CAMARADAGEM FELIZ
A camaradagem criada em condições e tempos complicados, merece ser preservada e justifica as narrativas deste modesto livro “Guerra Armadilhada”. As situações, nem sempre inesperadas, recomendam uma leitura de reflexão; pois, a lógica do absurdo das guerras toca no mais profundo sentimento humanista, porque os Combatentes nunca deixam de ser racionais.
Nunca me alheei das causas e dos valores capazes de fomentar a vida harmoniosa e feliz das pessoas, jamais esqueço o tempo das angústias partilhadas com os camaradas de armas, porque os nossos parentescos e afinidades se forjaram nas mais duras e terríveis jornadas no meio da guerra.
Os anos passam velozes ou lentos consoante o conforto ou desconforto que a vida nos proporciona. Mas gostaria de recordar os nomes de todos vós – companheiros de todas as horas, que me animastes em dias de bruma e momentos de inquietação, porque me transmitiam confiança para desafiar os terríveis dias do sofrimento que não conseguia aliviar-vos. Dúvidas, nunca as tive porque a vossa presença em meu redor, mesmo nas mais complicadas missões, atirava para bem longe o medo dos confrontos com o inimigo e com a engrenagem da guerra.
Muito do que fizemos e aprendemos resultou num eficiente desempenho que os anos concertaram com sucesso. Crescemos juntos, entre o medo e a coragem de vencer, apesar do desconforto dos fanatismos e dos ódios que alguns cobardes tentaram fomentar.
Para a narrativa de alguns episódios deste livro, gostaria de chamar-vos um a um, pelos nomes que sempre estimei e se escapam na memória do tempo. Mas, por razões de ética e privacidade, alguns dos nomes são fictícios. No entanto, a vossa presença faz parte das vivências aqui descritas, para que outros percebam os valores que a vida contém e muitos desperdiçam ou desprezam com desdém.
Apesar de todas as vicissitudes e desagradáveis confrontos com a hierarquia arcaica, dos processos disciplinares, inquéritos militares e pidescos, valeu a pena despender tempo e ocupar lazeres nas aulas que ministrei com gosto e alegria, através das quais, muitos de vós conseguistes colher sabedoria que vos proporcionou melhores proventos e outros benefícios para uma vida harmoniosa e feliz.
A idade não perdoa e vamos envelhecendo naturalmente, mas ainda temos uma reserva de energia que armazenamos nos dias de salutar camaradagem e confortáveis convívios dentro e fora da guerra. A nossa emancipação aconteceu naturalmente, porque dispúnhamos da formação adequada às reais transformações que o mundo nos impunha. É este sentimento que nos ajuda a envelhecer sem envergonhar o nosso passado nem os nossos desempenhos, tanto na guerra como na sociedade. Esse é o resultado que nos permite ter outra visão das circunstâncias que atrapalham e dificultam a vida nos dias que nos restam.
Deixamos uma herança com valores marcantes para a geração de homens valentes que muito aprecio e jamais esquecerei de partilhar com os vindouros, porque merecemos reconhecimento e respeito. Ah! como gostaria de pronunciar todos os vossos nomes, mesmo que o convívio possa parecer mais virtual do que natural. Mas deixo o meu legado das memórias, para que os nossos filhos e netos possam orgulhar-se do que somos – homens valentes e virtuosos, lutadores por um mundo solidário e feliz.
Prólogo no Livro: “A guerra Armadilhada”, publicado em 2016.













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