quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Ganâncias, os compadres...

 




 


 

EMPREGOS SEGUROs…   

 

Como tantos outros políticos exemplares preocupados com o bem-estar dos cidadãos, este varão, farto de ocupar pequenos cargos com remunerações miseráveis e a reforma aos oito anos de trabalho, mexeu os cordelinhos, deixou de ser deputado na Assembleia da República e lançou-se para outros voos mais bem recompensados. Descuidado com os estudos, nunca pensou que isso fosse motivo para ser confrontado com as reservas postas pelo ministro, que lhe lembrou:

- Sabes que o lugar de administração que pretendes ocupar na empresa pública a que te propões exige, pelo menos, uma licenciatura… que não tens.

- Eh pá! Com essa é que não contava. Sempre fui afecto ao partido, angariei milhares de contos para as campanhas e, agora, vens-me dizer que não posso entrar na administração duma empresa financeira do estado?

- Pois é, vê se arranjas um diploma numa dessas universidades que dão as notas de exame consoante o dinheiro que estiveres disposto a pagar, porque o lugar que pretendes vale muitos milhões… e sempre ficas a lucrar.

Duas semana depois, o varão que foi deputado, entrava no gabinete da administração da empresa pública e ocupava o oitavo lugar mais importante dos cargos políticos do Estado.



                        O compadre e o primo varão

                      



Sabendo do sucesso do primo  que passou para um emprego onde ganha dezenas de milhares de euros por mês e tem garantida uma reforma milionária aos cinco anos de trabalho, o compadre Gaspar aproveitou a visita à nova praça de toiros do Campo Pequeno para meter um pedido ao primo varão:

- Sabes como é, a vida está insuportável lá pelas aldeias, não há trabalho nem vontade para trabalhar…

- Tens razão, primo. Trazes algum comprovativo de habilitações para concorreres a um lugar na empresa?

- Caraças, primo! Então isso é preciso para alguma coisa?

- Bem, vais esperar naquele gabinete, que já trago um formulário para preencheres…

O compadre já fazia contas ao ordenado que ia ganhar, pois confiava nas habilidades do primo para o deixar bem colocado. Entretanto, foi medindo os poderes e a força da vara que lhe punha uns papéis na frente, percebendo ouvir uma voz sonante:

- Ora preenche lá isso, para formalizar o processo de admissão.

O compadre Gaspar, ainda incrédulo,  olhou de soslaio para o primo e retorquiu:

- Eu não percebo nada disto, podes preencher os papéis e eu assino, pois ainda há pouco tempo que vieste para cá, sempre estás mais familiarizado…

- Oh primo, eu não precisei de preencher papel nenhum… Mas, responde-me a algumas perguntas, para ver o que se pode arranjar. – Um lugar de caixa é de alguma responsabilidade e também ganhas razoavelmente…

- Não primo, isso é perigoso… estar com a mão na massa pode aguçar-me o gosto pelo dinheiro alheio e causar desvios que me levem à prisão; depois, posso ser confrontado com um ladrão que, para deitar a mão a uns míseros tostões, pode arriscar a vida dele e a minha. É muito perigoso.

- Tens sentido da responsabilidade, vais para porteiro. Supõe que te aparece pela frente um ladrão de cara tapada e ameaçando assaltar as caixas, qual será a tua reacção?

- Está bom de ver, se vem de cara tapada, franqueio-lhe a porta para não me chatear. Até, porque pode ser algum amigo meu – diz o compadre.

- Mas se for um grupo de assaltantes de armas em punho… o que é que tu fazes?

- Porra, primo! Mal os visse a rondar as portas, escapulia-me de mansinho, sem que ninguém desse por nada.

O primo, que já não é vara verde,  coça a cabeça e deixa um sorriso na direcção do compadre Gaspar:

- És um tipo inteligente e com sentido da realidade. Vais para chefe dos seguranças.

                                                      





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