sábado, 2 de outubro de 2021

Apologia do Amor em Livro

PERDULÁRIOS DO AMOR


    Quando dou guarida ao raciocínio lógico algo me diz que qualquer coisa está para acontecer na minha vida… porque muitos episódios passaram por mim e a memória os deixa escapar em cada dia que me encontro barricado na recordação dos abrigos do tempo da guerra em África. De repente, surgem as imagens, muitas e claras, que me fazem sentir saudades de alguém com quem partilhei momentos de ternura e também sentimentos de amor. Foram dias e anos de conflitos entre a ternura, o amor, a camaradagem e a guerra. Mas eu sabia que tinha um destino e que a vida não iria ser fácil; por isso nunca desisti de equilibrar os sentidos até ao dia do regresso.


    Eu gostaria de ter vivido uma vida mais recatada, mais próxima das minhas raízes, sem ter que desenterrar as tristezas dos dias amargos passados no meio das matas e das savanas cheirando a guerra que deixou cicatrizes que jamais se escaparão da memória. Para fugir à psicose dos traumas da guerra, onde vi os amigos e companheiros a morrer sem que os pudesse salvar, porque os meios eram escassos e as distâncias dos locais de apoio eram impossíveis de vencer sem aeronaves adequadas, tive que aventurar-me nas viagens sem destino, passando por locais imprevistos. Foi uma forma de escapar à desgraça dos traumas, escapulindo-me para as pistas por onde passavam táxis aéreos pilotados por antigos companheiros da Força Aérea; aí, pacientemente, esperava boleia para qualquer ponto de África! Com a anuência dos comerciantes que contratavam os serviços dos aviões, percorri muitas dezenas de locais da imensa terra africana a sul da linha do Equador. Foram experiências de extraordinárias viagens de aventura e recreio onde aprendi a amar a natureza e as mulheres, respeitando os valores da amizade e da partilha.


    Quantas vezes, nessas viagens de destino incerto, me interroguei se não seria estupidez embarcar no avião sem saber para onde ele ia. Enquanto esperava na solidão das pistas do interior, olhava em todas as direcções e não vislumbrava motivo para aquela apetência de viajar na aventura do desconhecido. Algumas vezes fui enganado! Se pedia para ir a determinado local, porque tinha interesse em fazer reportagem, o piloto dizia que sim senhor, ia para lá… mas só depois de passar por outros locais do seu interesse e, quantas vezes, em sentido oposto à direcção que eu pretendia seguir. Nunca podia levar as coisas muito a sério – aventura é aventura!


    Em determinadas situações, as demoras nos percursos indefinidos comprometiam as reportagens que tinha planeado com vista a colaboração com os jornais “Notícias da Beira” e “Diário de Moçambique”. Foram casos raros, mas aconteceu chegar aos locais dos eventos depois dos mesmos terem terminado; foi o caso duma reportagem sobre um Torneio de Pára-quedismo na Rodésia do Sul (no governo de Iam Smith).


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    Lembro-me de ter sentido saudades das namoradas; isso motivou uma viragem na minha forma de convocar o amor para me aliviar as dores da guerra. Começava a detestar a guerra que já me causava indignação por causa dos interesses estrangeiros nos territórios ultramarinos portugueses; para não afrontar os colonos com essa realidade, apoiei-me nas amizades com ternura. Ou seja, depois dos dias frustrantes e dolorosos passados em missões de combate nas longínquas terras do norte de Moçambique, comecei a aproximar-me mais das moças da Beira, mantendo um namoro saltitante até encontrar uma jovem que não levava o namoro a sério, mas me fascinava pela simplicidade do comportamento e pelos momentos de carinho que me ajudavam a manter o equilíbrio emocional e a mente a funcionar com todos os neurónios; a sorte foi tanta que a própria família me adoptou no seu ambiente de amigos.


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    Há episódios que não sei explicar, mas que criaram um ambiente bastante apelativo às cenas de ternura envergonhada. Em determinados dias da semana, era costume da casa dessa família de “acolhimento” fazer bolos para o fim-de-semana. Pois, sendo eu um químico, participava com sugestões de novas receitas que nem sempre resultavam muito bem. Essas experiências na cozinha criavam um clima sensível aos toques carinhosos que se prolongavam com sensualidade nos rostos envoltos na farinha e no açúcar, ingredientes dos bolos. É por isso que sinto saudades desses tempos que marcaram bem a minha vida e fazem parte das minhas memórias. A simplicidade misturada com muita ternura proporcionava gostosos momentos de amor.


    Estes sinais de vitalidade fazem-me acreditar que a vida vale sempre a pena, mesmo que o destino nem sempre seja direccionado para a fortuna. Que mais posso desejar do que a saúde para saborear os gestos de amor e viver a fantasia dos dias bem vividos.


    Será o destino um flagelo que me acompanha de braços abertos em comunicação com os desprotegidos? Eu perco-me no emaranhado dos rudes problemas, olhando em redor, e nada encontro que alimente o sentimento que sinto por ti.


    Assim vou seguindo o sentido do tempo em que o sol nos contemplava nas terras da Beira - tão ingénuos e castos.


    Lanço minhas preces ao céu que tudo abarca e não sei onde estás. Mas sigo meu sortilégio ao encontro dos sonhos que as noites tropicais nos proporcionaram, os toques das peles ternas e cálidas ficaram como o estigma das sensações que nos refrescaram a alma e fizeram de nós uns simples perdulários do Amor! Tanta luz e tanta ternura que nos fascinou até que perdemos o rasto de nós próprios.


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    Na contemplação destes espaços que a natureza me faculta, tento memorizar as emoções e ascender ao mundo excêntrico dos sonhos prismáticos, onde possa sublimar os desgostos, depurar todas as misérias que a guerra nos traz e absorver a ternura dos olhos das crianças inocentes.


Porque já não estou por aí,


Vivo com o amor que está aqui!


           


Eu duvido que exista o paraíso


e uma mão cheia de ilusões


quando sinto bem o prejuízo


dos que provocam as confusões;


mesmo assim, fui ao paraíso


para ver se lá estavas,


no caminho perdi o juízo


mas tu já lá não moravas.


 


Hoje que o dia me alegra,


filomena de olhos cintilantes,


estejas tu onde estiveres


jamais eu posso esquecer


os tempos que vivemos antes.


 


Servos duma discreta paixão,


sorvendo a frescura do cajueiro


que bem temperava o coração,


com esse teu ar brejeiro


e os sorrisos triunfantes,


atiravas as dores bem distantes.


                Porto, Abril de 1968


POST-SCRIPTUM:


Muitos anos depois, encontrei a “menina” que me ajudou a combater os dias de angústia. Lembrando os tempos desse aconchego, ambos sentimos saudades dos ditosos dias de fazer bolos. Com uma expressão carinhosa, foi dizendo que nunca esqueceu os “miminhos” que lhe proporcionei e os bolos que saíram mal. Que saudades! 


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In Livro: "Apologia do Romântico" - Edições Sentinela-MAC


 

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