sexta-feira, 12 de julho de 2024

Viagens e Reportagens em tempo de Guerra

Viajando e Voando pelo Mundo

   Na minha caminhada da vida, tive boas oportunidades de viajar e conhecer pessoas com outras maneiras de viver. Para além da vontade de viajar, tive a sorte de trabalhar em empresas que me destacavam para outros países com tecnologias mais avançadas, onde colhia formação com vista ao desenvolvimento participativo da sociedade, melhoria da produção e criação de riqueza em Portugal.

   Comecei a gostar de viajar desde a juventude… depois de ser selecionado para um Curso de formação de guia turístico, em Londres, por conta do Senhor António Maria Lopes, dono do Grande Hotel do Porto, onde fui apadrinhado pelo Director Álvaro Machado, amigo do meu pai.

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   Terminado o curso, concorri ao lugar de “Guia Turístico” no SNI do Ministério respectivo, ficando entre os três primeiros e ser admitido. Trabalhei durante três anos com turistas na cidade do Porto e fiz acompanhamento de duas excursões, em autocarro, no circuito europeu. Desde aí, senti uma grande apetência para viajar e conhecer outras terras e outras gentes, tendo aproveitado as oportunidades que foram aparecendo, tanto na formação profissional como nas reuniões de colectividades e competições de Paraquedismo.

   Quando destacado para a guerra ultramarina, em Angola, nos intervalos entre operações e descanso, viajava por diversas cidades angolanas, tanto em reportagens como em turismo. Parte das vezes, tive a companhia de amigas-namoradas com bons conhecimentos das terras de Angola, onde tinham familiares a trabalhar.

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   Enquanto repórter e militar operacional em terras de Moçambique, aproveitei o conhecimento com mais de uma dúzia de pilotos ex-militares, antigos camaradas da Força Aérea e, nos locais onde houvesse aeródromos militares ou civis, esperava a passagem de qualquer deles com seus táxis aéreos e lá seguia viagem, à boleia. Mesmo sem ser o destino pretendido, voei e aterei em cidades ou vilas por todos os países africanos a sul do deserto do Sahara, além de Madagáscar, ilhas Comores e Maldivas.

   Durante o tempo de serviço em Moçambique, colaborei no desvio de um avião da Força Aérea da Zâmbia, carregado de militares e famílias, para Lourenço Marques. Acompanhei o Engº. Jorge Jardim, principal administrador das empresas de António Champalimaud e Manuel Bullosa em Moçambique, nas reuniões com Ian Smith, presidente da Rodésia do Sul, pedindo ajuda militar contra o bloqueio naval da Inglaterra ao porto da Beira – guerra do petróleo; do que resultou o enviou de quatro aviões de combate para a Beira, reforçando a Força Aérea Portuguesa de prevenção contra a frota inglesa (um porta-aviões de três fragatas) estacionada ao largo da costa moçambicana. Uma semana depois, chegaram à Base Aérea 10-Beira 4 aviões caças modernos e um bombardeiro Camberra.

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   Tive viagens com inesperados percalços, mas sempre com satisfação pelos conhecimentos adquiridos, como em aventurosa reportagem junto das tropas americanas no Vietname, para onde viajei com apoio de dois oficiais americanos que conheci na Rodésia do Sul como negociantes de mercenários desmobilizados da guerra do Vietname. Em colaboração com jornalistas do Paris Match, passei três dias em reportagem na guerra do Líbano com Israel, em 1982.

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   Anos antes de fazer reportagens das primeiras manifestações políticas no Kosovo e mais tarde na Bósnia e Croácia, viajei como turista num cruzeiro marítimo a partir de Barcelona para o Mar Adriático passando por Nápoles, Sicília, Bari, Dubrobnik e visita à antiga Jugoslávia até Belgrado.

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   Ainda nas missões de reportagem de guerra, a pedido e com o apoio logístico da família Ramchand, comerciantes paquistaneses que conheci em Moçambique e vieram para Portugal em 1975, desloquei-me a Caxemira, onde permaneci cinco dias ao abrigo de familiares desses comerciantes; não obtive os esperados resultados de reportagem porque a intensidade dos bombardeamentos da aviação indiana não dava margens para andarmos em segurança.

   Enquanto repórter e Paraquedista desportivo, andei por diversos países da Europa, incluindo a Hungria e Israel. Nas diversas circunstâncias de viajante (turista, formação profissional e paraquedismo), estive em cerca de 70 países e convivi amigavelmente com as pessoas de mais de trinta, onde colhi bons conhecimentos de usos e costumes dessas populações.

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   Das variadas vivências nesses países e convívio com pessoas de outras culturas, religiões e tradições, colhi ensinamentos para uma natural adaptação às situações mais incríveis de convivência pacífica e salutar percepção das diferenças, bem como das igualdades que nos aproximam em qualquer parte do planeta, numa onda de solidariedade por um mundo melhor e mais acolhedor para todos.

   Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 2016

Joaquim Coelho

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sexta-feira, 29 de março de 2024

Boas Memórias do Tempo

A Páscoa na Minha aldeia

   Neste tempo de Páscoa, recordo muitos dos momentos passados na sacristia para ver quem ia fazer parte da comitiva de levar o compasso a casa dos paroquianos. Os miúdos como eu gostavam de levar a campainha que anunciava a proximidade do “compasso”. O padre seguia logo atrás do acólico da cruz orlada de lindas flores, junto do padre ia o miúdo da caldeirinha da água benta; mais atrás seguiam os dois acólicos para receber as prendas e o dinheirinho dentro dos envelopes que eram entregues pelo patriarca das casas que recebiam a visita pascal. Havia sempre casas sem o tapete de flores nas entradas, sinal de não quererem abrir a porta (sujeitando-se a comentários pouco abonatórios da vizinhança) e outros que estavam fora da terra.

   Para a miudagem da aldeia, as festas da Páscoa eram muito importantes, tanto pelas fatiotas novinhas a estrear como pelas guloseimas que os pais compravam para todos degustarem. Tal como as festas da Páscoa, havia ajuntamentos das famílias pelo Natal e nos dias das Festas de Santo António (em Junho) e do padroeiro S. Vicente (em Janeiro).

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   Terminados os estudos da escola primária com sucesso, aconselharam o meu pai a levar-me para o Porto (ele trabalhava nos Transportes Grijó) onde poderia ter mais condições para estudar. Tive a sorte do meu Pai ser amigo do vizinho Senhor Álvaro Machado, director do Grande Hotel do Porto e pai da menina Luiza, professora no Colégio João de Deus. Depois de alguns meses a fazer serviço de ascensorista no hotel, esta senhora professora conseguiu que eu entrasse no Colégio em condições especiais – trabalhar e estudar, diminuindo assim a mesada mensal que o meu pai teria de pagar (para a qual não tinha posses, por ser um estabelecimento de elites ricas).  

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    Mas os Domingos de Páscoa eram o dia mais festivo na minha aldeia e por lá encontrava muitos dos amigos da minha juventude. O cabritinho assado no forno de coser o pão era um petisco que toda a gente comia com satisfação. O pão de ló e as amêndoas nunca faltavam naquela família; a minha tia Maria punha na mesa as maçãs amarelinhas que tinha guardadas e bem conservadas desde a última colheita do Outono.

   Cedo parti para o Porto, com a finalidade de estudar no Colégio João de Deus, a troco de trabalhar 4 horas diárias de trabalho, fazendo sandes e lavando a loiça do lanche servido aos alunos. De quando em vez, servia o almoço aos alunos mas não gostava que eles gozassem comigo por ter de trabalhar para estudar naquele Colégio de filhos de gente rica do norte de Portugal, também filhos enjeitados pelos amantes endinheirados que não queriam dar o nome e perfilhar – coisa rara, mas ter filhos de amantes em segredos mal guardados podia envergonhar a família!

   Quase todos os meses passava um Domingo com a família da aldeia, que crescia a olhos vistos – éramos dez irmãos bem nutridos e rebeldes. Nas festas e romarias marcava presença nas paródias com meus amigos de infância, especialmente dos tempos da escola de S. Vicente do Pinheiro.

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   Nunca me esquecia de visitar o meu avô Manuel na quinta da Vila, onde tinha boas memórias do tempo das “ajuntadas” pela matança do porco, pela Páscoa, pelas festas a Santo António, pelas vindimas, pela malha do milho e do centeio. Umas vezes, eram as festas da família, outras tinham os vizinhos que ajudavam nas lides das colheitas. Ora, o meu avô Manuel sempre foi a minha luz a alumiar o caminho com suas recomendações para a colheita de sabedoria e humildade para atender os mais desprotegidos neste mundo de competição cada vez mais agressiva e injusta.

   Foi através da visão futurista do meu avô que comecei a ver o mundo num horizonte mais abrangente. Ao ouvir as suas leituras dos Almanaques, comecei a entender o valor das palavras e aprendi a valorizar quem as escreve. Nunca esqueci a varanda do canastro, onde o avô Manuel juntava os netos e dava lições de sabedoria para entendermos o mundo e melhor nos integrarmos numa comunhão de solidariedade e partilha; dali avistavamos os campos e hortas agrícolas até às Termas de S. Vicente. As comunidades locais eram um bom exemplo de que somos mais fortes quando aliamos as nossas capacidades e nos ajudamos uns aos outros, como o fazem os agricultores nos tempos das colheitas – juntam-se nas colheitas, uns dias na casa de uns, outros dias na casa de outros, até todos terem arrumado os produtos da terra nos seus celeiros e adegas.  

   Muito do que fui na vida e realizei com competência profissional e em prol da comunidade é fruto dos ensinamentos do meu avô Manuel, pai da minha mãe; sem esquecer as lições de escrita e a persistência diária do meu Pai Américo , que muito contribuíram para as boas notas nas redacções da escola primária.

   Recordo com saudade o tempo em que acompanhava o meu avô pelos campos, sempre com o cão Pastor no nosso encalço. Gostava de ver a sua preocupação em guiar as águas nos lameiros, com a bengala mexendo as pedras que desviavam a água conforme as necessidades da rega no terreno. O meu avô morreu sem nunca ter estado doente! Bem, morreu por causa de uma constipação que passou a pneumonia e foi fatal. Tinha uma alimentação bem equilibrada, sem deixar de beber um copinho de aguardente ao pequeno-almoço – mesmo depois dos oitenta anos de idade, tinha uma lucidez impressionante e mantinha-se aprumado na sua alta estatura. Partilhei com ele alguns dos meus sucessos nos estudos e no meu trabalho de ascensorista no Grande Hotel do Porto; notava a sua alegria nos olhos castanhos bem vidrados.

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      Depois da sua morte, visitava os tios António e Maria, gestores herdeiros da quinta da Vila. A minha tia ficou solteira a tratar da minha avó Rosa – paralisada devido a um derrame cerebral, viveu mais de dez anos sentada numa cadeira adequada à sua situação de paralisia física. Mesmo incapacitada, nas festas anuais sentia a alegria dos filhos e netos à sua volta.

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   Ora, a minha tia, catequista e zeladora da igreja paroquial, sempre me incentivou a continuar a tocar o órgão musical da igreja; pertencia ao coro paroquial e ficava orgulhosa quando o Padre elogiava a minha arte nas variações musicais.

Também se preocupava com as minhas evoluções no trabalho e nos estudos, mas aconselhava nas evidentes tendências para namorar. Nunca me aconselhou nenhuma pretendente da terra, mas prevenia-me para os cuidados com as namoradas que pudesse encontrar. Sabendo das minhas capacidades para alegrar as pessoas que assistiam às récitas musicais difundidas pelos Órgãos das igrejas onde era habitual tocar, especialmente em dias de festa, perguntava porque ainda não tinha namorada lá na aldeia. Era assunto que mantinha em segredo, até porque nunca tive sorte com as moças a que me afeiçoava! A Alice, partiu para o Brasil, onde estava o pai; a Almerinda, por ser muito próxima das minhas irmãs mais velhas; a Rosa Maria, por causa das traquinices do seu irmão que me aferroava e competia para levar a campainha nas visitas pascais. Pois, todos os anos havia dois grupos de visita pascal, onde a competição dos jovens era evidente na caldeirinha da água benta e na campainha; o Neca era useiro e vezeiro em passar pelo padre Adriano e levar mesinhas para cativar a sua confiança e ser o escolhido. 

   Mas foi a minha tia Maria que me alumiou o futuro e falou das dificuldades de entendermos o íntimo das pessoas; porque todos temos virtudes e defeitos, nem sempre encontramos o que sonhamos e podemos sofrer desgostos e frustrações; dizia que a esperança e a fé devem ser os pilares da nossa força para caminhar, porque a vida é generosa e merece que a saibamos viver com recato e ousadia. Todos nascemos para aprender, estudar, trabalhar, amar e ser amado. Cada um à sua maneira, temos a pretensão de sermos felizes. Nesta senda da vida partilhada, o entendimento deve ser mútuo e em parceria verdadeira, franca e sem enredos. 

   Depois, foi a continuação dos dias de bruma, pelas ruas do Porto, nos bailes nas noites de folia; namoricos à porfia, encontros amorosos nos clubes como o Desportivo de Portugal, nos Fenianos ou no Mário Navega. As intimidades com as telefonistas do hotel; as arrelias com as ciumentas turistas francesas que levava a visitar a cidade e acabava em provas de vinho nas caves do vinho do Porto, do outro lado do rio Douro, em Vila Nova de Gaia.  

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   Na quinta do meu avô não faltavam fruteiras cheias de cerejas, ameixas, maçãs, pêssegos, castanhas e nozes. Havia uma nogueira mesmo junto à casa da eira, que o meu avô gostava de varejar e comer as nozes molares (fáceis de abrir com a mão). Muitos anos mais tarde, estive debaixo dessa nogueira, que tinha crescido e dava sombra para a eira, onde se comia nos dias de festa, em mesas feitas de tábuas soltas.

   Os galináceos, as ovelhas e os bois faziam parte da nossa prol de animais; nos dias soalheiros, eram levados para os pastos nos montes vizinhos ou nos campos da porta. Também havia coelhos que o avô oferecia aos netos como forma de os responsabilizarem na alimentação e criarem até estarem nutridos para os venderem e angariarem algum dinheiro.

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   São estas memórias que me alentam e confortam depois de muitos anos a deambular pelo mundo, muitos dias de incertezas no meio das guerras em Angola e Moçambique, nas missões de reportagem nas guerras do Vietnam, Líbano (duas vezes), Caxemira, Kosovo, Bósnia, onde o futuro era uma escuridão e a vida uma lotaria. Muitas canseiras no aperfeiçoamento profissional, na criação dos filhos, nas coleticvidades que dirigi, nos empreendimentos desportivos e cooperativos que participei, nos convívios que organizei e nos eventos solidários que abracei.

   Muitos anos de preocupação e luta pela causa dos Antigos Combatentes traumatizados pelas sequelas da guerra, em condições de dificuldade e perigo. Os convívios e encontros são a melhor terapia para minorar o stress de guerra; assim, enquanto tiver capacidades para continuar, estarei ao serviço dos meus camaradas Combatentes, sugerindo melhorias de alimentação e outras formas de atenuar o desgaste e manter o corpo em forma, especialmente na imunidade física.

   Sempre atento e militante por natureza, com base na minha capacidade e experiência bioquímica, que ajudou a vencer dois cancros que me atormentaram durante dois anos, tive a ousadia de tentar melhorar os tratamentos oncológicos no Hospital de São João e IPO do Porto, onde, durante oito anos, fui voluntário interventivo, criei e orientei um programa de apoio na recuperação física e mental dos doentes em fase de tratamentos intensivos, fazendo visitas aos parques da cidade e ministrar sessões de Hatha Yoga e meditação transcendental, terapias essenciais para lidar com a doença mais prolongada e desgastante. A vida vale sempre a pena, enquanto não se apague a luz.

   Vila Nova de Gaia, 29 de Março de 2024

    Joaquim Coelho

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sábado, 19 de agosto de 2023

Viver com Esperança e Sorte

ATRIBULAÇÕES CONCERTADAS

Ninguém nasce destinado ao sofrimento e à privação da liberdade. Todos nascemos para sermos felizes!

Se perdemos o entusiasmo pela vida, corremos o perigo de entrar numa onda de desânimo e seguir os caminhos da escuridão. É o entusiasmo que nos faz seguir em busca do objectivo digno que nos preencha a vida por inteiro, sempre com esperança de melhores dias. Os valores humanos são a base para uma felicidade plena.

Investi a vida numa jornada de protecção da Natureza humana, aliviando as mentes obscurecidas e desenvolvendo acções de proximidade com fins propícios ao cultivo da camaradagem e da grata amizade. Sempre na senda da sociedade fraterna e inclusiva, fomentei a cultura com fundamento na capacitação dos valores solidários e partilha do saber generalizado, tanto de afrirmação pessoal como profissionalismo produtivo, dentro do conceito da felicidade plena. Mas nunca deixei de cultivar o saber e adquirir conhecimentos úteis e reconfortantes para uma vida feliz. Talvez seja um sintoma de irreverência, mas faz parte de mim.

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Passei por difíceis bifurcações na vida, em parte compensadas com uma melhoria substancial! Eis alguns episódios:

1º - Quando tinha cinco anos, o meu pai entregou-me uma arma de caça para levar a um “ferreiro” para desencravar um chumbo de zagalote; sem saber como, mexi no gatinho que disparou e a bala furou-me o pé esquerdo; fui socorrido pelas empregadas do Dr. Campos, nosso vizinho, que fizeram os curativos, como era habitual!… depois de curado e alimentado com um bife, apareceu o meu pai, com ar de zangado, mas elas protegeram-me e não o deixaram entrar na casa; quando foram para a cama, duas delas despiram-se e brincaram à minha frente… eu não entendia, mas gostava de ver.

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2º - Depois de fazer sete anos, num despique com minha irmã Conceição, a apanhar pregos do chão, ela empurrou-me e caí de costas… levantei-me muito zangado e dei-lhe um murro na cabeça… tinha pregos na mão fechada, dois ou três ficaram espetados; começou a gritar… veio a mãe e foi curar-lhe a ferida, que sangrava; apareceu o meu pai, vendo que a tinha agredido, deu-me um bofetão que me atirou ao chão, pontapeou-me e feriu-me… chorava com dores e meteram-me na cama, em recuperação. A notícia chegou à minha madrinha, que vivia na quinta da Vila – Termas de S. Vicente, com mais um tio e os avós maternos… levou-me para lá. Gente mais culta e organizada, com melhor forma de vida. O avô ensinava e dava lições de vida aos netos… voltei à escola com muito sucesso, fazendo quatro anos de escolaridade em, apenas, dois! Cresci lesto e saudável para melhor enfrentar a vida.

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3º - Andava no Colégio João de Deus e fazia coisas lindas: tocava o órgão da capela, aprendi a fazer galenas (rudimentar rádio-receptor auto-alimentado) que vendia aos alunos e ganhava bom dinheiro! Os directores descobriram, deram-me castigo com registo na caderneta! Depois, um vigilante deu uma bofetada num aluno, sem razão; tiramos desforra agredindo o gajo… fomos apanhados e expulsos.

O director do Grande Hotel do Porto, pai de uma das minhas professoras, vizinho e amigo do meu pai, sabendo da situação, deu-me emprego no hotel, como ascensorista… passei a ganhar dinheiro, continuei a estudar e deram-me formação de “guia-Turístico” em Londres. Tive sucesso e conheci novos mundos e outras formas de vida.

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4º - Devido ao começo da guerra em Angola, fui desviado da especialidade de Controlo de Tráfego Aéreo para a polícia aérea da Força Aérea… preparava-me para desertar… já na Base Aérea 3 de Tancos, encontrei um camarada do Colégio João de Deus, oficial pára-quedista… disse-me que desertar era não ver mais a família… aconselhou-me e fui para pára-quedista… um  mundo de aprendizagem fascinante e escola de vida… mais tarde, avancei para a guerra, mas bem preparado.

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5º - Em Moçambique, afrontei a hierarquia, com razão… estive detido na ilha do Ivo devido a uma participação maliciosa de um oficial! Reclamei ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea um Inquérito, que foi realizado… mais de 150 camaradas de armas ofereceram-se para testemunharem a meu favor… espanto geral! Os oficiais, cagados de medo do previsível “conselho de guerra”, concordaram em arquivar o inquérito… o comandante Seixas mandou-me de férias para a Europa.

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6º - Num treino de paraquedismo desportivo, fracturei a perna esquerda e tornozelo com fractura exposta… dois meses internado no Hospital de S. João, onde uma gangrena complicou a recuperação; a equipa médica deu conhecimento a minha irmã Margarida que teriam de amputar o pé… sem que eu soubesse! Percebendo a gravidade, consegui mobilizar o Enfermeiro de serviço no fim-de-semana (meu conhecido por prestar serviço no posto de socorros da Siderurgia Nacional); tive a sorte de ele aceitar fornecer produtos e ajudar na administração de um preparado estudado por mim, à base de bacteriostáticos e anti-sépticos, de modo a limpar a parte do pé gangrenado; após duas horas no posto de curativos, o pé parecia estar livre da podridão. Na observação médica da 3ª feira seguinte, optaram por continuar os curativos. Com determinação e sorte, consegui ficar com os dois pés! Estou muito grato às minhas irmãs: Margarida e Conceição, pelo seu empenho no apoio e ajuda durante o internamento e recuperação, bem como aos Amigos incondicionais... e Alunos, a quem ministrei Cursos de paraquedismo desportivo, que me confortram com suas visitas.   ....Coelho-acidente.jpg

7º - Nos dezoito anos de trabalho na Siderurgia Nacional, tive diversas divergências com o director Doutor Mexedo, em parte, por combater uma forte rede de corrupção que delapidava os dinheiros da empresa. Farto daquilo, queria sair com indemnização… convocado para uma reunião com o Director, levei uma granada no bolso e coloquei-a em cima da secretária… o homem fugiu a gritar… alegando que o queria matar; seis meses depois, recebi a melhor indemnização daquele tempo. Passei a independente… liberdade de acção e bons ganhos monetários… até ser ludibriado pelas máfias na Alemanha, quando ajudava o meu irmão Fernando na reorganização dos seus trabalhadores lá destacados.

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8º - Decorria o ano de 2006... Fui à consulta médica saber se as análises davam o cancro como curado. Os médicos informaram-me que tinha outro! “o senhor está muito mal, talvez já não se aguente para além de três meses…”. Protestei que tinha trabalho para mais de vinte anos… tinha que viver!

Aproveitando os conhecimentos de bioquímica, fui à procura de médicos amigos… crente na possibilidade de fazer a quimioterapia que os médicos não aconselhavam!

Vagueei por aí… e quando descia a Avenida Visconde de Barreiros, na Maia, um automóvel parou de repente, ali ao meu lado… “olha o amigo do Saraiva! Ainda agora estive com ele… disse-me que você é um às na fotografia, entre aqui”… efectivamente, eu tinha um amigo “Saraiva” na Siderurgia Nacional… e entrei; mostrou-me uma maleta com máquina fotográfica… “cento e cinquenta euros e é para si”. Respondi que só tinha cem euros… entregou-me a máquina e dois relógios de oferta! Estava com pressa, saí do carro… abri a maleta, porra! Fui enganado.

Meio incrédulo com o acontecido, virei para circular por cima do Venepor, a ver montras… nem queria acreditar, na montra duma farmácia vi um AVISO: “fazem-se análises a tal e tal… concentração de células cancerígenas, plaquetas e hemoglobina.” Pensei: tenho o problema do controlo da quimioterapia particular resolvido, disse para comigo! Com os médicos Amigos e um Enfermeiro do Posto de Saúde de Ermesinde, avançamos com as sessões (à minha maneira) e, dois meses depois estava livre de células cancerígenas!

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Confirmei que, muitas das nossas quedas, são seguidas de um novo impulso, mais vigoroso e triunfante.

Mas, ao observar a sociedade, senti um grande infortúnio e desapontamento - encalhei nos rochedos do pensamento, ao indagar porque há tanta gente que enriquece sem trabalhar e muitos outros a espalhar tenebrosas maldades!

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A vida na sociedade mecanizada é como navegar em mar revolto: é preciso inteligência e determinação para sobreviver; sabedoria para ganhar; garra para o sucesso; e, quem não lutar arduamente, arrisca-se a ficar na berma do caminho, na iminência de cair na sarjeta e sentir amarga derrota.

Portanto, temos que manter viva a esperança… e continuar a CAMINHAR; há sempre uma hora mais favorável e com vento de maré, para um novo impulso!

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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Memórias dos Amores Tropicais

   PERDULÁRIOS DO AMOR

   Quando dou guarida ao raciocínio lógico algo me diz que qualquer coisa está para acontecer na minha vida… porque, muitos episódios passaram por mim e a memória os deixa escapar em cada dia que me encontro barricado na recordação dos abrigos do tempo da guerra em África. De repente, surgem as imagens, muitas e claras, que me fazem sentir saudades de alguém com quem partilhei momentos de ternura e também sentimentos de amor. Foram dias e anos de conflitos entre a ternura, o amor, a camaradagem e a guerra. Mas eu sabia que tinha um destino e que a vida não iria ser fácil; por isso nunca desisti de equilibrar os sentidos até ao dia do regresso.

   Eu gostaria de ter vivido uma vida mais recatada, mais próxima das minhas raízes, sem ter que desenterrar as tristezas dos dias amargos passados no meio das matas e das savanas cheirando a guerra que deixou cicatrizes que jamais se escaparão da memória. Para fugir à psicose dos traumas da guerra, onde vi os amigos e companheiros a morrer sem que os pudesse salvar, porque os meios eram escassos e as distâncias dos locais de apoio eram impossíveis de vencer sem aeronaves adequadas, tive que aventurar-me nas viagens sem destino, passando por locais imprevistos. Foi uma forma de escapar à desgraça dos traumas, escapulindo-me para as pistas de aviação por onde passavam táxis aéreos pilotados por antigos companheiros da Força Aérea; aí, pacientemente, esperava boleia para qualquer ponto de África! Com a anuência dos comerciantes que contratavam os serviços dos aviões, percorri muitas dezenas de locais da imensa terra africana a sul da linha do Equador. Foram experiências de extraordinárias viagens de aventura e recreio onde aprendi a amar a natureza e as mulheres com seus matizes indecifráveis, respeitando os valores da amizade e da partilha.

 


   Em certas ocasiões, nessas viagens de destino incerto, me interroguei se não seria estupidez embarcar no avião sem saber para onde ele ia. Enquanto esperava na solidão das pistas do interior, olhava em todas as direcções e não vislumbrava motivo para aquela apetência de viajar na aventura do desconhecido. Algumas vezes, fui enganado! Se pedia para ir a determinado local, porque tinha interesse em fazer reportagem, o piloto dizia que sim senhor, ia para lá… mas só depois de passar por outros locais do seu interesse e, quantas vezes, em sentido oposto à direcção que eu pretendia seguir. Nunca podia levar as coisas muito a sério – aventura é aventura, e valia a pena!

Quantas vezes, as demoras nos percursos indefinidos comprometiam as reportagens que tinha planeado com vista a colaboração com os jornais “Notícias da Beira” e “Diário de Moçambique”. Foram casos raros, mas aconteceu chegar aos locais dos eventos depois dos mesmos terem terminado; foi o caso duma reportagem sobre um Torneio de Pára-quedismo na Rodésia do Sul (no governo de Iam Smith).

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   Lembro-me de ter sentido saudades das namoradas; isso motivou uma viragem na minha forma de convocar o amor para me aliviar as dores da guerra. Começava a detestar a guerra que já me causava indignação por causa dos interesses estrangeiros nos territórios ultramarinos portugueses; para não afrontar os colonos com essa realidade, apoiei-me nas amizades com ternura. Ou seja, depois dos dias frustrantes e dolorosos passados em missões de combate nas longínquas terras do norte de Moçambique, comecei a aproximar-me mais das moças da Beira, mantendo um namoro saltitante até encontrar uma jovem que não levava o namoro a sério, mas me fascinava pela simplicidade do comportamento e pelos momentos de carinho que me ajudavam a manter o equilíbrio emocional e a mente a funcionar com todos os neurónios; a sorte foi tanta que a própria família me adoptou no seu ambiente de amigos.

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   Há episódios que não sei explicar, mas que criaram um ambiente bastante apelativo às cenas de ternura envergonhada. Em determinados dias da semana, era costume da casa dessa família de “acolhimento” fazer bolos para o fim-de-semana. Pois, sendo bioquímico, participava com sugestões de novas receitas que nem sempre resultavam muito bem. Essas experiências na cozinha criavam um clima sensível aos toques carinhosos que se prolongavam com sensualidade nos rostos envoltos na farinha e no açúcar, ingredientes dos bolos. É por isso que sinto saudades desses tempos que marcaram bem a minha vida e fazem parte das minhas memórias. A simplicidade misturada com muita ternura proporcionava gostosos momentos de amor.

Estes sinais de vitalidade fazem-me acreditar que a vida vale sempre a pena, mesmo que o destino nem sempre seja direccionado para a fortuna. Que mais posso desejar do que a saúde para saborear os gestos de amor e viver a fantasia dos dias bem vividos junto de pessoas que nos são afins.

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   Será o destino um flagelo que me acompanha de braços abertos em comunicação com os desprotegidos? Eu perco-me no emaranhado dos inesperados problemas, olhando em redor, e nada encontro que alimente o sentimento que sinto por ti.

Assim, vou seguindo o sentido do tempo em que o sol nos contemplava nas terras da Beira - tão ingénuos e castos.

Lanço minhas preces ao céu que tudo abarca e não sei onde estás. Mas sigo meu sortilégio ao encontro dos sonhos que as noites tropicais nos proporcionaram, os toques das nossas peles ternas e cálidas ficaram como o estigma das sensações que nos refrescaram a alma e fizeram de nós uns simples perdulários do Amor! Tanta luz e tanta ternura que nos fascinou até que perdemos o rasto de nós próprios. Em qualquer parte deste planeta, temos que ser felizes. E somos Felizes!

Na contemplação destes espaços que a natureza me faculta sem nada me pedir, tento memorizar as emoções e ascender ao mundo excêntrico dos sonhos prismáticos, onde possa sublimar os desgostos, depurar todas as misérias que a guerra nos traz e absorver a ternura dos olhos das crianças inocentes.

O regresso chegou em dia de Primavera, logo todo o horizonte se engalanou florido e promissor com esperança de dias mais airosos. O meu fadário foi bem recheado de acontecimnetos na evolução dos sentimentos e das convicções que me conduziram até ao cimo da colina. Daqui vejo todos os Amigos e camaradas de todos os tempos e posso contemplar as estrelas que nos alumiam os caminhos com alegria e contentamento, por merecemos essa dávida dos deuses.

Vila Nova de Gaia, 20 de Julho de 2019

Joaquim Coelho

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POST-SCRIPTUM:

Muitos anos depois, encontrei a “menina” que me ajudou a combater os dias de angústia. Lembrando os tempos desse aconchego, ambos sentimos saudades dos ditosos dias de fazer bolos. Com uma expressão carinhosa, foi dizendo que nunca esqueceu os “miminhos” que lhe proporcionei e os bolos que saíram mal. Ah que saudades! 

                                                  Joaquim Coelho

In livro "Apologia do Romântico", de Joaquim Coelho

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terça-feira, 18 de julho de 2023

O Tempo em Movimento

Olhando o Tempo

     Incrédulo e descrente com as obscuras obstruções à nossa liberdade de circulação, à laia de “confinamento”, decretadas pelos poderosos senhores do mundo, vislumbro desastrosos resultados na saúde mental das populações e graves tormentos na vida quotidiana. Enquanto as televisões lançam notícias alarmantes a importunar a nossa paz familiar, proibindo os convívios com os amigos, passei pela salutar atmosfera do Monte da Virgem e sentei-me à sombra do monumento da Nossa Senhora Imaculada Conceição, para meditar serenamente sobre o que está a acontecer na minha comunidade e no mundo. Como passamos pelo tempo sem nos apercebermos do que nos resta, vale a pena fazer um intervalo e pensar.

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    Com outros companheiros de jornada solidária, andamos em grande correria no socorro aos aflitos que não encontram os necessários medicamentos na sua zona de residência, enquanto outros já esgotaram as reservas monetárias para a alimentação e gritam por quem lhes leve uma simples refeição diária. Isto acontece desde Maio de 2020, e as instituições públicas continuam no marasmo habitual!  

O tempo passa e desgasta; mas não esqueço que é o meu “dia de aniversário” e conforta-me saber que muitos dos Amigos e Familiares que, no ano passado, fizeram parte dos mais de 160 convivas presentes na “Festa dos 80 anos”, afrontaram o confinamento e organizaram um “Almoço-Convívio”, com acompanhamento musical, em homenagem ao meu contributo para o Estatuto dos Antigos Combatentes. Pois, é caso para dizer que não conseguimos salvar o mundo… mas não desistimos.

   Como já não tenho tempo para confortar todos os que sofrem de injustiças nem de doenças fatais, continuarei a usar o tempo para encontrar e confortar todos aqueles que fizeram parte da minha vida e ainda me acompanham. Durante os seis anos de "Voluntariado" no apoio a doentes oncológicos do IPO e Hospital de São João, no Porto,   encontrei as mais complicadas situações psicológicas em pessoas fortes e resilientes na luta pela vida; mas também encontrei pessoas de tal modo fragilizadas e perdidas sem esperança! Sempre tive um rasgo de energia capaz de confortar e animar na convicção de que a esperança é sempre a ultima a morrer.

   Cheguei ao cume do meu tempo sem sentir o cansaço da longa jornada; mas tenho a certeza que não terei tempo de realizar todos os projectos que me animam na caminhada da vida.

   Foram tantas as realizações com dedicação e empenho na perfeição do possível de mim, mas nem sempre o proveito me foi favorável. Talvez tivesse andado demasiado ocupado numa aprendizagem permanente, sempre com sentido prático nas actividades profissionais e nas colectividades que ajudei a desenvolver na comunidade, com satisfação e proveito para os meus contemporâneos.

   Nunca tive pressa de alcançar os objectivos, porque o conhecimento era o princípio da certeza na plena realização de trabalhos grandiosos. Sempre assumi as responsabilidades e dei o meu contributo com naturalidade e fiz acontecer as premissas que levaram à satisfação dos sonhos dos meus semelhantes. Nunca senti o peso dos sonhos nas decisões que me conduziram à sua concretização, porque as obras eram de monta e havia dezenas de famílias à espera de entrarem para a sua nova casa, na cooperativa a que presidi com dedicação.

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   Não tenho razão para sentir saudades do que quer que seja e muito menos nostalgia, porque sempre vivi com plena consciência dos parâmetros que balizam as nossas vidas. Vivi intensamente cada momento da minha vida, porque sempre abracei várias missões, em simultâneo, sem me deixar perder no rumo das realizações convenientes para as pessoas com quem partilhei grandes alegrias e algumas incertezas.

   Como não sou imortal… olho o horizonte com a lucidez de quem sabe que a morte é um fim necessário para nos fazer temer chegar à terra fria sem decoro e sem mácula, sabendo que todos sofremos de alguma imperfeição.

   Tenho plena noção da falta de afectos que desanimam qualquer mortal que se preze, embora não me possa queixar; mas, de tempos a tempos, sinto vontade de reunir todos os meus Familiares, os meus Amigos de todos os tempos, os meus colaboradores, os meus mestres, os meus chefes para, numa salutar saudação à VIDA, cantarmos o hino da alegria e festejarmos o reencontro das nossas recordações.

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   Tudo quanto realizei, foi em prol duma sociedade verdadeiramente humanizada, onde todos vivam plenamente felizes. Dei os meus contributos com sentido de solidariedade, mas nem sempre alcancei as metas que me propus atingir. Como os demais seres humanos, também sou falível e perdulário. Perdoar-me-ão a idolatria da perfeição, mesmo que me possam apontar falhas de lucidez; sempre soube apetrechar-me das necessárias ferramentas para levar por diante as minhas realizações com reconhecido sucesso. Sendo activista por natureza, sempre fugi à bajulação, mesmo sabendo que os invejosos e os gananciosos me poderiam atrofiar. Daí nada a apontar, porque sempre saí dos apertos com a mestria de um vencedor providencial.

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   Aos meus Amigos mais próximos; aos meus queridos Filhos e demais Familiares deixo um fervoroso recado: com a arma da lucidez e com a firmeza do caracter, tomai cuidado com os invejosos, perigosos como os lacraus; apetrechai-vos de sabedoria, para evitardes os sedentos de bajulação; sede firmes e consistentes na defesa das vossas convicções adornadas de bom senso, para que o futuro vos sorria.

   Sem temores e sem remorsos, continuarei a caminhada, enquanto vislumbrar a luz que me encanta no horizonte longínquo, porque o futuro é já ali.

V.N. de Gaia, 21 de Julho de 2020 

                  Joaquim Coelho

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APOLOGIA DOS AMIGOS

Apologia da Coragem

   Porque as vivências do Joaquim Coelho, nas guerras ultramarinas, foram muito mais alucinantes e atractivas do que a normalidade dos combatentes empenhados numa guerra de imprevisíveis finalidades, por imperativo de consciência, mesmo correndo o risco de ser mal compreendido pelos meus camaradas de armas, entendi ser primordial importância proclamar a neces- sidade de aflorar questões inequivocamente incomuns mas complementares à ideia da publicação de extractos da vida de muitos camaradas e companheiros de missões militares nas guerras africanas.

Atendendo ao meu passado de graduado na Mocidade Portuguesa, onde aprendi a amar e defender os valores patrióticos, jamais a minha consciência permitiria apoiar acções ou testemunhar, sob palavra de honra, em quaisquer situações que pudessem causar danos à instituição militar da minha opção profissional. No entanto, porque sempre acompanhei e vivi de perto as atrib- uladas vivências do sargento Coelho, em grande parte, causadas por questões anómalas contra a sua salutar rebeldia e afrontamento dos poderes obscuros, tenho que reconhecer a abnegação, a coragem, o saber, a lisura de comporta- mentos e a solidariedade para com todos os seus camaradas de armas que a hierarquia tentava ofuscar e rebater.

Prestei o meu testemunho abonatório perante os censores que o quiser- am silenciar, cortando os textos que enviou ao jornal “Notícias da Beira”, por causa do manifesto ponto de vista sobre as populações “recolhidas” dos acam- pamentos que assaltamos em zonas de guerra. A verticalidade e coragem deste homem sereno manifestou-se publicamente no decorrer do “inquérito” disci- plinar que reclamou ao senhor Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, como forma de demonstrar a sua inocência e destruir a “tese maquiavélica” urdida na “participação” do tenente Castro Gonçalves, que atirava para o sargento Coelho as culpas do fracasso de uma operação de assalto a acampamento in- imigo na zona do rio Mulunga, estrada do Chai. Com aprumo e surpreendente sentido de humildade, soube ultrapassar a tentativa de “humilhação” prognos- ticada pelo comandante de batalhão, tenente-coronel Argentino Seixas, que o proibia do uso de armas militares, enquanto decorresse o inquérito disciplinar. Por ironia, afrontou tal determinação fazendo uso de uma pequena pistola civil, que exibia airosamente num minúsculo coldre à cowboy! Retirado  dos combatentes operacionais, cumpriu com extraordinária dedicação o dever de vague-mestre, durante sete meses, proporcionando aos seus camaradas, em operações, alimentação e apoio logístico com qualidade e atempadamente.

Só um homem com a calma e inteligência do Joaquim Coelho poderia desembaraçar-se de situações complexas em que se envolveu: A forma eficaz como interveio na deserção de militares da Força Aérea da Zâmbia, onde me envolveu, juntamente com o Vicente e o Figueira, na segurança do aeropor- to de Lourenço Marques, para aterragem e recolha do avião Dakota com de- zoito pessoas zambianas; a maneira como se safou das sanções da PIDE, por lhe terem apreendido o passaporte, quando requereu a deslocação à Zâmbia (acabou por fazer a viagem clandestinamente); o seu discreto relacionamento e aparente colaboração com o Engenheiro Jorge Jardim, para que tivéssemos melhores condições de alojamento dentro da Base Aérea 10, na Beira, são ex- emplos que nos surpreenderam, porque denotam conhecimentos e tendência para acções aventurosas, mas humanistas, sigilosamente ponderadas.

Com uma força moral superior, suplantou as mais difíceis condições de vida nos momentos em que muitos de nós esmoreciam sob o peso das responsab- ilidades de termos mulher e filhos na metrópole, ou por vermos morrer os nossos camaradas feridos, por falta de condições de evacuação e assistência médica. Foi notável a sua resistência ao sofrimento, após a primeira embosca- da no Vale de Miteda; embora fisicamente combalido nas costelas e na perna esquerda, deu primazia à evacuação dos restantes feridos, seguindo apeado até Miteda, onde ficou, com mais quatro camaradas, em precárias condições de saúde; providenciou a evacuação de todos para Mueda, através dos seus amigos pilotos da Força Aérea. Por o ter feito à revelia dos chefes de operações, teve que responder a um inquérito disciplinar absolutamente incrível, em que foi relator o major Mensurado, seu “amigo” desde Angola, sobre o qual havia suspeitas de ser “agente” da Pide, dentro dos Pára-quedistas.

Enquanto estivemos deslocados no deserto de Nacala, o Joaquim Coelho organizou partidas de futebol e de ténis; marcava horas para discutirmos e analisarmos a situação da guerra e melhorar o ânimo perante a conjuntura; com o sargento Magalhães da Mota, formou turmas e ministraram aulas aos interessados; com seus trinados na viola, dava-nos o bailinho da Madeira; com fios eléctricos, engendrou uma grande antena triangular onde captava emis- soras portuguesas, com um simples rádio de bolso. Nas semanas que perman- ecemos em Nacala, entre duas intervenções operacionais no Norte, tais activ- idades serviram para minimizar o desconforto pela perda de quatro soldados (Madriana, Farelo, Sousa e Pinto) mortos nas operações entre Nangade e o Vale de Miteda, em condições que nos deixaram marcas para o resto da vida.

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   Não fora a sua natural perspicácia, sabedoria das normas militares e con- hecimentos de política internacional, de pouco lhe teriam valido as dezenas de voluntários que testemunharam a seu favor, quando alguns oficiais imprevi- dentes, com passado nebuloso e pouco recomendável, lhe moveram processos disciplinares injustos e o quiseram aniquilar nos confins da ilha do Ivo. A sua serenidade, os seus préstimos a todos os camaradas de armas, legitimados pela condição de disponibilidade para ajudar em quaisquer circunstâncias, no mato ou no quartel, aliadas à confiança na sua indomável força de comando, fizeram do meu amigo Joaquim Coelho um homem respeitado, exemplo de modéstia e humanismo, digno de elevado apreço entre os que com ele partilharam ex- traordinários momentos da vida.

- Amigo Joaquim Coelho: Por todo o teu empenho em dignificar as causas nobres da sociedade; por todos quantos usam a Boina Verde, até por aqueles militares do Exército destacados nos aquartelamentos isolados do mundo, a quem prestaste ajuda alimentar e moral; pelas tertúlias de séria reflexão sobre o futuro; por tudo quanto sacrificaste dos teus tempos de lazer, o meu bem-ha- ja e que o sucesso jamais te seja recusado. Apesar dos dias de inquietação que tramaram o teu percurso militar, pela temperança e ponderação que sempre demonstraste perante o perigo, o meu eterno reconhecimento. As elevadas capacidades intelectuais demonstradas nos cursos que concluíste, bem como o teu sucesso profissional, confirmam que nunca precisaste de estar refém das apreciações castradoras do “aprumo militar” feitas por oficiais que incomoda- vas com a tua natural verticalidade e determinação. Obrigado por continuares firme nas convicções e por partilhares connosco situações e vivências que mar- carão a história do nosso tempo. Os nossos filhos e netos merecem saber algo mais sobre as nossas vidas em terras ultramarinas.

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                     Tancos, 23 de Maio de 1991

                              Franklin Branco Armindo (Tenente-coronel Pq)

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domingo, 23 de abril de 2023

Os Livros - Fontes de Conhecmento

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A leitura é fonte de conhecimento que ajuda a libertar a mente e a vencer com sucesso.

O mundo precisa de mais gente com coragem para mudar, gente louca que avance contra as injustiças sem olhar aos juízes que nos julgam com o sentimento farisaico dos deuses endeusados à servidão dos poderosos e do vil dinheiro. Precisamos urgentemente de gente corajosa, gente que se desprenda do sofá e venha para a rua protestar contra os vilões que nos atrapalham a vida e corrompem os dias de esperança. Segue o teu caminho como sendo construído por ti, busca a felicidade dentro de ti próprio para a poderes partilhar plenamente.

A mais eficaz protecção dos nossos direitos está no grau de conhecimentos que possuimos.

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