SABER CUIDAR
Tendencialmente, gosto de cuidar dos outros, mesmo que não cuidem de mim! É um propósito peculiar na condição de pretender ver as pessoas que me são afins mais cuidadas e felizes para meu próprio contentamento. Está na minha natureza não esperar recompensas de ninguém, porque desconhecem os pormenores da nossa história de vida.
Por convite de um Amigo e dirigente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, achei por bem aceitar dispor dos meus tempos e conhecimentos para colaborar nas sessões de aplicação da quimioterapia intravenosa. Baseado na experiência da cura da minha doença, que combati de 2005 a 2008, fomentei e consegui que algumas equipas médicas aplicassem a quimioterapia faseada por três sessões em dias contínuos, tendo resultado menores sequelas e danos na imunidade dos doentes.
Nem sempre foi possível, devido à agenda intensiva e indisponibilidade de médicos. Tudo passava por verificar as análises clínicas dos doentes e o estado imunitário; concluímos que a aplicação da quimioterapia seria fatal quando os níveis de hemoglobina, mastófitos, linfócitos eram fracos, além de sinais de anemia. Dos estudos que fui fazendo, escrevi documentos de apoio à saúde com sugestões de alimentos, vitaminas e outros compostos com efeitos comprovados na melhoria do estado de saúde e bem estar físico e mental, os quais ainda continuo a distribuir.

Muito do que sou como pessoa participativa na vida das comunidades cresceu com as vivências dos meus tempos de Jornalista e Repórter viajante pelo mundo, além das permanentes deslocações para formação profissional qualificada - mais de 70 países visitados e participação nos eventos interventivos em 32 deles; factos que muitos desconhecem e não entendem o fascínio das experiências multifacetadas pelos costumes e tradições dos povos com os quais convivi. Por isso, trato com delicadeza a família e os amigos que me fazem acreditar nos valores partilhados com a generosidade que nos pode conduzir a vida para a prosperidade colectiva.
Desde a meninice que é este o meu fadário, sentir o apelo da sensibilidade para cuidar de quem está à minha volta, quer seja nos afazeres dos dias comuns como no trabalho, bem estar e diversões, com mais cuidados na prevenção das doenças.
Crendo nos reparos que alguém faz nesta forma de sensibilidade aos problemas dos outros, quando presumem algum cansaço, nem sempre este será o melhor caminho para sermos úteis ao nosso vizinho. Corremos o risco de perdermos a capacidade de manter as necessárias energias para aplicarmos o saber com empenho de cuidar com acerto as necessidades dos outros.
Mas não pude deixar de atender às inovações para a melhoria da saúde, pelo que aproveito os conhecimentos de bioquímica e os princípios da investigação aplicada para a cura de doenças emergentes, cada vez mais agressivas na generalidade das pessoas; especialmente doenças cancerígenas que me perturbaram a vida durante mais de dois anos. Tais cuidados permitiram curas totais, com menores estragos físicos e reduzidas sequelas resultantes dos tratamentos rotineiros, agressivos e nem sempre eficazes.

Mas, como nem tudo corre como desejamos, o bom senso aconselha que cuidemos de nós, para estarmos mais fortes e com melhores condições físicas e mentais para cuidar de quem precisa de nós.
Esta reflexão tem o propósito de entender uma grave situação que abalou a minha vontade e perturbou o meu sentido de vida, durante um complicado episódio de violência ocorrido após oito anos de prestações de voluntariado na ajuda aos doentes oncológicos no Hospital de São João e no IPO do Porto. Aconteceu que, à saída pela porta principal do IPO, ao abrir a porta, fui barrado por uma enfermeira bem conhecida… que logo começou a insultar-me em altos berros, perante mais de vinte pessoas que aguardavam atendimento no átrio da entrada do IPO.

Tinham terminado um período de greves “selvagens”, que causaram pelo menos quatro mortes de doentes internados, confirmadas nas conversas correntes e que a minha experiência e sensibilidade bioquímica consideram por falta de socorro atempado nas enfermarias do IPO. Ora, escrevi um artigo contundente e denunciante de tais efeitos mortíferos, apontando responsabilidades à bastonária Ana Rita Cavaco por ter convocado períodos sucessivos de greves ardilosamente preparadas para degradar e desprestigiar o Serviço Nacional de Saúde. Pois, na semana seguinte à ocorrência das mortes por desleixo, foi publicado o tal “artigo de opinião” que despoletou o azedume da enfermeira que resolveu insultar-me publicamente… “você é um canalha, um insurreto, um terrorista perigoso”! Tentei interromper… perguntei: mas a senhora enfermeira está bem da cabeça? E continuou: “um bandido que merece condenação, mentiroso e patife”!
Calmamente, tentei afastar a enfermeira e voltei a deitar a mão ao manípulo da porta para sair… ela meteu o pé para travar a abertura da porta… disparei uma bofetada… logo se insurgiu tentando agarrar-me a mão, em descontrolada gritaria; a algazarra era tamanha que despertou dois seguranças que se aproximaram e me cercaram. Fui conduzido para um gabinete ao lado do balcão da Liga Portuguesa Contra o Cancro; poucos minutos depois, fui conduzido a outro gabinete onde estava a enfermeira com o Director do IPO… perguntas e acusações que deslindei calmamente… mas fiquei preocupado quando vi dois agentes da polícia fora do gabinete.
Tudo ficou serenado, depois do Director questionar a enfermeira: “a senhora enfermeira explique o que aconteceu para que o homem considerado mais calmo e prestativo neste hospital a tenha bofeteado”! Muito encabulada, sentimos que a enfermeira ficou atemorizada… disse que reagiu por impulso em defesa da bastonária da ordem dos enfermeiros, por eu a ter acusado indevidamente num artigo publicado no jornal Público. O Director insistiu: “explique lá o que aconteceu?” Não havendo respostas, o Director encerrou o assunto e foi à porta do gabinete falar aos agentes da PSP para irem embora.

Depois deste triste episódio, que ofuscou oito anos de trabalhos de voluntariado, onde apliquei conhecimentos e práticas que anos antes contribuíram para me curar e livrar de dois tumores malignos, senti o desânimo pelo presumido cansaço, consciente de que estava a precisar de repouso antes de entrar na fase de stress, porque a proximidade e vivências com os doentes me estavam a afectar perigosamente.
Sentia insatisfação por pensar em deixar de prestar o apoio na recuperação dos doentes que mais precisavam dos meios que me foram permitidos pelo Director: dar sessões de ginástica e reiki no salão do IPO; fazer três ou quatro retiros nos parques da cidade, especialmente ao Parque de S. Roque da Lameira, onde praticávamos meditação, hatha-yoga e conversávamos calmamente, com excelentes efeitos na melhoria da autoestima dos doentes e afirmação da vontade de recuperação para voltarem à vida normal.
Aproximavam-se as festas natalícias de 2018 e fui passar o Natal a Ferreira do Alentejo, com os familiares da minha filha Raquel. Aproveitando os dias de calmaria, passeando junto ao parque da vila e conversando num ambiente bucólico e sereno, deu para me revisitar e entender que era tempo de me dedicar a cuidar de mim e da minha família!

De regresso à vida agitada na região do Porto, onde continuo a apoiar alguns amigos incondicionais e outros precisando de sugestões para manter a saúde em forma, reduzi as minhas actividades de voluntariado e estou mais virado para olhar por mim e pelos que estão próximos. Sem descorar os cuidados com os meus familiares e amigos, estou com mais atenção para cuidar de mim, porque o desgaste da idade assim o aconselha.
Vila Nova de Gaia, 20 de Dezembro de 2019
Joaquim Coelho

Encontros Tridimensionais - Amigos
Quem procura sempre encontra – aconteceu com o Joaquim Coelho, meu companheiro no tempo do Colégio João de Deus. Soube, por outros antigos companheiros de estudo, que a Academia Francesa havia premiado um dos “nossos”, o que causou admiração e respeito por uma pessoa simples e prestativa, que nos animava com suas empolgantes alternâncias musicais modeladas nas teclas do órgão da capela do Colégio.
Mas, o terceiro encontro com o Joaquim Coelho aconteceu aquando da minha participação na “Conferência sobre Associações de Pais”, no Auditório do IPO do Porto, onde fiquei a saber do seu prestável apoio no “Voluntariado” como bioquímico e na organização de programas de recuperação física e mental de pacientes do cancro. Foi um dia especial e de renovação dos laços de amizade e recordação dos nossos primeiros “escritos” publicados na Revista “INICIAL” do Colégio.
Pois, o Joaquim Coelho fez parte do meu pelotão de recruta militar no Quartel de S. Brás, na instrução de Sapador Bombeiro, integrado no Regimento de Engenharia 2, do Porto. Ali o encontrei numa situação anómala perante as regras militares – foi “obrigado” a frequentar a escola regimental, por não entregar o comprovativo das habilitações literárias. Fui um dos “professores” dos recrutas e confrontei o Joaquim Coelho com a insólita situação, logo esclarecida por saber que a razão era bem mais forte do que esperava: caso fosse para o CSM fora do Porto, perderia o último ano do curso de Laboratório Químico que frequentava. Tendo posto o assunto ao seu patrão, foi aconselhado por militares de alta patente, com efeito das “cunhas” oportunamente accionadas, a nada informar das suas habilitações. Atendendo às circunstâncias, urdi um plano em colaboração com os demais camaradas militares e dispensamos o Joaquim Coelho das aulas regimentais, deixando-lhe tempo para continuar os seus estudos profissionais. Embora o comandante da companhia viesse a descobrir estas tropelias, depois de dar uma “lição” ao recruta Joaquim, facilitou as dispensas diárias para as aulas no exterior.
Através de um primo oficial nas tropas paraquedistas, soube de algumas atribulações complicadas com o Joaquim – próprias numa pessoa de carácter interventivo e personalidade vincadamente firme e livre. Esse familiar teve intervenção na integração do Joaquim Coelho naquela tropa especial e moderna, quando o viu na iminência de desertar… por não ter preparação de combate para embarcar para a guerra em Angola (aconselhou-o a ser paraquedista)!
Pelos seus escritos divulgados em jornais e nos livros publicados, entre os quais um premiado pela Academia Francesa, senti grande orgulho por ter sido seu companheiro colegial e concorrente nas publicações dos nossos “talentosos” escritos na revista do Colégio. Aqui deixo dois poemas que expressam bem as diferentes correntes daquele tempo, onde o Joaquim Coelho mostrava recursos e sensibilidades de outra dimensão qualitativa.
Para que conste no seu próximo livro, aqui fica este pequeno resumo das vivências que recordo com saudade e da extremosa amizade dos meus encontros na vida deste homem genuinamente altruísta, defensor da solidariedade social e talentoso escritor e poeta, admirável amigo Joaquim Coelho.
25 de Julho de 2018
Cerveira Pinto (Professor UP-Medicina)

NA ALDEIA
O riacho corre, aqui ao lado
do casebre onde eu habito…
no inverno corre apressado,
como um selvagem cabrito!
no verão, com o estio,
tem a força de um pavio.
As poças de água e as enguias
dão vida ao pobre riacho…
com a cheia em certos dias
dá mostras de grande fúria…
passando a Ponte das cabras
parece encolher na penúria!
O sardinheiro todo se ufana
a buzinar na carripana:
- ah… tão poucos fregueses!
como a vida está má…
não é como das outras vezes,
p’ra semana não volto cá!
Passa a galinheira a apregoar:
- Quem tem ovos ou coelhos…
compro e vendo galinhas!
Paga bem, séria com os olhos
brilhantes como estrelinhas.
O regedor que parece aflito
chama a mulher, apressado:
- compra lá um coelhito
e embebeda-o no vinho…
com o tempero do guisado
fica melhor que o toucinho!
Até os vizinhos têm proveito…
além do toucinho caseiro
temos as vacas a jeito
que alimentam por inteiro.
Termas de S. Vicente, Setembro de1955
Joaquim Coelho .

ENFIM SÓS
No desconhecido
e em silêncio
no escuro sem medo
tudo se vai conhecendo
cada vez se sabe menos
Caminhar
caminhar
caminhar
Em rítmos diversos
e fugindo da peste
que é o corpo sem espírito
Estar só
mais minha dama
tão bom
cada segundo é uma vida
e
caminhar
caminhar
caminhar
em ritmos surdos
leves lentos caminhar
com o coração a doer
as lágrimas cá dentro a cair…
A sorrir a amar muitas vezes
a morrer aos bocados
tantas vezes
a caminhar
caminhar
caminhar
caminhar
caminhar
caminhando…
Porto, Julho de 1956
Cotta Mesquita
In revista “INICIAL” do Colégio João de Deus





PÓS-SCRIPTUM:
Apesar da idade, continuo com atenção à minha saúde e dos demais, porque não consinto que a solidão me afaste dos meus semelhantes afectivos.

Sem comentários:
Enviar um comentário