quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A Guerra do Ultramar em Derrocada

ROMPIMENTO com a MEMÓRIA


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Estamos num tempo em que a verdade conflituosa dos dias da guerra aumenta o desgaste do corpo e amofina o espírito que se pretende afirmar como referência moral na defesa duma causa obsessiva, mas que já não merece credibilidade na razão do combate.


O problema está na forma apática que conduz ao regredir das boas razões da família ajustada ao obscurantismo aprazado.


O esquecimento dos valores, outrora impingidos como válidos, implica a desolação passadista e a narração de factos inverosímeis em afirmações desgarradas e sem nexo, mas exaltantes do efémero como memória dos grandes mentirosos - passado não presenciado!


Já não temos força anímica para combater o desalento, porque a vontade de lutar é traída pelas acções do mundo circundante que nos acolhe com rebentamentos de granadas PGR. Nem a tentativa de amarrar as pernas de carnes esfaceladas nos impedem de sentir o gemido destes soldados inertes, olhares vidrados e esmorecidos, onde o sangue já nem tem força para jorrar das feridas rasgadas nos seus corpos acabrunhados pelo peso da desgraça de morrer nestes prados perdidos nas matas do Vale de Miteda.


Nesta emergência, a vertigem que nos embrutece e absorve com seus tentáculos obscurantistas, só temos que lutar para manter a verticalidade algo oblíqua e enfrentar o destino com a coragem de fugir do inferno - este!


Os discursos de circunstância, na condecoração a título póstumo, não conseguem o acolhimento capaz de revitalizar a vida destes heróis inexistentes, porque estão mortos, e a inércia do sistema esbarra na fachada do regime cuja essência nos oprime e rejeita, porque a razão histórica nos remete para as veredas do subdesenvolvimento pessoal e patriótico, culminando na obscuridade cultural que nos impingem. Não é esta fatalidade histórica que nos maltrata como seres despidos de sentimentos que nos faz sofrer, mas, antes, a devastação ideológica que nos afecta o desejo de avançar com qualquer projecto humanizante e racional e reparar os estragos duma guerra que nem sabemos porque a fazemos. Só esta forma de questionar o pensamento nos chega para viver a realidade com a razão de que ninguém nos pode destruir e, enquanto estivermos vivos e formos seres pensantes, jamais seremos remetidos para a sarjeta dos colonialistas empedernidos.


Estamos afectados pela angústia da descrença que nos persegue em todas as emboscadas que resultam na perda de alguns companheiros abatidos sem um gesto de reacção ou mutilados na escaramuça dos rebentamentos. Embora os mistificadores da razão patriótica se mobilizem na maldosa balela dos acólitos do poder, não nos sentimos enganados... apenas nos deixamos embriagar nas doçuras do prazer do álcool e das virtudes sensuais das mulheres que nos esperam no regresso das semanas relevantes da vida no mato. Sem ideologias e sem força para protestar, vamos sendo ofuscados pela solidão colectiva, acabando por sucumbir à vontade de vencer a ignorância e colher os frutos generosos da geração tragicamente condenada à frustração ou ao enigma duma viagem-prémio de qualquer governador colonial.


  Assim, perante a inevitável desgraça desta realidade, o maior drama da nossa vida de combatentes garbosos e patriotas é ver o esfacelamento gratuito dos corpos do Pinto “cuécas” ou do Farelo e o aniquilamento do Madriana e do Sousa, consequência de dolorosos pesares para os seus familiares; e para maior desgraça nossa, damo-nos conta da nossa fragilidade de seres humanos normais que não sobrevivem à perfuração dos seus corpos quando atingidos pelas balas traiçoeiras, porque também somos mortais - facto que o treino de combate mais aperfeiçoado não consegue ultrapassar a condição material da vida que necessita do sangue para continuar a alimentar o circuito biológico com vida.


Então, o sentido das proezas do soldado, tido como o melhor da pátria, começa a desvanecer a imagem da sua fraqueza quando se confronta com a realidade destruidora de ideias ou das boas intenções; pois, o reflexo na engrenagem que se movimenta na retaguarda aniquila sem escrúpulos a razão dos bem-intencionados e destrói sem piedade a visão natural das coisas. Os choques amesquinham as pessoas imbuídas de vontade, cujos limites estão para além da dureza da vingança cega, destruidora da sinceridade do companheirismo e desafiando os raros laivos de coragem impulsiva. A repulsa alastra dentro de nós quando nos sentimos afundar no lodo do ridículo com olhares difusos, mas comprometedores perante os estranhos comportamentos da sensibilidade piedosa.


O testemunho das desgraças alheias vai tolhendo a imagem do soldado patriota e lutador, porque as balas não deixam remorsos quando atravessam o ventre das crianças inocentes e famintas, ou a farda dos soldados mais afoitos. Chegamos a um ponto de descrença nas instituições que fazem a guerra, que já nem as “capas de misericórdia dos Movimentos Femininos” conseguem sarar as feridas menos profundas do nosso corpo cavernoso, quanto mais diminuir a mágoa que vai no nosso espírito perturbado, como pretendem com as suas mensagens ocas e fantasiosas onde as alusões ao senso métrico não deixa de ser uma ilusão do desejo de quem não tem um rosto macio de mulher apetitosa mas um pensamento longínquo, capaz de se revelar nas sombras da memória da infância, e rebentar com as fechaduras da retenção do sexo enclausurado no vento libertino.


 A serenidade também pode amputar o pensamento e destruir a identidade dum homem injustamente espicaçado. E ninguém sabe como regressará, se um dia voltar à sua terra.


“Espicaçar a Memória Parda”


Nacala, Outubro de 1966


Joaquim Coelho   


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