A Páscoa na Minha aldeia
Neste tempo de Páscoa, recordo muitos dos momentos passados na sacristia para ver quem ia fazer parte da comitiva de levar o compasso a casa dos paroquianos. Os miúdos como eu gostavam de levar a campainha que anunciava a proximidade do “compasso”. O padre seguia logo atrás do acólico da cruz orlada de lindas flores, junto do padre ia o miúdo da caldeirinha da água benta; mais atrás seguiam os dois acólicos para receber as prendas e o dinheirinho dentro dos envelopes que eram entregues pelo patriarca das casas que recebiam a visita pascal. Havia sempre casas sem o tapete de flores nas entradas, sinal de não quererem abrir a porta (sujeitando-se a comentários pouco abonatórios da vizinhança) e outros que estavam fora da terra.
Para a miudagem da aldeia, as festas da Páscoa eram muito importantes, tanto pelas fatiotas novinhas a estrear como pelas guloseimas que os pais compravam para todos degustarem. Tal como as festas da Páscoa, havia ajuntamentos das famílias pelo Natal e nos dias das Festas de Santo António (em Junho) e do padroeiro S. Vicente (em Janeiro).

Terminados os estudos da escola primária com sucesso, aconselharam o meu pai a levar-me para o Porto (ele trabalhava nos Transportes Grijó) onde poderia ter mais condições para estudar. Tive a sorte do meu Pai ser amigo do vizinho Senhor Álvaro Machado, director do Grande Hotel do Porto e pai da menina Luiza, professora no Colégio João de Deus. Depois de alguns meses a fazer serviço de ascensorista no hotel, esta senhora professora conseguiu que eu entrasse no Colégio em condições especiais – trabalhar e estudar, diminuindo assim a mesada mensal que o meu pai teria de pagar (para a qual não tinha posses, por ser um estabelecimento de elites ricas).

Mas os Domingos de Páscoa eram o dia mais festivo na minha aldeia e por lá encontrava muitos dos amigos da minha juventude. O cabritinho assado no forno de coser o pão era um petisco que toda a gente comia com satisfação. O pão de ló e as amêndoas nunca faltavam naquela família; a minha tia Maria punha na mesa as maçãs amarelinhas que tinha guardadas e bem conservadas desde a última colheita do Outono.
Cedo parti para o Porto, com a finalidade de estudar no Colégio João de Deus, a troco de trabalhar 4 horas diárias de trabalho, fazendo sandes e lavando a loiça do lanche servido aos alunos. De quando em vez, servia o almoço aos alunos mas não gostava que eles gozassem comigo por ter de trabalhar para estudar naquele Colégio de filhos de gente rica do norte de Portugal, também filhos enjeitados pelos amantes endinheirados que não queriam dar o nome e perfilhar – coisa rara, mas ter filhos de amantes em segredos mal guardados podia envergonhar a família!
Quase todos os meses passava um Domingo com a família da aldeia, que crescia a olhos vistos – éramos dez irmãos bem nutridos e rebeldes. Nas festas e romarias marcava presença nas paródias com meus amigos de infância, especialmente dos tempos da escola de S. Vicente do Pinheiro.

Nunca me esquecia de visitar o meu avô Manuel na quinta da Vila, onde tinha boas memórias do tempo das “ajuntadas” pela matança do porco, pela Páscoa, pelas festas a Santo António, pelas vindimas, pela malha do milho e do centeio. Umas vezes, eram as festas da família, outras tinham os vizinhos que ajudavam nas lides das colheitas. Ora, o meu avô Manuel sempre foi a minha luz a alumiar o caminho com suas recomendações para a colheita de sabedoria e humildade para atender os mais desprotegidos neste mundo de competição cada vez mais agressiva e injusta.
Foi através da visão futurista do meu avô que comecei a ver o mundo num horizonte mais abrangente. Ao ouvir as suas leituras dos Almanaques, comecei a entender o valor das palavras e aprendi a valorizar quem as escreve. Nunca esqueci a varanda do canastro, onde o avô Manuel juntava os netos e dava lições de sabedoria para entendermos o mundo e melhor nos integrarmos numa comunhão de solidariedade e partilha; dali avistavamos os campos e hortas agrícolas até às Termas de S. Vicente. As comunidades locais eram um bom exemplo de que somos mais fortes quando aliamos as nossas capacidades e nos ajudamos uns aos outros, como o fazem os agricultores nos tempos das colheitas – juntam-se nas colheitas, uns dias na casa de uns, outros dias na casa de outros, até todos terem arrumado os produtos da terra nos seus celeiros e adegas.
Muito do que fui na vida e realizei com competência profissional e em prol da comunidade é fruto dos ensinamentos do meu avô Manuel, pai da minha mãe; sem esquecer as lições de escrita e a persistência diária do meu Pai Américo , que muito contribuíram para as boas notas nas redacções da escola primária.
Recordo com saudade o tempo em que acompanhava o meu avô pelos campos, sempre com o cão Pastor no nosso encalço. Gostava de ver a sua preocupação em guiar as águas nos lameiros, com a bengala mexendo as pedras que desviavam a água conforme as necessidades da rega no terreno. O meu avô morreu sem nunca ter estado doente! Bem, morreu por causa de uma constipação que passou a pneumonia e foi fatal. Tinha uma alimentação bem equilibrada, sem deixar de beber um copinho de aguardente ao pequeno-almoço – mesmo depois dos oitenta anos de idade, tinha uma lucidez impressionante e mantinha-se aprumado na sua alta estatura. Partilhei com ele alguns dos meus sucessos nos estudos e no meu trabalho de ascensorista no Grande Hotel do Porto; notava a sua alegria nos olhos castanhos bem vidrados.

Depois da sua morte, visitava os tios António e Maria, gestores herdeiros da quinta da Vila. A minha tia ficou solteira a tratar da minha avó Rosa – paralisada devido a um derrame cerebral, viveu mais de dez anos sentada numa cadeira adequada à sua situação de paralisia física. Mesmo incapacitada, nas festas anuais sentia a alegria dos filhos e netos à sua volta.

Ora, a minha tia, catequista e zeladora da igreja paroquial, sempre me incentivou a continuar a tocar o órgão musical da igreja; pertencia ao coro paroquial e ficava orgulhosa quando o Padre elogiava a minha arte nas variações musicais.
Também se preocupava com as minhas evoluções no trabalho e nos estudos, mas aconselhava nas evidentes tendências para namorar. Nunca me aconselhou nenhuma pretendente da terra, mas prevenia-me para os cuidados com as namoradas que pudesse encontrar. Sabendo das minhas capacidades para alegrar as pessoas que assistiam às récitas musicais difundidas pelos Órgãos das igrejas onde era habitual tocar, especialmente em dias de festa, perguntava porque ainda não tinha namorada lá na aldeia. Era assunto que mantinha em segredo, até porque nunca tive sorte com as moças a que me afeiçoava! A Alice, partiu para o Brasil, onde estava o pai; a Almerinda, por ser muito próxima das minhas irmãs mais velhas; a Rosa Maria, por causa das traquinices do seu irmão que me aferroava e competia para levar a campainha nas visitas pascais. Pois, todos os anos havia dois grupos de visita pascal, onde a competição dos jovens era evidente na caldeirinha da água benta e na campainha; o Neca era useiro e vezeiro em passar pelo padre Adriano e levar mesinhas para cativar a sua confiança e ser o escolhido.
Mas foi a minha tia Maria que me alumiou o futuro e falou das dificuldades de entendermos o íntimo das pessoas; porque todos temos virtudes e defeitos, nem sempre encontramos o que sonhamos e podemos sofrer desgostos e frustrações; dizia que a esperança e a fé devem ser os pilares da nossa força para caminhar, porque a vida é generosa e merece que a saibamos viver com recato e ousadia. Todos nascemos para aprender, estudar, trabalhar, amar e ser amado. Cada um à sua maneira, temos a pretensão de sermos felizes. Nesta senda da vida partilhada, o entendimento deve ser mútuo e em parceria verdadeira, franca e sem enredos.
Depois, foi a continuação dos dias de bruma, pelas ruas do Porto, nos bailes nas noites de folia; namoricos à porfia, encontros amorosos nos clubes como o Desportivo de Portugal, nos Fenianos ou no Mário Navega. As intimidades com as telefonistas do hotel; as arrelias com as ciumentas turistas francesas que levava a visitar a cidade e acabava em provas de vinho nas caves do vinho do Porto, do outro lado do rio Douro, em Vila Nova de Gaia.

Na quinta do meu avô não faltavam fruteiras cheias de cerejas, ameixas, maçãs, pêssegos, castanhas e nozes. Havia uma nogueira mesmo junto à casa da eira, que o meu avô gostava de varejar e comer as nozes molares (fáceis de abrir com a mão). Muitos anos mais tarde, estive debaixo dessa nogueira, que tinha crescido e dava sombra para a eira, onde se comia nos dias de festa, em mesas feitas de tábuas soltas.
Os galináceos, as ovelhas e os bois faziam parte da nossa prol de animais; nos dias soalheiros, eram levados para os pastos nos montes vizinhos ou nos campos da porta. Também havia coelhos que o avô oferecia aos netos como forma de os responsabilizarem na alimentação e criarem até estarem nutridos para os venderem e angariarem algum dinheiro.

São estas memórias que me alentam e confortam depois de muitos anos a deambular pelo mundo, muitos dias de incertezas no meio das guerras em Angola e Moçambique, nas missões de reportagem nas guerras do Vietnam, Líbano (duas vezes), Caxemira, Kosovo, Bósnia, onde o futuro era uma escuridão e a vida uma lotaria. Muitas canseiras no aperfeiçoamento profissional, na criação dos filhos, nas coleticvidades que dirigi, nos empreendimentos desportivos e cooperativos que participei, nos convívios que organizei e nos eventos solidários que abracei.
Muitos anos de preocupação e luta pela causa dos Antigos Combatentes traumatizados pelas sequelas da guerra, em condições de dificuldade e perigo. Os convívios e encontros são a melhor terapia para minorar o stress de guerra; assim, enquanto tiver capacidades para continuar, estarei ao serviço dos meus camaradas Combatentes, sugerindo melhorias de alimentação e outras formas de atenuar o desgaste e manter o corpo em forma, especialmente na imunidade física.
Sempre atento e militante por natureza, com base na minha capacidade e experiência bioquímica, que ajudou a vencer dois cancros que me atormentaram durante dois anos, tive a ousadia de tentar melhorar os tratamentos oncológicos no Hospital de São João e IPO do Porto, onde, durante oito anos, fui voluntário interventivo, criei e orientei um programa de apoio na recuperação física e mental dos doentes em fase de tratamentos intensivos, fazendo visitas aos parques da cidade e ministrar sessões de Hatha Yoga e meditação transcendental, terapias essenciais para lidar com a doença mais prolongada e desgastante. A vida vale sempre a pena, enquanto não se apague a luz.
Vila Nova de Gaia, 29 de Março de 2024
Joaquim Coelho



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