ATRIBULAÇÕES CONCERTADAS
Ninguém nasce destinado ao sofrimento e à privação da liberdade. Todos nascemos para sermos felizes!
Se perdemos o entusiasmo pela vida, corremos o perigo de entrar numa onda de desânimo e seguir os caminhos da escuridão. É o entusiasmo que nos faz seguir em busca do objectivo digno que nos preencha a vida por inteiro, sempre com esperança de melhores dias. Os valores humanos são a base para uma felicidade plena.
Investi a vida numa jornada de protecção da Natureza humana, aliviando as mentes obscurecidas e desenvolvendo acções de proximidade com fins propícios ao cultivo da camaradagem e da grata amizade. Sempre na senda da sociedade fraterna e inclusiva, fomentei a cultura com fundamento na capacitação dos valores solidários e partilha do saber generalizado, tanto de afrirmação pessoal como profissionalismo produtivo, dentro do conceito da felicidade plena. Mas nunca deixei de cultivar o saber e adquirir conhecimentos úteis e reconfortantes para uma vida feliz. Talvez seja um sintoma de irreverência, mas faz parte de mim.

Passei por difíceis bifurcações na vida, em parte compensadas com uma melhoria substancial! Eis alguns episódios:
1º - Quando tinha cinco anos, o meu pai entregou-me uma arma de caça para levar a um “ferreiro” para desencravar um chumbo de zagalote; sem saber como, mexi no gatinho que disparou e a bala furou-me o pé esquerdo; fui socorrido pelas empregadas do Dr. Campos, nosso vizinho, que fizeram os curativos, como era habitual!… depois de curado e alimentado com um bife, apareceu o meu pai, com ar de zangado, mas elas protegeram-me e não o deixaram entrar na casa; quando foram para a cama, duas delas despiram-se e brincaram à minha frente… eu não entendia, mas gostava de ver.

2º - Depois de fazer sete anos, num despique com minha irmã Conceição, a apanhar pregos do chão, ela empurrou-me e caí de costas… levantei-me muito zangado e dei-lhe um murro na cabeça… tinha pregos na mão fechada, dois ou três ficaram espetados; começou a gritar… veio a mãe e foi curar-lhe a ferida, que sangrava; apareceu o meu pai, vendo que a tinha agredido, deu-me um bofetão que me atirou ao chão, pontapeou-me e feriu-me… chorava com dores e meteram-me na cama, em recuperação. A notícia chegou à minha madrinha, que vivia na quinta da Vila – Termas de S. Vicente, com mais um tio e os avós maternos… levou-me para lá. Gente mais culta e organizada, com melhor forma de vida. O avô ensinava e dava lições de vida aos netos… voltei à escola com muito sucesso, fazendo quatro anos de escolaridade em, apenas, dois! Cresci lesto e saudável para melhor enfrentar a vida.

3º - Andava no Colégio João de Deus e fazia coisas lindas: tocava o órgão da capela, aprendi a fazer galenas (rudimentar rádio-receptor auto-alimentado) que vendia aos alunos e ganhava bom dinheiro! Os directores descobriram, deram-me castigo com registo na caderneta! Depois, um vigilante deu uma bofetada num aluno, sem razão; tiramos desforra agredindo o gajo… fomos apanhados e expulsos.
O director do Grande Hotel do Porto, pai de uma das minhas professoras, vizinho e amigo do meu pai, sabendo da situação, deu-me emprego no hotel, como ascensorista… passei a ganhar dinheiro, continuei a estudar e deram-me formação de “guia-Turístico” em Londres. Tive sucesso e conheci novos mundos e outras formas de vida.

4º - Devido ao começo da guerra em Angola, fui desviado da especialidade de Controlo de Tráfego Aéreo para a polícia aérea da Força Aérea… preparava-me para desertar… já na Base Aérea 3 de Tancos, encontrei um camarada do Colégio João de Deus, oficial pára-quedista… disse-me que desertar era não ver mais a família… aconselhou-me e fui para pára-quedista… um mundo de aprendizagem fascinante e escola de vida… mais tarde, avancei para a guerra, mas bem preparado.

5º - Em Moçambique, afrontei a hierarquia, com razão… estive detido na ilha do Ivo devido a uma participação maliciosa de um oficial! Reclamei ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea um Inquérito, que foi realizado… mais de 150 camaradas de armas ofereceram-se para testemunharem a meu favor… espanto geral! Os oficiais, cagados de medo do previsível “conselho de guerra”, concordaram em arquivar o inquérito… o comandante Seixas mandou-me de férias para a Europa.

6º - Num treino de paraquedismo desportivo, fracturei a perna esquerda e tornozelo com fractura exposta… dois meses internado no Hospital de S. João, onde uma gangrena complicou a recuperação; a equipa médica deu conhecimento a minha irmã Margarida que teriam de amputar o pé… sem que eu soubesse! Percebendo a gravidade, consegui mobilizar o Enfermeiro de serviço no fim-de-semana (meu conhecido por prestar serviço no posto de socorros da Siderurgia Nacional); tive a sorte de ele aceitar fornecer produtos e ajudar na administração de um preparado estudado por mim, à base de bacteriostáticos e anti-sépticos, de modo a limpar a parte do pé gangrenado; após duas horas no posto de curativos, o pé parecia estar livre da podridão. Na observação médica da 3ª feira seguinte, optaram por continuar os curativos. Com determinação e sorte, consegui ficar com os dois pés! Estou muito grato às minhas irmãs: Margarida e Conceição, pelo seu empenho no apoio e ajuda durante o internamento e recuperação, bem como aos Amigos incondicionais... e Alunos, a quem ministrei Cursos de paraquedismo desportivo, que me confortram com suas visitas. 
7º - Nos dezoito anos de trabalho na Siderurgia Nacional, tive diversas divergências com o director Doutor Mexedo, em parte, por combater uma forte rede de corrupção que delapidava os dinheiros da empresa. Farto daquilo, queria sair com indemnização… convocado para uma reunião com o Director, levei uma granada no bolso e coloquei-a em cima da secretária… o homem fugiu a gritar… alegando que o queria matar; seis meses depois, recebi a melhor indemnização daquele tempo. Passei a independente… liberdade de acção e bons ganhos monetários… até ser ludibriado pelas máfias na Alemanha, quando ajudava o meu irmão Fernando na reorganização dos seus trabalhadores lá destacados.

8º - Decorria o ano de 2006... Fui à consulta médica saber se as análises davam o cancro como curado. Os médicos informaram-me que tinha outro! “o senhor está muito mal, talvez já não se aguente para além de três meses…”. Protestei que tinha trabalho para mais de vinte anos… tinha que viver!
Aproveitando os conhecimentos de bioquímica, fui à procura de médicos amigos… crente na possibilidade de fazer a quimioterapia que os médicos não aconselhavam!
Vagueei por aí… e quando descia a Avenida Visconde de Barreiros, na Maia, um automóvel parou de repente, ali ao meu lado… “olha o amigo do Saraiva! Ainda agora estive com ele… disse-me que você é um às na fotografia, entre aqui”… efectivamente, eu tinha um amigo “Saraiva” na Siderurgia Nacional… e entrei; mostrou-me uma maleta com máquina fotográfica… “cento e cinquenta euros e é para si”. Respondi que só tinha cem euros… entregou-me a máquina e dois relógios de oferta! Estava com pressa, saí do carro… abri a maleta, porra! Fui enganado.
Meio incrédulo com o acontecido, virei para circular por cima do Venepor, a ver montras… nem queria acreditar, na montra duma farmácia vi um AVISO: “fazem-se análises a tal e tal… concentração de células cancerígenas, plaquetas e hemoglobina.” Pensei: tenho o problema do controlo da quimioterapia particular resolvido, disse para comigo! Com os médicos Amigos e um Enfermeiro do Posto de Saúde de Ermesinde, avançamos com as sessões (à minha maneira) e, dois meses depois estava livre de células cancerígenas!

Confirmei que, muitas das nossas quedas, são seguidas de um novo impulso, mais vigoroso e triunfante.
Mas, ao observar a sociedade, senti um grande infortúnio e desapontamento - encalhei nos rochedos do pensamento, ao indagar porque há tanta gente que enriquece sem trabalhar e muitos outros a espalhar tenebrosas maldades!

A vida na sociedade mecanizada é como navegar em mar revolto: é preciso inteligência e determinação para sobreviver; sabedoria para ganhar; garra para o sucesso; e, quem não lutar arduamente, arrisca-se a ficar na berma do caminho, na iminência de cair na sarjeta e sentir amarga derrota.
Portanto, temos que manter viva a esperança… e continuar a CAMINHAR; há sempre uma hora mais favorável e com vento de maré, para um novo impulso!

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