A MINHA CONDIÇÃO
Desde muito novo comecei a sentir um misto de revolta e de inconformismo por observar situações de injustiça e infundado autoritarismo das autoridades policiais no esbulho dos fracos recursos alimentares dos agricultores, causa de fome e miséria; mas, também, no abuso agressivo dos professores.
Ora, a minha natureza, insubmissa aos ditames dos brandos costumes da sociedade causaram alguns dissabores; razão por que me dediquei à colheita de ensinamentos e de saber, apetrechando-me de meios para continuar a usufruir da natural condição de liberdade, bem como do poder interventivo social e cívico, em prol dum mundo melhor para mim e para todos os meus semelhantes.
Desde a escola primária, passando pelos meandros da disciplina no Colégio João de Deus até à discriminação intolerante na Escola do Infante D. Henrique, comecei a perceber que a vida em sociedade não é fácil, por causa do autoritarismo dos responsáveis sem humanismo.
A minha passagem pela instituição militar foi multifacetada e controversa desde que me apresentei no Quartel de Arca d'Água, Engenharia 2 do Porto, como analfabeto. Havia uma razão importante para não ter dado conhecimento das habilitações e finalista do curso de laboratório químico: se fosse para um curso de CSM perdia o ano lectivo e final de curso.
Mas a perspicácia do capitão, que presidia às inscrições dos mancebos e distribuição por especialidades, acabou por me tramar. Perante a circunstância de não ter apresentado certificado de habilitações e ter registado no recrutamento a profissão de auxiliar de laboratório, o sargento que fazia as inscrições chamou o capitão para perceber tal incongruência. Em termos pouco abonatórios da minha identidade, o capitão ditou o meu futuro próximo:
- Manda-o para bombeiro onde pode analisar as águas! Foi assim que passei uma recruta sem grandes esforços, entre o Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto e o quartel de S. Brás, até às manobras nos montes das freguesias da Capela e Figueira e juramento de bandeira, sendo colocado na Base Aérea 1, em Sintra. Aproveitando minha arte de tocar órgão nas igrejas, o tenente Capelão Figueiredo incumbiu-me de participar nas missas da capela da Base da Granja do Marquês, Sintra, com acompanhamento musical. Esta proximidade ao Senhor Capelão permitiu ser despenalizado por não ter dado as habilitações literárias, na condição de escolher uma especialidade da Força Aérea adequada às reais habilitações: Piloto Aviador, Operador de controlo Aéreo ou Operador Cripto. Melhorei a minha condição militar ao concluir o curso de Controlo Aéreo. Com o início da guerra em Angola, por razões preventivas na preparação de combate, optei por ir para os pára-quedistas. Encontrei um ambiente mais aberto à expressão do pensamento, com ampla autonomia da personalidade, onde podiamos evoluir sem as peias do medo de sermos encarcerados por denuncias pelas ideias próprias. Com o movimento de vários milhares de mancebos na instrução, dura e exigente, começaram a aparecer oficiais sem a necessária formação para entender as diferenças de personalidades uriundas do meio agricola e sedentos de liberdade de expressão, contrastante com o meio civil, bem sinalizado pela opressão das forças da ordem instituida. Logo, o meu modo de lidar com tais oficiais formatados nas Academias militares embateu na barreira da hierarquia arcaica e bacoca; isso causou-me sérios engulhos e desentendimentos, quer no modo de ministrar instrução, quer no trato com os subsordinados. A relutância de alguns superiores herarquicos à minha disponibilidade de dar aulas do ensino secundário aos soldados, chegou ao absurdo de me acusarem de contribuir para dificultar a liderança e comando do pessoal mais esclarecido e culto!
Ora, baseado nos meus conhecimentos e nos ensinamentos recebidos de meu Avô materno, a quem presto eterna homenagem (homem de grande sabedoria, com passagem pela maçonaria, regedor e louvado), sempre agi em função dos meus pensamentos, ideias e capacidades. Por sinal, nunca tive a sensação do arrependimento, mesmo quando percebesse que haveria outros caminhos. Ponderadamente, sempre aceitei outras opiniões, mas decidi segundo os meus propósitos e assumi as consequências com humildade. Porque sempre vivi com natural empenho de prestação para uma sociedade mais inclusiva e igualitária, aproveitei as oportunidades que me foram aparecendo para usufruir do melhor da vida em comunidade, enfrentado as dificuldades com a necessária lucidez para encontrar as melhores soluções. Embora revestido da modéstia das minhas origens, atingi objectivos pessoais e profissionais com o orgulho de chegar ao sucesso por mérito próprio, com a humildade de o saber partilhar com os mais próximos colaboradores.
Em todo o percurso duma vida cheia de peripécias e distribuída por dezenas de países, sempre me soube integrar com naturalidade e entender as diferenças sociais, culturais e cívicas que me abriram amplos e fascinantes horizontes com proveito e prazer. Nunca senti qualquer deslumbramento pelos meus feitos, mesmo os mais inesperados e reconhecidos.
O dom da serenidade e do bom entendimento com as gentes vem do tempo da adolescência, quando participava nas reuniões engendradas pelo Mestre do ensino da língua portuguesa, Pedro Homem de Melo, poeta das tradições camponesas, arauto da divulgação do folclore, onde se agendavam as representações de Ranchos Folclóricos na Rádio Televisão Portuguesa, realizadas nas transmissões, ao vivo, desde o Monte da Virgem. Tive a felicidade de aprender com alguns bons mestres, em todas as áreas de ensino, especialmente em língua portuguesa, filosofia, química e bioquímica.
Assim, desde a vida militar e em todos os cargos profissionais que desempenhei ao longo da vida, soube adquirir o saber e pugnar pela eficiência e aplicação dos conhecimentos mais adequados e eficientes, sem melindrar os meus chefes.
Com tais princípios, sempre me senti livre e vocacionado para a gestão comparticipada pelos meus colaboradores, sem abdicar dos princípios básicos da lealdade e do empenho na prossecução dos objectivos. Enquanto na vida militar senti algumas dificuldades neste entendimento por parte de parte da hierarquia, na vida profissional obtive grandes sucessos e reconhecimento.
Nunca fui submisso. E nunca me conformei com o desleixo dos subservientes nem com a passividade dos acomodados. Muito do que faço e escrevo espelha as fases do tempo duma vida intensa, vivida em diversos recantos do mundo e partilhada com muitas pessoas. Continuarei a divulgar conhecimentos e a colocar o meu saber ao serviço dos que me estão próximos, tanto na orientação profissional, como na prevenção da doença e no tratamento das disfunções físicas e psíquicas.
Talvez que os meus amigos venham a entender as razões dos meus percursos e dos meus desempenhos em prol duma sociedade mais culta, mais fraterna e mais solidária. Tenho esperança de que desculparão algumas loucuras, bem como o meu desprezo pelos invejosos, pelos maldosos e medíocres.
Valongo, Maio de 2014
Joaquim Coelho
Tributo aos Amigos e Familiares - VER:
https://www.youtube.com/watch?v=c5U_aESWvUU






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