pelo triste acontecimento mortal, ao verificarmos, nas agendas guardadas no local da relojoaria, que apenas uns vinte e poucos relógios e armas pertenciam a clientes devidamente identificados nesses livros! Furiosos com a "fraude", fomos três irmãos tirar conclusões com o Procurador da República em Penafiel, dando-lhe um "amistoso abraço".
Bem, o nosso Pai sempre teve uma vida diversificada e modesta, sem grandes ambições materiais; viajava com frequência e ainda o acompanhei em algumas excursões pelo país. Saudoso Pai, descansa na paz do deuses, mas estás na nossa memória.

Em todas as grandes encruzilhadas da minha vida, tive sempre o meu saudoso Pai no horizonte, porque foi corajoso, audaz, persistente e vencedor - apesar de ser benevolente e prestativo perante a sociedade que o atraiçoou.


Tempos de viajar com a Família e Amigos



















































