Caminhando ou voando como as andorinhas…
A serenidade e o respeito são as bases para despertar a admiração ou interesse de pessoas em encontros casuísticos e espontâneos, em qualquer lugar e circunstâncias.
A tendência para o enamoramento ousado e franco acontecia nas escolas, nas romarias, nos ranchos folclóricos, nos bailes festivos, nas viagens, nos festivais desportivos, nos cinemas. Tudo passava por um olhar atento, um sorriso, umas palavras melodiosas e intensas, um papelinho escrito, um toque atrevido e quando havia afinidade… uma promessa de beijos doces. Foi neste registo que sempre me contentei com o essencial, deixando que tudo acontecesse naturalmente e aprendi que a ambição desmedida pode prejudicar as naturais oportunidades de sermos felizes.
A obrigação do serviço militar ilibou-me de compromissos sérios, embora os relacionamentos tivessem sempre uma boa dose de respeito, cortesia e afinidade sincera, que se interromperam com desgosto. A ida para a guerra em Angola causou uma mudança drástica de responsabilidades e perigos; em conversa dolorosa com a namorada, descartei a continuação do compromisso para não deixar ninguém à espera do meu regresso ou não da guerra!
Nos namoricos anteriores, tive algumas desilusões e aprendi a apreciar com serenidade os comportamentos indecifráveis da juventude. Os primeiros lamentos surgiram por causas externas e mudanças de região, como partida para a emigração ou o Brasil; outros por incumprimento das regras, deslealdade ou comportamentos desviantes, mais evidentes em algumas miúdas de Luanda. Nunca fiquei refém de nada nem faltei à verdade. Parte das minhas namoradas continuam minhas amigas; quando a vida nos aproximou, em circunstâncias apropriadas, retomamos as relações antigas. Cada um com suas vidas, convivemos sem sinais de desagravo ou repulsa, mas com cortesia e respeito.
Em homenagem a todos os casais que continuam a privilegiar os dons do namoro, publico algumas memórias com sentido de partilha dos momentos de grande felicidade, os quais fermentaram os condimentos especiais para fortalecer laços de amizade com a profundidade dos amores eternos. O enamoramento permanente é um poderoso elixir da felicidade e faz fluir o que de melhor pode ter o ser humano. O facto de mantermos acesa a chama do amor, evitamos doenças e o desgaste prematuro dos corpos. Os relatos que se seguem podem causar perplexidade pela forma desprendida, ou até leviana, como trato as questões dos relacionamentos, mas demonstram a experiência de vida em movimento concentrado nos valores do respeito e da interpelação amistosa e prestativa em função das oportunidades casuais.

CARTAS – Imagem Maravilhosa
A distância é uma barreira que se opõe ao nosso olhar, mas recordo a magia absorvente do teu corpo e os teus olhos sorrindo ternamente com lampejos de ternura que me animam e ajudam a suportar as adversidades desta guerra. És a imagem maravilhosa, tão límpida e fresca, fixada no meu cérebro para ajudar a combater o meu desalento até à renovação do encontro que teremos um dia... que não será tarde. Isso, meu amor, é um ingrediente que estimula o desejo de puder estar sempre a teu lado; é um gosto como uma embriagues que se apodera de mim, sentimento que enaltece os ditames do destino enobrecendo as emoções que me iluminam o espírito nas horas mais tristes.
O tempo que alonga esta ausência de nós, pode encurtar o meu grito mas prolonga esta nuvem invisível que torna opacos os nossos olhares, enquanto a magia absorvente do teu corpo me faz acreditar que não há barreiras que travem a expansão do nosso amor. Olhando o céu azul, vejo na transparência da claridade alguns lampejos de ternura que fazem vibrar meu coração e fortificar esta razão de ser feliz. Isto também ajuda a estimular o desejo de terminar este desassossego em que vivo, regressar aos teus carinhos que contagiaram a minha imaginação, de tal modo que os ingredientes harmonizam as emoções que fazem enfrentar as adversidades até encontrar a luz que alumia o nosso destino.
Também espero que este esforço que vou fazendo na divulgação das palavras certas para combater as injustiças e os atropelas à verdade, mereça a condição de fazer pensar positivamente muitos compatriotas que vivem estes infortúnios na mesma dimensão que me tocam. Pelo menos que ajudem a combater a obscuridade que empobrece a humanidade. Espero ser compreendido com inteligência e sem conotações fanáticas contra as maldades dos adversários. Procura seguir sempre dentro dos parâmetros da razão e da justiça.
O mundo está em acelerada transformação e desliza perigosamente para o confronto. Vejo as pessoas cada vez mais egoístas e desumanas, espalhando a maldade e perversidade que vai minando os raciocínios menos prevenidos, levando à perda da delicadeza e da sensibilidade. Assim as ideias perdem força e as inteligências são incapazes de raciocinarem com pensamentos positivos e dignos de acções benéficas para o bem comum.
Ando em contramão nesta guerra que me atormenta e causa desalento. Nada é certo em cada saída para o norte, zona de guerra onde o perigo espreita em cada momento; depois de um ano de guerra, começamos a descrer da nossa razão. Sem alarido e sem desgosto, acredita que um dia posso não voltar... mas saberás que foste o meu amparo nos dias difíceis de desânimo e este amor esvoaça sem se perder. Um dia terei com mais alegria os teus carinhos para nos animar o futuro.
Luanda, Março de 1962
Joaquim Coelho
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ADOLESCENTES
Era linda aquela tarde
em que o sol espreitava
por entre as nuvens soltas
como o teu cabelo ondulante
a rabiscar teu rosto airoso
no arraial de santo António,
os foguetes estoiravam no ar
tal como a nossa juventude
esplendor do tempo p’ra amar
estavas envolta na blusa bege
que te cobria os finos ombros
e eu olhei-te… sem rodeios
pus a mão nos laços verdes
que desciam até aos seios.
Deixaste sair um sorriso
tão aberto e desprendido…
ansioso, perdi o juízo
ao controlar os movimentos
das mais próximas amigas;
com o olhar esboçavas
curiosidade na minha acção,
mas não quero que me digas
se era a mim que procuravas
um lugar dentro do coração.
Discreto, segui teus passos
porque estava no meu dia
sem exílios do coração
e por estares ali presente
na tarde da minha solidão;
Eu nunca tinha imaginado
viver os mesmos sonhos
em momento apaixonado
com amor chegando aos pares;
naquela tarde percebemos
o que é a invasão dos corpos
na ternura dos olhares…
envoltos na fantasia da noite
ficamos embriagados de amor
e descobrimos a sensualidade
estimulando com fervor
os sinais vivos da felicidade.
S. Vicente, 17 de Junho de 1956
Joaquim Coelho



5 - Clandestino para o Brasil!
Foi na cidade do Porto que tive relacionamentos de amizade e luxúria com as mulheres que conheci nas festas da cidade, nos hotéis e nas escolas. Os namoros nunca foram arrebatadores, salvo com uma jovem brasileira que veio conhecer os avôs de Sanfins do Douro, permanecendo, com os pais e um irmão mais novo, entre o Porto e as terras do Douro, durante dois meses. Acontece que, dois meses antes da sua chegada ao Grande Hotel do Porto, tive oportunidade de ir para o Brasil jogar hoquei em patins, com a equipa do Vasco da Gama do Rio de Janeiro; mas não tive a necessária autorização do meu pai.
A Rosa Maria era um encanto de menina da minha idade que, ao fim da tarde, parava pelo segundo andar do hotel a ver as empregadas da camisaria Confiança na arte de confecção. Sempre que tinha vaga no meu trabalho de ascensorista, ia falar com ela, numa perspectiva de namoro. Ela falou com a família e deu conta da minha intenção de jogar hóquei em patins no Brasil. Fui bem aceite e levaram-me a Sanfins do Douro, para conhecer a restante família dos Bolonhas. Quando se aproximava o dia do seu embarque para o Brasil, falei ao meu pai, mas ele não autorizava que eu fosse. Com apoio da Rosa Maria e de um dos seus empregados, preparamos o meu embarque “clandestino” no paquete que partia de Leixões. Enchi uma mala com alguns pertences e utensílios de higiene, escrevi num papel, que afixei na porta do meu roupeiro do hotel, “parto clandestinamente para o Brasil. Rosa Maria no coração”.
Entrei no paquete pelas dez da manhã, protegido pela Ana Maria e pelos seus empregados, instalando-me nos seus aposentos. Ao princípio da noite, saímos para um dos varandins para ver o mar, sabendo que o paquete saia de madrugada. Pouco mais de uma hora passamos ali - chegou a polícia para me prender! Abraçados e chorosos, os pais da Ana Maria ficaram espantados com a nossa aventura. Acabou ali o sonho do Brasil.
Joaquim Coelho
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Chegado ao hotel, sofri a chacota dos meus colegas de trabalho, por ter escrito o papel que me traiu! Recuperei desta ingénua desilusão… dedicando-me mais aos estudos de línguas e turismo, com vista a ser Guia-turístico internacional, que muito me fascinava.
VIAJANTES DO AMOR
Viajei nas asas do sonho
com o fascínio do enlevo
em terras imaginadas
na lonjura dos afectos
sem horas programadas
para os desejos directos.
Praias lindas… um amor
que desponta indeciso…
a menina é um primor
a contornar o meu juízo
natureza viajante
dentro dos neurónios
arquitectando uma cabana
onde se confortam os corpos
carentes toda a semana.
Horizontes de terra e mar
praias lindas e caminhos…
sonhos que o acaso criou
na cabana à beira-mar
amor e muitos carinhos
que o tempo fustigou
a vontade de quem ama
no torvelinho da vida
esperança consentida
deitada na mesma cama.
Porto, Setembro de 1957
Joaquim Coelho

6 – Abandonos Dolorosos
Depois do curso de Turismo em Londres, fui admitido no SNI e entrei nas actividades de guia-turístico com muita devoção. Era um trabalho empolgante, com bom relacionamento e abundantes situações de visões oníricas. As excursões de francesas dos correios ou das empresas públicas tinham o condão de trazer jovens modernas, com mais sensualidade do que a nossa sociedade. Não namorava mas divertia-me com as moças nos bailes e paródias nos clubes e festas nos Fenianos, Ateneu Comercial, nas Fontainhas, Monte Aventino, Desportivo de Portugal e outros na cidade do Porto.
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Como o salário do meu trabalho no turismo era modesto, aceitei a sugestão da Dona Ema, virtuosa madrinha do Rancho Folclórico onde eu dançava, para ir trabalhar nos laboratórios da Fábrica Oliveira Sá, propriedade do marido Senhor Eduardo Sá. Para uma melhor prestação no trabalho, entrei para Escola Industrial do Infante D. Henrique; poucos dias depois, comecei a simpatizar com a Mary Fere Muñoz, companheira de turma, espanhola de Pamplona, cujo o pai era delegado de uma empresa espanhola no Porto. Linda como o sol, trejeitos muito mais sensuais do que as portuguesas; durante ano e meio, tivemos um realcionamento de grande cumplicidade e foi o meu encanto até ir para a tropa.
Ao saber da minha nomeação para a guerra de Angola, fiquei desolado e resolvi despedir-me de todas as amigas e da namorada. Precisamente nos dias que vagueei pelo Porto, sem coragem para ir a casa despedir-me da família, quando almoçava na adega do Quim, na Rua da Madeira, uma sobrinha dele prontificou-se a ser “madrinha de guerra”! Levei a direcção e escrevi duas vezes, deixando de escrever a todas as outras amigas e namorada.
SOY ADORMECIDO
a la Mary Fere Muñoz
Como la flor muerta
que vive sola
yo tengo en mi corazón
como una piedra suelta
la vida y tu razón…
En las noches de plata
soño con tu amor,
el sueño es vida no vivida
e tu no te dás cuenta
deste que no te olvida!
Yo soy adormecido…
la vibración de mi alma
es el recuerdo de ti.
Mientras, pido a Dios
con sentida devoción
amor por nosotros
e que la vibración
de mi alma
no seya ilusión…
Porto, Março de 1959
Joaquim Conejo


Em Angola, havia demasiada oferta de miúdas para namorar, gozar e viver a vida. Entre períiodos nas zonas de guerra, dias em reportagens e tempo para descanso em Luanda, a vida era um desafio intermitente com o sofrimento entre capinzais e as delicias lúbricas nos recantos aconhedores dos jardins. Como escrevia para os jornais e revistas, comecei a ver endereços de mulheres do Brasil, França, Canadá, Itália… com as quais me correspondia e era informado do modo de vida daqueles países.

Ao regressar a Portugal, soube que a “madrinha de guerra” Laurinda, sobrinha do Quim da adega, havia casado com o José Carvalho, meu camarada de armas! Numa conversa amistosa que tivemos, entreguei-lhe uma fotografia da Laurinda e desejei-lhes boa sorte.
Escrevi à Mary Fere e recebi resposta da irmã Felícia dizendo que a Mary Fere tinha casado, por nunca mais saber de mim! Que aa família vivia em Pamplona e que gostava de corresponder-se comigo até à Festa Internacional da Juventude marcada para o Verão de 1963. Uma vez que nos conheciamos do tempo em que esteve com a família no Porto, trocamos cartas e fui encontra-la em Lisboa, onde combinamos outro encontro nas Festas de S. Fermin de Pamplona. Para lá fui, tendo passado dias maravilhoso com a Felícia, ao ponto de sairmos do meio da algazarra das largadas de toiros e irmos espairecer para o meio de um canavial que ficava perto da antiga praça de toiros… belíssima ideia, momentos de afagos delirantes.
Mas, no decorrer dos três dias da Festa Internacional da Juventude, conheci a Paola, uma italiana esbelta de Brescia, que estudava em Milão; combinamos e fui passar uma semana com ela, que correu calorosamente. Enviou-me desenhos de cenas de circo eróticas, muito sugestivas. Mas a distância e dificuldade de entendimento interrompeu a ligação…
Ainda na Festa de Lisboa, conheci a Maria Olívia, de Bragança, amiga da namorada do meu amigo e camarada de armas Humberto Nogueira. Poucas semanas depois, viajei com o Nogueira, na moto dele, até Bragança. A Livinha era muito jovem e irreverente; passeamos e divertimo-nos na Feira das Cantarinhas e na praia do rio Sabor. Trocamos correspondência e ficamos bons amigos… nada mais, porque tinha namoradas perto do quartel de Tancos.
Enquanto andava na guerra em Moçambique, fui presenteado com umas férias na metrópole e em cinco paises da Europa e reatei o namoro com a Maria Olívia, que já trabalhava em Lisboa. Depois de regressar da guerra em Moçambique, casamos e fomos felizes, compensados com três filhos encantadores. Coitada, não resistiu a tumores malignos e metástases, morreu cedo.
Joaquim Coelho
In Livro: "Apologia do Romântico" - Edições Sentinela-MAC





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