quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

COVID-19, Solidariedade Incondicional

CRÓNICA do CONFINAMENTO - QUIETUDE MARAVILHOSA


Mas que quietude maravilhosa bela e doce encontro junto à capela do Santuário da Senhora da Conceição, no Monte da Virgem. É um prazer reconfortante passear à volta da capela e sentar nos degraus que circundam o monumento à Santíssima Padroeira de Portugal, onde absorvo a vitamina D que o Sol me dá com a bondade de um astro rei.


Além de me recompor do desgaste nas missões que me são habituais, recarrego energias complementares para prosseguir nas minhas canseiras com os desprotegidos que nos gritam, desesperados, pedindo socorro para os seus males, agravados com as perdas de rendimentos, sedentos de comerem uma refeição decente; pois, os salários abruptamente cortados lhes trouxe a fome e o tormento desesperante de se verem à porta da pobreza. Muitos destes infelizes, perdidos nos labirintos duma administração pública tacanha e desumana, sentem o agravamento das suas doenças e padecimentos, porque deixaram de ter dinheiro para aquisição dos necessários medicamentos. Tenho a sorte de trazer comigo os Amigos voluntariosos, que se revezam no apoio aos mais carenciados, o que muito me conforta e fortalece.


Assim reconforto a mente para atenuar os terríveis efeitos da clausura forçada institucionalmente pelos poderes ocultos! A pretexto da propaganda da pandemia que o coronavirus espalha ardilosamente, as pessoas deste planeta único e inigualável, temporariamente paralisado e agradecido pela diminuição da poluição que tanto aflige os poderosos dominadores das nossas vidas, não se dão conta da tragédia que se aproxima.


Olhamos para as localidades que rodeiam este lindo monte e vislumbramos os dramas que se abatem sobre as famílias confinadas e desprotegidas, vivendo à míngua de escassas ajudas que ainda temos prestado na linha da solidariedade dos membros do MAC – Movimento Cívico de Antigos Combatentes. Com esforço particular de um escasso número de pessoas, conseguimos colmatar a falta de medicamentos em Farmácias locais, além do fornecimento de refeições a algumas famílias, com especial atenção aos Antigos Combatentes.


Do alto deste monte acolhedor vemos, a norte, a imponente Ponte de São João, obra grandiosa do polémico e determinado Engenheiro Edgar Cardoso, por onde não passam comboios por estarem confinados às estações de S. Bento e Campanhã. A determinação oficial confinou as pessoas, imobilizou os meios de transporte e deixa um previsível futuro de desgraça social e psíquica.


Chegado à Ponte do Infante, sinto receio de entrar na cidade do Porto, tal é a determinação das autoridades em nos manietarem e ameaçarem com represálias e multas. Aproveito para olhar as águas serenas do rio Douro, sem vislumbrar qualquer viatura ou pessoas por estas paragens com vistas para as cinco pontes que embelezam esta invicta cidade paralisada. A rigidez das regras deixou as pessoas reféns da paralisação dos transportes, isoladas nos seus aposentos, resilientes no consumismo desenfreado, com o futuro empenhado.


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Ah, como sinto esta brisa suave que me purifica os pulmões e o sol a alimentar o sistema imunitário com esperança de nunca ter encontros indesejáveis com o tal coronavírus que tantos estragos está a provocar no nosso descanso e desconcertante modo de vida. Só que, o prolongamento do confinamento trará um rasto de fome e de miséria e muita gente com a mente gravemente perturbada, com sequelas mentais e físicas incalculáveis. 


Custa-me aceitar que as mentes luminosas do poder não entendam o descalabro que estão a provocar na economia, na vida das empresas, nos empregos e na vida das pessoas. Por causa do confinamento e das restrições nos tratamentos de outras doenças, tenho médicos amigos a confirmar a multiplicação de mortes fora do mal do coronavírus. O medo apoderou-se das pessoas e muitos deixaram de recorrer aos meios de tratamento: uns porque estão com medo do vírus, outros porque os postos de Saúde não atendem ninguém.


Bem, o sol começa a entrar no crepúsculo e já desceu abaixo do horizonte do tabuleiro superior da Ponte D. Luís I. A brisa começa a esfriar e convida ao regresso a casa onde, mais uma vez, terei que preparar a agenda para continuar a prestação de ajudas nos próximos dias, especialmente em medicamentos e refeições que compramos com as nossas posses económicas ao serviço da Associação MAC, enquanto não se esgotem as reservas que angariamos, na venda de livros e ajudas de voluntários.


Cuidem-se e mantenham firme a esperança de que todas estas restrições, em modo ditatorial, terminarão e voltaremos a sentir os benefícios da liberdade e dos convívios de sã camaradagem.


Vila Nova de Gaia, 21 de Maio de 2020


Joaquim Coelho


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NOTA de Apresentação de Vídeo improvisado no Monte da Virgem, em dia de Confinamento COVID-19, com a natureza fico mais aliviado das tarefas de apoio aos Amigos em dificuldades -  Clik para VER:


https://www.facebook.com/joaquim.coelho1/videos/10221924484998247


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Recordar com Alegria

Tempo de Nostalgias e Memórias


A quadra natalícia tem a magia de nos lembrar tempos dos inesquaecíveis ajuntamentos das famílias; tempos de dedicação à família, mesmo distante, havia o calor da proximidade e o afecto das saudades nos encontros para festejar o Natal. Aos Amigos de todos os tempos, aos familiares em qualquer parte do mundo, deixo os votos de Festas Felizes na serenidade dos convívios possíveis entre os que estão próximos. Com um percurso e estadia em mais de 58 países, com climas extremos, (entre os -30 a +45 graus de temperatura), não estranho as mudanças de clima, mas lembro que é preciso cuidado nas mudanças bruscas. Embora as restrições estejam a aumentar, tenhamos artes de adaptação sem dramas, para a vida continuar a fluir naturalmente, com bons momentos agradáveis e felizes.


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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

25 de Abril Esmorecido

Liberdade, liberdade!


Mas o que é a liberdade?


Ora, entendo como liberdade a condição pura de dispor de todos os pensamentos. recursos do saber e psíquicos para escolher os mais prazerosos e os melhores caminhos na condução da vida com sentido prático e solidário com os demais seres que nos rodeiam. Condição essencial para uma vida naturalmente feliz. Ninguém consegue ser feliz sozinho!


Mas, atendendo às naturais resistências à mudança de mentalidades formatadas consoante os interesses dos detentores do poder consolidado, teremos de saber contornar os obstáculos inerentes ao status qua da sociedade, bem como estarmos munidos de sabedoria capaz de enfrentar e vencer os imprevistos obstáculos que vão aparecendo no nosso percurso.


Antes de mais, é preciso muita coragem e resiliência para levar de vencida qualquer tentativa de mudança do sistema instalado com tiques de opressão das vontades e devorador de ideias inovadoras individuais. Logo, ninguém conseguirá ser libre se tiver medo. O medo é sempre um sinal de fraqueza e condição para a derrota.   


Mas, mais perigoso do que o medo é o imobilismo dos acomodados, porque, além de nada produzirem para a mudança, criam barreiras de inércia difíceis de ultrapassar, com a agravante de induzir a ideia de que está tudo bem assim…


Nunca me recusei a ajudar os desfavorecidos, porque toda a gente faz parte do meu mundo. Embora, no meu percurso de vida interventiva, já tenha sentido a ironia lisonjeira da frase “solus non potes mutare mundum ” (sozinho não consegues mudar o mundo), que me incomodou quando proferida por um director-geral de empresa de dimensão internacional. Pois, sou pelos cidadãos de todo o mundo “Cives totius mundi”.


Vila Nova de Gaia, 25 de Abril de 2019 - Anno domini: No ano do Senhor.


Joaquim Coelho


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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A Guerra do Ultramar em Derrocada

ROMPIMENTO com a MEMÓRIA


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Estamos num tempo em que a verdade conflituosa dos dias da guerra aumenta o desgaste do corpo e amofina o espírito que se pretende afirmar como referência moral na defesa duma causa obsessiva, mas que já não merece credibilidade na razão do combate.


O problema está na forma apática que conduz ao regredir das boas razões da família ajustada ao obscurantismo aprazado.


O esquecimento dos valores, outrora impingidos como válidos, implica a desolação passadista e a narração de factos inverosímeis em afirmações desgarradas e sem nexo, mas exaltantes do efémero como memória dos grandes mentirosos - passado não presenciado!


Já não temos força anímica para combater o desalento, porque a vontade de lutar é traída pelas acções do mundo circundante que nos acolhe com rebentamentos de granadas PGR. Nem a tentativa de amarrar as pernas de carnes esfaceladas nos impedem de sentir o gemido destes soldados inertes, olhares vidrados e esmorecidos, onde o sangue já nem tem força para jorrar das feridas rasgadas nos seus corpos acabrunhados pelo peso da desgraça de morrer nestes prados perdidos nas matas do Vale de Miteda.


Nesta emergência, a vertigem que nos embrutece e absorve com seus tentáculos obscurantistas, só temos que lutar para manter a verticalidade algo oblíqua e enfrentar o destino com a coragem de fugir do inferno - este!


Os discursos de circunstância, na condecoração a título póstumo, não conseguem o acolhimento capaz de revitalizar a vida destes heróis inexistentes, porque estão mortos, e a inércia do sistema esbarra na fachada do regime cuja essência nos oprime e rejeita, porque a razão histórica nos remete para as veredas do subdesenvolvimento pessoal e patriótico, culminando na obscuridade cultural que nos impingem. Não é esta fatalidade histórica que nos maltrata como seres despidos de sentimentos que nos faz sofrer, mas, antes, a devastação ideológica que nos afecta o desejo de avançar com qualquer projecto humanizante e racional e reparar os estragos duma guerra que nem sabemos porque a fazemos. Só esta forma de questionar o pensamento nos chega para viver a realidade com a razão de que ninguém nos pode destruir e, enquanto estivermos vivos e formos seres pensantes, jamais seremos remetidos para a sarjeta dos colonialistas empedernidos.


Estamos afectados pela angústia da descrença que nos persegue em todas as emboscadas que resultam na perda de alguns companheiros abatidos sem um gesto de reacção ou mutilados na escaramuça dos rebentamentos. Embora os mistificadores da razão patriótica se mobilizem na maldosa balela dos acólitos do poder, não nos sentimos enganados... apenas nos deixamos embriagar nas doçuras do prazer do álcool e das virtudes sensuais das mulheres que nos esperam no regresso das semanas relevantes da vida no mato. Sem ideologias e sem força para protestar, vamos sendo ofuscados pela solidão colectiva, acabando por sucumbir à vontade de vencer a ignorância e colher os frutos generosos da geração tragicamente condenada à frustração ou ao enigma duma viagem-prémio de qualquer governador colonial.


  Assim, perante a inevitável desgraça desta realidade, o maior drama da nossa vida de combatentes garbosos e patriotas é ver o esfacelamento gratuito dos corpos do Pinto “cuécas” ou do Farelo e o aniquilamento do Madriana e do Sousa, consequência de dolorosos pesares para os seus familiares; e para maior desgraça nossa, damo-nos conta da nossa fragilidade de seres humanos normais que não sobrevivem à perfuração dos seus corpos quando atingidos pelas balas traiçoeiras, porque também somos mortais - facto que o treino de combate mais aperfeiçoado não consegue ultrapassar a condição material da vida que necessita do sangue para continuar a alimentar o circuito biológico com vida.


Então, o sentido das proezas do soldado, tido como o melhor da pátria, começa a desvanecer a imagem da sua fraqueza quando se confronta com a realidade destruidora de ideias ou das boas intenções; pois, o reflexo na engrenagem que se movimenta na retaguarda aniquila sem escrúpulos a razão dos bem-intencionados e destrói sem piedade a visão natural das coisas. Os choques amesquinham as pessoas imbuídas de vontade, cujos limites estão para além da dureza da vingança cega, destruidora da sinceridade do companheirismo e desafiando os raros laivos de coragem impulsiva. A repulsa alastra dentro de nós quando nos sentimos afundar no lodo do ridículo com olhares difusos, mas comprometedores perante os estranhos comportamentos da sensibilidade piedosa.


O testemunho das desgraças alheias vai tolhendo a imagem do soldado patriota e lutador, porque as balas não deixam remorsos quando atravessam o ventre das crianças inocentes e famintas, ou a farda dos soldados mais afoitos. Chegamos a um ponto de descrença nas instituições que fazem a guerra, que já nem as “capas de misericórdia dos Movimentos Femininos” conseguem sarar as feridas menos profundas do nosso corpo cavernoso, quanto mais diminuir a mágoa que vai no nosso espírito perturbado, como pretendem com as suas mensagens ocas e fantasiosas onde as alusões ao senso métrico não deixa de ser uma ilusão do desejo de quem não tem um rosto macio de mulher apetitosa mas um pensamento longínquo, capaz de se revelar nas sombras da memória da infância, e rebentar com as fechaduras da retenção do sexo enclausurado no vento libertino.


 A serenidade também pode amputar o pensamento e destruir a identidade dum homem injustamente espicaçado. E ninguém sabe como regressará, se um dia voltar à sua terra.


“Espicaçar a Memória Parda”


Nacala, Outubro de 1966


Joaquim Coelho   


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Memórias com Emoção

CAMARADAGEM  FELIZ


        A camaradagem criada em condições e tempos complicados, merece ser preservada e justifica as narrativas deste modesto livro “Guerra Armadilhada”. As situações, nem sempre inesperadas, recomendam uma leitura de reflexão; pois, a lógica do absurdo das guerras toca no mais profundo sentimento humanista, porque os Combatentes nunca deixam de ser racionais.


       Nunca me alheei das causas e dos valores capazes de fomentar a vida harmoniosa e feliz das pessoas, jamais esqueço o tempo das angústias partilhadas com os camaradas de armas, porque os nossos parentescos e afinidades se forjaram nas mais duras e terríveis jornadas no meio da guerra.


      Os anos passam velozes ou lentos consoante o conforto ou desconforto que a vida nos proporciona. Mas gostaria de recordar os nomes de todos vós – companheiros de todas as horas, que me animastes em dias de bruma e momentos de inquietação, porque me transmitiam confiança para desafiar os terríveis dias do sofrimento que não conseguia aliviar-vos. Dúvidas, nunca as tive porque a vossa presença em meu redor, mesmo nas mais complicadas missões, atirava para bem longe o medo dos confrontos com o inimigo e com a engrenagem da guerra.     


Muito do que fizemos e aprendemos resultou num eficiente desempenho que os anos concertaram com sucesso. Crescemos juntos, entre o medo e a coragem de vencer, apesar do desconforto dos fanatismos e dos ódios que alguns cobardes tentaram fomentar.


Para a narrativa de alguns episódios deste livro, gostaria de chamar-vos um a um, pelos nomes que sempre estimei e se escapam na memória do tempo. Mas, por razões de ética e privacidade, alguns dos nomes são fictícios. No entanto, a vossa presença faz parte das vivências aqui descritas, para que outros percebam os valores que a vida contém e muitos desperdiçam ou desprezam com desdém.


      Apesar de todas as vicissitudes e desagradáveis confrontos com a hierarquia arcaica, dos processos disciplinares, inquéritos militares e pidescos, valeu a pena despender tempo e ocupar lazeres nas aulas que ministrei com gosto e alegria, através das quais, muitos de vós conseguistes colher sabedoria que vos proporcionou melhores proventos e outros benefícios para uma vida harmoniosa e feliz. 


     A idade não perdoa e vamos envelhecendo naturalmente, mas ainda temos uma reserva de energia que armazenamos nos dias de salutar camaradagem e confortáveis convívios dentro e fora da guerra. A nossa emancipação aconteceu naturalmente, porque dispúnhamos da formação adequada às reais transformações que o mundo nos impunha. É este sentimento que nos ajuda a envelhecer sem envergonhar o nosso passado nem os nossos desempenhos, tanto na guerra como na sociedade. Esse é o resultado que nos permite ter outra visão das circunstâncias que atrapalham e dificultam a vida nos dias que nos restam.


      Deixamos uma herança com valores marcantes para a geração de homens valentes que muito aprecio e jamais esquecerei de partilhar com os vindouros, porque merecemos reconhecimento e respeito. Ah! como gostaria de pronunciar todos os vossos nomes, mesmo que o convívio possa parecer mais virtual do que natural. Mas deixo o meu legado das memórias, para que os nossos filhos e netos possam orgulhar-se do que somos – homens valentes e virtuosos, lutadores por um mundo solidário e feliz.   


Prólogo no Livro: “A guerra Armadilhada”, publicado em 2016.


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