quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Consoada de Natal na guerra

1961 – Natal e Ano Novo em alerta


A vida em Luanda decorria agradavelmente e prometia um período de Festas natalícias e fim de ano com grande folia para os Pára-quedistas em “descanço”, depois do regresso das operações de reconhecimento e assalto na zona de Maquela do Zombo, até à fronteiro do Congo ex-Belga. Na hora de almoço, o pessoal da 3ª. Companhia, sediada no Hangar Velho, deliciava-se a ver a saída das centenas de alunas do Liceu Guiomar de Lencastre, mesmo em frente ao barracão do refeitório; vestidas de batas brancas, pareciam bandos de pombas lindas que dava gosto apreciar. 


Havia euforia pelo recebimento de elevada quantia de dinheiro, pago pelo sargento Marco Aurélio, administrativo da companhia, dos retroactivos dos meses de Setembro e Outubro de 1961, das “ajudas de custo” correspondentes ao tempo em que o pessoal enviado para Angola em “destacamento” era pago pelo orçamento da Metrópole; ou seja, pagamento em triplicado – muito dinheiro para a época, cerca de 12.300$ (3.740 euros de hoje).


Estávamos em vésperas do primeiro Natal passado em Angola. Suspirávamos pela consoada com o amigo bacalhau e algumas guloseimas oferecidas pelas confeitarias da baixa de Luanda. As colunas de reabastecimento aos aquartelamentos dos Dembos já tinham chegado ao seu destino, para contentamento dos militares sitiados pelos locais inóspitos da mata africana.


A inesperada visita do Comandante Alcínio Ribeiro lançou uma onda de desanimo sobre os que já haviam combinado consoar com famílias amigas em Luanda. Entre os documentos encontrados numa missão evangélica americana na zona de Maquela havia indícios da  preparação de ataques à população de São Salvador do Congo. Os serviços operacionais destacaram a 3ª companhia de Pára-quedistas para reforçar a defesa da cidade no período das festas de Natal e Ano Novo. Com os bolsos cheios de dinheiro, com os equipamentos individuais e armas adequadas, cerca de 95 militares embarcaram em três aviões Noratlas rumo ao norte (S. Salvador do Congo); instalaram-se nos terrenos anexos à Missão Católica local, onde funcionava uma escola de formação profissional para nativos e dirigida por missionários italianos.


Dois dias antes do Natal, procurei nas três lojas locais e comprei oito garrafas de vinho do Porto para festejar com os meus camaradas. Instalamos as tendas, a cozinha, reparamos um baloiço, fizemos o reconhecimento dos pontos essenciais para reforçarmos as defesas na proximidade da igreja e na missão onde nos alojamos.


Com as defesas em alerta e aproveitando os alimentos disponíveis, fizemos a consoada com alguma animação, tentando mitigar a saudade da família. Ora, quando descansávamos deitados na manta e acossados pelos mosquitos, o inimigo desferiu o primeiro ataque na zona da pista de aviação. Dois pelotões avançaram silenciosamente, tentando cercar os insurgentes inimigos; flagelamos os vultos que vimos em movimento, até os escorraçar para longe. Ficamos entrincheirados nas valas escavadas para escoamento das águas da chuva ao longo da pista. Cerca de uma hora depois da retirado do inimigo, os três cães de guerra que nos acompanhavam começaram a ficar inquietos e os tratadores tentavam perceber o motivo. O Baleia deu o alarme: estamos a ser atacados pelas formigas… que grandes formigas encontramos dentro dos camuflados; agarradas à pela, deixavam as mandíbulas quando as arrancamos.


Era madrugada e descemos para o local de repouso, onde não houve mais condições para dormir. Cada um, à sua maneira, foi-se acomodando nas tendas até à hora do pequeno-almoço em ração de combate. 


Enquanto se faziam planos para a passagem de ano, o pessoal ajudou a limpar o capim dentro do espaço que rodeava os edifícios da Missão Católica e das oficinas onde preparavam os jovens na arte da costura, trabalho administrativo e trabalhos gráficos na tipografia. Assistimos às cerimónias litúrgicas na igreja da cidade, onde se juntava quase toda a população e a família antiga Rainha Ginja, descendente dos Reis do Congo, reconhecida por Portugal (para satisfação da população da região fronteiriça do Congo), a qual vivia numa casa apalaçada, onde se hasteava a bandeira portuguesa todos os dias. Esta família tinha uma pessoa idosa que recebia as honras como se tratasse de um rei, descendente do Rei D. Pedro VII.


Tivemos rancho melhorado no jantar de fim-de-ano, com bacalhau e batata com hortaliça, além da sobremesa colhida, pelos soldados mais ágeis a subir às mangueiras de frutos amarelinhos e saborosos. Mas a tranquilidade mais uma vez foi quebrada ao som do estrondo das granadas e tiros disparados contra os inimigos insurgentes, que atacavam pelo lado sul, já próximos da igreja. Repelidos os bandidos, voltamos ao retiro das nossas tendas.


Os primeiros dias de Janeiro de 1962 foram de grande actividade no reconhecimento das matas e esconderijos próximos das localidades de Banza Pango, Luvo, Cuimba até Maquela do Zombo. Os condutores da guarnição do Exército fizeram o transporte dos paras em viaturas para as zonas a reconhecer. Tudo correu sem incidentes de maior, até ao regresso a Luanda.


do Livro: "O Despertar dos Combatentes, fotos e estórias em Angola" - Clássica Editora


Joaquim Coelho


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72.A - Depois do assalto... fogo nas palhotas.jpg


- Vale do Lucunga - o tal cão....jpg


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..Vale do rio Mbridge - esconderijos inimigos.....


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- Equipa do cabo Morgado a almoçar....jpg


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...Joaquim Coelho e Afonso Morgado em Maquela do Z


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Nota encontrada na missão evangélica americana de Maquela do Zombo

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