sábado, 13 de agosto de 2022

Tempos sem Tempo - Reflexão

Ocorrências neste Mundo que é nosso

   Estamos sem tempo para programarmos a vida, dependente das contingências dos poderosos sistemas e ideologias que nos agridem a mente e perturbam a nossa vida de cidadãos pacíficos e com direitos. Para nos defendermos, precisamos de muita força anímica, união de esforços na defesa das nossas Famílias, comunidades e grupos de Amigos, de modo a combater a proliferação de nocivos desvios da principal razão da nossa sobreviência humana, programados pelos ideólogos extremistas, tendencialmente ditatoriais e atentatórios da nossa liberdade de cidadãos pensantes. Mas, há muitos anos que o mundo se debate com tais problemas de solidariedade humana. Preocupações que expressei há mais de 60 anos.

Partida - a DECISÃO  SOFRIDA

 Antes da partida para combater em Angola, não me despedi de ninguém. Nem da família nem dos amigos. Foi uma forma de cortar caminho ao sofrimento do dizer adeus.


Embora tivesse ido a Angola, como repórter de guerra, em Março de 1961, com jornalistas e repórteres do grupo do locutor e jornalista Artur Agostinho, só em Setembro de 1961 embarquei como combatente, sendo integrado no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21.

Dois meses depois de entrar nos meandros da guerra e sentir os primeiros arrepios, encontrei uma sentida mensagem à gente da minha terra, escrita na véspera do embarque a caminho da guerra. Conhecia a posição do Padre Antídio Coelho de Sousa no Notícias de Penafiel, enviei-lhe a mensagem abaixo, que foi publicada.

Passados os primeiros oito meses de guerra, comecei a ter dúvidas sobre as razões da nossa intervenção e permanência. Descobrindo os meandros dos interesses instalados para colheita das riquezas e dos bens de Angola, senti o azedume dos lamentos e das desilusões quanto à defesa da pátria.

“MENSAGEM 

Neste momento de dúvida e de tristeza, sinto a nostalgia da ausência que me dá saudade. Vou abandonar a Mãe-Pátria e partir para a nossa mártir Província de Angola. Apodera-se de mim o desejo de abraçar todos os entes queridos, os grandes amigos e colegas.

Estou sensibilizado, mas não desejo ser herói nem famoso, não pretendo conquistar o que quer que seja. Sou chamado a defender a Pátria. A manter a soberania Portuguesa. Parto confiado na protecção Omnipotente. Será sempre essa a minha defesa, o meu refúgio. Agora que me afasto de vós, pedi a deus para que eu não tarde a voltar. É meu dever; por isso vou com a fronte erguida.

   Gostaria, se fosse possível, ajudar os cristãos, os negros, tanto como os brancos. Por parte da nossa bondade todos temos o desejo de nos ajudarmos uns aos outros. Assim são as pessoas civilizadas. Queremos viver da nossa mútua felicidade; não nos devemos odiar uns aos outros. Neste mundo há lugar para cada um. O caminho da vida é rico e magnífico, mas perdemos esse caminho. A flor do mal quer-se impor à flor do bem e da justiça. A voracidade envenenou a alma dos homens, rodeou o mundo de um círculo de ódio que nos fez entrar na miséria, na malquerença e no derrame de sangue a grandes passos.

  A fraqueza da inteligência tornou-nos duros e brutais. Pensamos demasiado e não sentimos o suficiente para darmos conta do precipício que nos espera, se assim continuarmos. É mais de espírito humanitário do que mecanização que temos necessidade. Mais do que inteligência, precisamos de amabilidade, de bondade e gentileza. Sem estas qualidades, a vida não pode ser senão violenta, e tudo estará perdido.

  A Aviação aproximou-nos uns dos outros. A própria natureza desta invenção apela para a bondade dos homens e reclama uma fraternidade universal para a união de todos.

  Aos leitores desta Mensagem, eu digo:

- Não desesperem. A infelicidade que caiu sobre nós não é senão o resultado de um apetite feroz, do azedume de homens que descrêem do caminho da justiça. Mas, o ódio dos homens passará e os agitadores morrerão e o poder que usurparam ao povo voltará ao povo pacificamente; embora com o custo da própria vida de alguns dos nossos irmãos de raça. E, até sempre que os homens saibam morrer e haja um Português e uma espada a liberdade nunca perecerá.

  Vós amigos, vós tendes o poder de criar uma vida livre e esplêndida... de fazer dessa vida uma aventura se não um progresso radioso. Unamo-nos todos. Combatamos para um Portugal melhor, para um mundo novo e calmo; um mundo decente que dê a cada homem a possibilidade de trabalhar, que dê um futuro à juventude e que ponha os velhos ao abrigo da necessidade.

  Lembrai-vos do Cristo que morreu por nós, em todos os momentos difíceis da vossa vida, das vossas acções.

  Confiado na frutificação destas palavras, termino.

  Levo imensas saudades de todos vós, da terra e da camaradagem...

            do vosso amigo inesquecível,

Joaquim de Sousa Coelho – Pára-quedista”


NOTA: Publicado no livro, de minha autoria, "Estilhaços", editado em 2019

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101.A - - Depois do assalto... fogo nas palhotas!.

sábado, 14 de maio de 2022

Voltas com Aviões no Paraquedismo

A Vida aos Saltos


Em consequência de nefastas apreciações do caracter e do meu “aprumo militar”, decidi frequentar o Curso de Paraquedismo desportivo num Centro-Escola de Paraquedismo em França; mais precisamente “Centre-École de Parachutisme Bergerac”. Aproveitando o período de férias, por informações colhidas junto do alferes paraquedista Lobo de Oliveira, apresentei-me naquela escola e, depois de duas semanas de treinos intensos, sob orientação do director e exímio pára-quedista Christian Moreau, terminei o Curso no dia 14 de Maio de 1965, uma sexta-feira luminosa e com temperatura amena.


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Apesar dos cuidados com o equipamento e pormenores de preparação para os saltos, deliciei-me com as paisagens de grandes vinhedos e monumentos muito antigos espalhados entre florestas e vinhas. Tive oportunidade de provar os saborosos vinhos da região da Aquitânia e deslumbrar-me com a beleza das típicas habitações e ruas medievais.

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Perante a estátua de Cyrano de Bergerac, recordei algumas das histórias contadas sobre este homem, escritor e crítico dos seus professores, de nariz comprido e de ascendência Gasconha e destacado militar.

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Região de terras planas de bons vinhedos, bem perto das castas de Bordéus, onde habitam camponeses e comerciantes com tradições ancestrais. Os vinhedos plantados em volta da cidade produzem excelentes tintos baseados nas castas Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Nas brancas predominam a Sauvignon Blanc e Semillon.

A região não é tão famosa quanto a sua vizinha Bordeaux. Em Bergerac produzem-se vinhos de alta qualidade. Os tintos são vinhos encorpados, com taninos especiais e bons acompanhantes de pratos à base de molhos mais reforçados.


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Num tempo sem tempo para incómodos com ninharias abstratas, o capitão paraquedista Rua (chefe dos serviços de informação e tipografia) “participou” ao comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, Mário Robalo, que o sargento Joaquim Coelho deveria ser punido disciplinarmente e proibido de continuar a dar aulas aos militares, dentro do quartel. Na “participação de 25 linhas” lembrava que o Coelho, depois de advertido para as consequências de possíveis quebras de disciplina perante as praças, não havia acatado a sua chamada de atenção e que, tal teimosia, poderia criar situações de conflito com a hierarquia militar! O comandante Robalo era pessoa de uma notável sensatez e, na reunião com os dois "beligerantes", mostrou não haver razões para tais "perigos",  rasgando a dita "participação disciplinar".

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Ora, como decorria o curso de instrutores/monitores onde eu participava, avisei os "alunos" para a suspensão das aulas e que só seriam retomadas um mês antes da preparação para os exames previstos no Liceu Nacional de Santarém.

Mas, como os ratos invejosos e maldosos conseguem nadar à tona e viver com a imundice, não tardaram a arranjar motivos para me afastarem do dito curso. Quando iniciamos os saltos em queda-livre, percebi que o Ângelo Perry abriu o paraquedas na posição de pernas abertas e cabeça para baixo, tendo rasgado a calote do para-quedas! Após o almoço, ao sair do clube de sargentos, vi o Norberto ameaçar o Barista por lhe recusar servir mais um brandy L34! Durante o período de crítica, no final da instrução, denunciei tais situações perigosas para aqueles camaradas de curso; logo a pulhice veio ao de cima e fui afastado do curso… pois, entre os instrutores, havia dois indivíduos prevaricadores no consumo de bebidas alcoólicas!

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O curso realizado em França abriu-me novos horizontes na vida e contribuiu para adquirir conhecimentos que fui aperfeiçoando com outros paraquedistas encontrados nos torneios e campeonatos internacionais que, apesar da nossa pequenez competitiva, serviam para salutares confraternizações, desenvolvimento mental e harmoniosa partilha de afectos.

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Mais tarde, integrado no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 31 - Moçambique, consegui vencer as "resistências" de alguns revanchistas contra quem não tivesse o curso de instrutor militar. Com autorização do chefe da "manutenção e dobragem", capitão Arlindo Mendes,  efectuei alguns saltos de âmbito desportivo, na companhia dos sargentos Camboias, Lourenço e Helder; apesar de tal autorização, em duas sessões de saltos programadas, fui interpelado pelo Major Horácio Oliveira que me impediu de efectuar os saltos com pára-quedas de abertura manual.

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Doze anos depois, já na vida civil, a partir de 1979, juntamente com outros Paraquedistas, tais como o coronel Avelar de Sousa, os civis Valdemar Silva, Ramiro Padrão, Manuel Peixoto, Manuel Gonçalves e Avelino Cruz, entendi continuar a desenvolver o Paraquedismo Desportivo, tendo como assessores os dirigentes Manuel Martins e Luis Moreira de Sousa; inicialmente, através do Aero Clube Universitário de Lisboa e, depois, na Associação de Paraquedistas do Norte (onde fui presidente nove anos), no Aero-Clube da Costa Verde (director da secção de paraquedismo) e Aero-Clube de Braga.

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Criamos uma dinânica de trabalho organizado e persistente, vencendo dificuldades de meios materiais, em parte suprimidas com a disponibilidade de pára-quedas e pessoal do Corpo de Tropas Pára-quedistas e Base Operacional de Pára-quedistas nº 2 - S. Jacinto, por acordo assinado entre a APN e o Comandante Brigadeiro Pára-quedista Heitor Hamilton Almendra. Coordenados pelo Major Agostinho Cavaco, foram administrados os primeiros cursos com grande adesão de alunos, onde se formaram mais de oitenta novos Paraquedistas; em 1979 e 1984, realizamos dois Torneiros internacionais, com a participação especial de duas equipas femininas francesas. O sucesso alcançado levou à organização do Primeiro Congresso de Paraquedismo, realizado no Casino de Espinho, com partricipação do Director da Aeronáutica Civil, Associações e entidades particulares.

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Tributo aos Amigos de todos os Tempos: VER:

https://www.youtube.com/watch?v=c5U_aESWvUU


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Apesar dos resultados conseguidos, vieram ao cima os ressentimentos adversos a esta actividade no norte do país. Inicialmente no Aero Clube de Portugal, dominado pelos dirigentes do Aero Clube Universitário de Lisboa (extraviaram duas licenças de Paraquedista, sendo uma delas a minha) e secundados por elementos do Para-Clube Nacional os Boinas Verdes, entre os quais, o Major Albano de Carvalho, que "fiscalizava" os finais dos cursos.

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Para a total libertação dos "nostálgicos do sistema", a expansão e visibilidade da actividade com sessões de saltos em pára-quedas nas romarias, campos de futebol e praias, atraiu o interesse de algumas empresas para a compra de modernos pára-quedas com publicidade. Outros horizontes se abriram e a prática do paraquedismo desportivo entrou nos domínios do desporto radical.

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Algumas imagens de Bergerac, Aquitânia, França.

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Prémio de Poesia e os Mestres

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O autor, Joaquim de Sousa Coelho

Natural das Termas de S. Vicente, Penafiel, cedo rumou à cidade do Porto, na condição de trabalhador-estudante no Colégio João de Deus.

Depois da formação em “Guia Turístico” no International Career Institute de Londres, mostrava a cidade do Porto aos turistas e frequentava os ensaios do Teatro Experimental do Porto, nas traseiras do Grande Hotel, no tempo em que era dirigido pelo grande António Pedro, entre 1955-60; aí conheceu os poetas Egito Gonçalves e Papiniano Carlos; colaborou com o poeta e professor Pedro Homem de Melo, na Escola do Infante D. Henrique e na apreciação dos Ranchos Folclóricos que apresentava na RTP do Monte da Virgem; a proximidade destes distintos poetas aprimoraram a sensibilidade do Joaquim Coelho para a poesia.

Tempos depois de regressar da tropa (1969), encontrou dois desses conhecidos poetas numa festa de homenagem ao Professor Óscar Lopes, realizada no Académico do Porto; teve a sorte de mostrar os escritos em tempo de Repórter de guerra e poemas dos “diários de guerra” em Angola e Moçambique, os quais mereceram uma boa crítica e logo se prestaram a colaborar na preparação de um livro com a finalidade de participar no concurso que a Editorial Inova estava a organizar. Decorria o ano de 1972. Escolhidos 178 poemas, formatou-se o livro que foi levado a concurso. Destacavam-se os poemas sobre o tempo da guerra do ultramar. Por decisão do Júri, ganhou o "Prémio de Poesia Inovação", com direito à publicação do livro. Dias antes da distribuição do livro, a Comissão de Censura interferiu e a PIDE apreendeu o molho dos poemas.

Mais tarde, o acervo de escritos dispersos (parte deles publicados em jornais e revistas) mereceu a atenção dos seus camaradas de armas, companheiros de trabalho e investigadores universitários e culturais, entre os quais o jovem médico e investigador de acção cívica, social e cultural João Semedo, que incentivaram e desafiaram o Joaquim Coelho a levar à estampa as narrativas com “estórias” dos tempos da guerra, das vidas comuns da sociedade e influentes nas vidas dos amigos e colaboradores profissionais. Com este novo impulso, nos anos 80 e 90, vindo dos camaradas Pára-quedistas, com insistência na publicação das reportagens de guerra, num tempo em que se procurava limpar as guerras coloniais da história de Portugal, a Clássica Editora publicou “O Despertar dos Combatentes” com grande sucesso, cá e além-fronteiras; pois, os críticos da Academia Francesa atribuíram-lhe o Prémio “Récit Homérique”, em 2006 – melhor narrativa.

A euforia livreira do autor, com tal distinção, foi brutalmente abafada pelos efeitos nefastos de dois tumores malignos, que conseguiu eliminar numa luta de três anos. E, os amigos investigadores universitários, encontrarm diversos artigos de relevante interesse social e cívico, publicados em jornais nos anos 80 e 90, contactaram o Joaquim Coelho e voltaram a mexer nos papéis para preparar novas publicações, com especial destaque nas interessantes narrativas de uma vida cheia de peripécias que causam inveja a muitos aventureiros de nomeada universal.

A condição de humildade e serenidade, na postura do autor Joaquim Coelho, causa espanto e respeito aos colaboradores das Edições Sentinela, os quais muito agradecem.

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A MINHA POESIA

Os meus versos podem compor histórias de coisas simples, das coisas que amo, da vida dolorosa dos combatentes, do mundo em que eu amo imenso - o meu. Pode ser um amontoado de palavras, mas é o eco da vida em tons graves, em alegre paródia ou em deleitosos enlevos que fazem parte de mim e que tento conservar como prolongamento dos meus dias.

Assim, na minha poesia voa o meu pensamento tocado pela sensibilidade que me emociona e impõe alguma arte de transmitir as imagens de esperança, para retocar as memórias.

O rosto é um poema em formação… e a voz um sussurro delicioso que tento descodificar, porque vem de dentro como um chamamento que se vê nos generosos olhos anilados!

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SINGELO TRIBUTO AOS MESTRES

Gente importante no desvendar do meu percurso na escrita e no melhor entendimento da sociedade humanista e solidária.  


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Papiniano Carlos


Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues foi um escritor português nascido em Moçambique e radicado no Porto desde a infância.

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 Caminhemos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,

já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.


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Cântico

Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.


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José EGITO de Oliveira GONÇALVES, poeta, tradutor, editor e ator.

Nasceu na freguesia de Matosinhos, foi preso pela PIDE na madrugada de 29 de Abril no ano letivo em que frequentava o 7.º ano de Letras no então Liceu Nacional D. Manoel II. De origem camponesa transmontana, pelo que teve um ambiente familiar com essa componente rural e com o marítimo urbano da vila em que nasceu junto da cidade do Porto.

Iniciou-se na crítica de cinema em Ponta Delgada, como crítico do ‘Cine-Jade’; o seu primeiro texto publicado, no ‘Correio dos Açores’ em 1943 (quando já tinha regressado a Matosinhos), foi o ‘Poema para os Companheiros da Ilha’.

Passou a residir no Porto desde 1948 até à sua morte, tendo vindo a casar nos anos 50 com Fernanda Gonçalves que foi atriz no Teatro Experimental do Porto (TEP).

Em termos profissionais, foi administrador duma Editora e chefe do Gabinete de Marketing duma Companhia de Seguros.

A sua intensa atividade de divulgação cultural e literária concretizou-se, a partir dos anos 50, na fundação e/ou direção de diversas revistas literárias que foram importantes para a divulgação da poesia portuguesa neorrealista e surrealista dos anos 50 e 60 do séc. XX:


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O Fósforo na Palha

Aos meus olhos

a cidade organiza

a sua tristeza.

Uma cintura aperta

a asfixia.

Um furo mais.


Um riso eleva-se

e sou eu que rio

sou eu que amo.


Auxílio a cidade

a suportar.

Um furo menos.

Não há pedras bastantes

para o nosso túmulo.


Sitiados

Esta cidade é a última cidade...

Os muros derruídos estão cercados:

Os canhões troam através dos mapas.


Nossa imagem, revelada pelas montras,

Passeia pelas ruas de mãos dadas...

Somos a última trincheira valiosa.


Unidos, trituramos os assaltos

E renovamos o cristal da esperança.


Os ruídos emolduram-te o sorriso,

Pura mensagem, prenhe de um futuro

Isolado de poeiras e de lágrimas.


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João Pedro Furtado da Cunha Semedo

(Lisboa, 20 de junho de 1951 - Lisboa, 17 de julho de 2018) foi um médico, investigador cultural e político português.


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João Semedo foi médico. Presidiu ao Conselho de Administração do Hospital Joaquim Urbano (SNS), especializado em doenças respiratórias e infeciosas. Autor de diversos projetos-lei na área da Saúde, entre os quais os que conduziram à aprovação das leis de prescrição de genéricos, do estatuto do dador de sangue, do acompanhamento nos serviços de urgência, da carta dos direitos dos utentes do SNS (tempos de espera), da dispensa gratuita de medicamentos após alta hospitalar e do testamento vital.


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